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A orquestra não pode desafinar nem perder a memória histórica

08.10.22 | Manuel_AR

Orquestra desafinada.png

A perplexidade, o espanto, apoderaram-se de mim em fevereiro de 2022. Estes sentimentos transformaram-se em indignação quando sou surpreendido pelas notícias difundidas em todo o mundo que relatavam a invasão de um país soberano por outro, justificada por motivos pouco credíveis, fantasiosos até.
O invasor, Vladimir Putin em nome da Rússia, foi a ator protagonista da peça macabra onde reivindica a pretensão da Rússia de passar a hegemonia que diz já ter tido no império passado. Para ele o Mundo deve ser um jardim onde se pode entrar e sair em pequenos passeios a bel-prazer queimando tudo à passagem sem nada pode detê-lo.
Não podemos perdermo-nos pelo caminho nem esquecer as imagens que as comunicações sociais livres nos fornecem e que nos ficam na memória veiculada por uma leitura semiótica das imagens televisivas. Imagens de destruição de famílias, de bens, de patrimónios e mortes causados pelo exercício de poder de um homem só.
As imagens que vemos e lemos mostram-nos pedras e cadáveres que estão lá da maneira que poderiam estar e que, com a passagem dos tempos, se cristalizam nas nossas memórias, mas que outros delirantemente negam dizendo que são encenações propositadas.
Destes ecrãs podemos ver tudo, o humano e a natureza da destruição causada pelo egocentrismo de um homem que não quer perder a face nem o poder. Desta janela poderemos ver em todas as direções toda a história décadas e décadas depois.
Os invadidos veem a sua terra ser ocupada. A Ucrânia poderia ser um país charneira para o diálogo entre a U.E., e a Rússia, pelas mãos de um homem, transformou-a num inimigo para si próprio por viver num delírio obsessivo de que uma organização defensiva pretende cercar e invadir a Rússia. Um homem apoiado por uma ditadura de elites extremistas ameaça todas as sociedades, sobretudo os povos dos países ocidentais. Um homem destituído de qualquer da humanidade, que se mostra contra os valores ocidentais e pela supressão das suas liberdades democráticas a que chama “satanismo total”.
Desde o início Lenine resistiu à autonomia ucraniana e anulou o começo do seu movimento de independência e Estaline reprimiu a dissidência ucraniana, com uma fome intencionalmente provocada. Os líderes soviéticos que diziam ser anticolonialistas trataram a Ucrânia como uma "colónia interna" durante décadas, explorando os seus recursos naturais, a sua produção e mantendo os seus cidadãos sob vigilância estreita e enviando os seus produtos "para o resto da União Soviética a preços fortemente subsidiados".
O regime autoritário de Putin construiu uma campanha interna que não convenceu o ocidente, excetuando um parco rebanho cujos argumentos contorcionistas saem em defesa da invasão e do regime de Putin, potenciais defensores de ditaduras. Sobre a invasão da Ucrânia, num esforço amplamente propagandeado, construi-se dentro da Rússia uma campanha por meio duma narrativa ficcional que diz ser para libertar os ucranianos de maléficos captores neonazis fictícios por meio duma "operação militar especial" e ao mesmo tempo tentar alertar o mundo para o poder dos militares russos e com a necessidade de "desnazificar" e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia.
O ocidente, EUA e União Europeia, sobretudo esta última, já deviam, há muito, estar prevenidos com as previsíveis astúcias pelas quais o senhor Putin procuraria obter vantagens políticas internas.
A resposta à invasão da Ucrânia por parte da U.E. tem demonstrado algumas dificuldades na aplicação de sanções e está atualmente a demonstrar algumas divisões. A orquestra da U.E. pode estar em vias de desafinar e esse pode ser um dos trunfos de Putin que sempre desejou que acontecesse. Talvez uma metáfora possa explicar as reações do ocidente.
Metáforas são uma forma de se fazer a representação simbólica de algo. A linguagem verbal está repleta de metáforas e algumas palavras até perderam o seu sentido literal de tão metaforizadas que se tornaram. As associações por metáforas não são ao acaso, são estruturadas e dependentes de experiências que são compartilhadas por membros do mesmo grupo social.

No contexto deste artigo tem cabimento a introdução duma metáfora que me ocorreu ao recordar-me do filme “O Ensaio de Orquestra” realizado por Frederico Fellini em 1978.

