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O editorial de hoje , 26 de junho de 2021, do jornal Público escrito por Ana Sá Lopes tem a vantagem de nos possibilitar refletir sobre algo que, na maior parte das vezes, passa ao lado de alguns das direitas que usam palas no olhos que os obriga a olhar apenas num só sentindo esquecendo-se do papel ativo que tiveram nos desenvolvimentos do terrorismo no pós 25 de Abril, (não  esquecer o MDLP), muitos deles andam por aí utilizando a democracia que o dito cujo dia lhes trouxe para o boicotar logo que lhes oferçam condições para isso.

O editorial esclarece isso mesmo e ajuda e contribui para evitar a amnésia história que muitos pretendem.

 

Editorial

Obrigada, Presidente Eanes (sobre Otelo)

A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos).

Já que o nosso Presidente da República em funções se sente mais à vontade a elogiar Marcelino da Mata do que a prestar homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho, é fundamental agradecer ao antigo Presidente Ramalho Eanes ter vindo lembrar duas coisas básicas: “A ele [Otelo] a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.” Depois do texto confuso com que Marcelo decidiu “evocar” Otelo Saraiva de Carvalho no dia da sua morte, é um bálsamo saber que há um ex-Presidente da República, que abandonou as funções em 1986, capaz de sentido de Estado no momento da morte de um homem decisivo para a nossa liberdade. É evidente que Ramalho Eanes é um homem do 25 de Abril e Marcelo Rebelo de Sousa não é – talvez isto também ajude a explicar que o “filho do governador colonial” esteja mais à vontade para fazer a homenagem a Marcelino de Mata do que para “evocar” Otelo.

Ramalho Eanes não silencia o papel de Otelo nas FP-25 e é claro a condenar os “desvios políticos perversos, de nefastas consequências”. Por esses “desvios políticos perversos”, Otelo passou cinco anos em prisão preventiva. Sim, Mário Soares pressionou PS e PSD a aprovarem a amnistia – mas também tinha sido Mário Soares a pressionar para o regresso de António Spínola a Portugal (esteve exilado no Brasil e em Madrid), outro cabecilha de uma organização terrorista, o MDLP, só que neste caso era terrorismo de extrema-direita. Quando morreu, em 1996, o homem do MDLP teve direito a luto nacional. Otelo, parece que por vontade expressa do primeiro-ministro imediatamente aceite pelo Presidente da República, segundo diz o Expresso, não terá.

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A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à-vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos). O facto de muitos dirigentes políticos de direita, incluindo Cavaco Silva, se recusarem a utilizar o cravo na lapela – o símbolo popular do 25 de Abril – é todo um tratado de semiótica.

Quem se espanta com a violência verbal que anda no Twitter devia conhecer o meu “liceu” nos anos 80: a fractura dos defensores do 25 de Abril contra aqueles que apenas aprenderam a “viver habitualmente” com o 25 de Abril estava tão exposta naquela época como hoje. Na verdade, a única novidade é a existência de redes sociais.

Devemos agradecer profundamente a Otelo o 25 de Abril. Mas também devemos estar gratos às várias lideranças dos partidos de direita pelo facto de terem conseguido “integrar” muitos dos desolados do 25 de Abril na democracia. São dívidas históricas.

  

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publicado às 23:37


1 comentário

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De António Ladrilhador a 31.07.2021 às 23:08

Saraiva de Carvalho foi, de facto, um homem decisivo para a nossa liberdade. Mas nem por isso deixou de ter feito o que fez.
Far-me-á sempre uma certa confusão a tendência crónica para procurar desculpar coisas que a direita faz mal opondo-lhe coisas que a esquerda faz mal e

vice-versa: uma mão lava a outra, mas o que a direita faz de mal não desculpa as da esquerda e vice-versa; ou, então, não estaremos num estado de Direito, no qual, por definição, tudo quanto de mal é feito é condenável.
Por outro lado, "propositado, necessário ou acidental, o bem que se faz gera, em quem o pratica, inilidível responsabilidade pela perpétua dignificação da memória dos feitos junto de quem deles se apercebeu, pelo que nenhum ídolo tem o direito de boicotar a própria obra; e, em matérias tão importantes e sensíveis como a Liberdade e a Democracia, não pode a tal ponto desiludir, quase renegar”. Desenvolvo o tema em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/07/otelo-o-espinho-que-nem-morte-arrancou.html.
Terei gosto em ler o que quiser comentar.

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