Fellini utiliza a orquestra, os instrumentos, músicos e a música como metáfora de uma sociedade em crise. Uma orquestra que recusa a sua natureza coletiva, e onde cada indivíduo tem uma visão egocêntrica do seu papel. Estão apenas unidos pelo propósito de destronar aquele que entendem ser o seu inimigo comum: o maestro.
As expressões musicais são criadas pelo compositor evidenciadas nos sons, ritmos e melodias, desenvolvendo-se no desempenho como uma sequência de ocorrências significantes ao longo do tempo, um drama de oposições e resoluções.
Pode ser um exercício interessante comparar a metáfora deste filme com as políticas praticadas em alguns países, organizações e sociedades com governos malconduzidos por políticos e políticas que revelam incompetências com orquestras confusas e mal ministradas nas quais, apesar do descontentamento e da revolta popular o povo empobrecido e temente do futuro opta pelo status quo situação que que nos pode levar numa regressão ao tempo dos governos limitativos das liberdades democráticas.
As sociedades têm vindo a confrontar-se com políticas várias regidas por políticos, partidos e seus líderes, na oposição ou não, que são uma espécie de “músicos” que tocam “instrumentos vários” cada um com a sua pauta que os membros dessas sociedades ouvem pensando qual o tom que virá a seguir.
Se escutarmos com muita atenção é uma música antiquada, repetitiva, em que trompetes sobem escalas numa escalada de tons comandadas por maestros vários que não coordenam os vários instrumentos que deveriam seguir juntos no mesmo arranjo. Esta desafinação vai sustentar as composições musicais de moralistas populistas, extremistas de várias tendências e autocratas totalitários que obedecem a manias de grandeza e de poder.
A União Europeia é uma espécie de orquestra onde entram vários instrumentistas classificados em diversos tipos de acordo com a forma pela qual o som é produzido, numa espécie de organologia da política.
Numa orquestra onde tocam vários instrumentos basta um que desafine para corromper toda a orquestra para satisfação dos que preferem o toque de charangas, barulhentas ou desafinadas. Neste sentido o problema não está na orquestra, nem no maestro, mas na maneira como encaramos a música que tocam.
Cada músico que alinha pela desafinação não é um músico é um individualista que apoia o grupo que desafina, é um atacante da democracia da orquestra onde todos tocam para o mesmo fim que é o sucesso da peça musical.
Na política há “instrumentistas” que desafinam no meio de uma orquestra que se pretende afinada e com a consciência profunda de interpretar o sentimento de muitos dos assistentes ao concerto e, por isso, fazem com que a música perca a sua intensidade perturbando todos os outros elementos.
Há que tentar perceber o que nos rodeia e ouvir, através dos nossos próprios sentidos, os sons que se vão esbatendo e que salientam os que nos chegam dados pelos instrumentos desafinados.
Uns sons são próximos, outros distantes. Há que percecionar tudo o que vem de fora da orquestra a partir desses sons indiciários e provocadores que nos chegam de instrumentistas desafinados. Há que perceber quais as fontes específicas de cada um desses sons, sem melodia, que nos são enviados pelas vibrações que, ao penetrarem no nosso ouvido, produzem sensações de revolta.
A União Europeia devia funcionar como uma espécie de orquestra que ao longo dos anos os instrumentistas, para fazerem parte da orquestra, apesar de desuniões ideológicas foram obrigados a afinar os seus instrumentos pelo mesmo diapasão quando concordaram em unir-se economicamente, cientes de que o Euro não seria apenas uma moeda, mas também uma ideologia fabricada pelas democracias liberais do ocidente.
Após a invasão da Ucrânia têm sido tomadas várias iniciativas da U.E. para afinação dos instrumentos da orquestra embora ainda haja alguns instrumentistas que ainda não estejam a afinar plenamente pelo lamiré europeu. Uma dessas iniciativas que hoje, dia 06/10, tem uma reunião inaugural, a nova Comunidade Política Europeia, que surge no atual contextos de gravidade que a Europa enfrenta como resultado da escalada da guerra da Rússia contra a Ucrânia que pôs em risco a paz e a segurança europeia. Pretende-se a exigência da retirada imediata e incondicional daa Ucrânia de todas as tropas enviadas por Putin, assim como todo o equipamento militar e do não reconhecimento da anexação ilegal de território ucraniano, ou os referendos fictícios organizados pela Rússia para a justificar.
Não sabemos se este concerto sairá afinado tendo em conta os 27 dirigentes da União Europeia e os 17 governantes de quase todos os restantes países europeus. Prevê-se que não haja alguns elementos dentro da orquestra que pretendam desconstruí-la e se há ou não adeptos de totalitarismos que pretendam substituir o(s) regente(s) por outro(s) que dirija(m) apenas o tom de um único instrumento condicionando a orquestra a um só compasso. Mas, neste caso, uma orquestra em uníssono deseja-se.
Quando há crises financeiras e agora, também, energéticas e outras há instrumentistas que provocam desafinações no conjunto. Quando alguns dos grupos instrumentais começam para se fazerem ouvir, sejam eles os das flautas, os dos trompetes ou os das baterias, a cacofonia musical desestabiliza a orquestra no seu todo e não há maestro que lhe ponha cobro. Cada grupo instrumental começa então a tocar ao seu ritmo acusando os outros de estarem a desafinar e isso em nada contribui para bloquear os maestros que dirigem orquestras barulhentas que tocam numa sala ao lado.
Quando a orquestra começa a desafinar entram as pateadas por parte das assistências para desestabilizar a orquestra e parar o concerto. É este o caso de Putin que tem vindo a apostar, (como fez Donald Trump), na desafinação dos grupos instrumentais que fazem parte da orquestra na União Europeia. Na espectativa de divisões com o apoio dado aos partidos de extrema-direita antieuropeístas e que, como de facto, se colocam do seu lado do maestro da sala do lado.
Um caso exemplar entre outros, foi o de Berlusconi, antigo primeiro-ministro italiano e amigo de longa data de Vladimir Putin que chegou recentemente a afirmar publicamente que que Putin, foi “pressionado” pelo seu partido e pelo povo a invadir a Ucrânia. Acredita que o seu objetivo era apenas retirar Zelensky do poder. Declaração que, poucas horas, depois veio a justificar dizendo que foi mal-entendido.
Os europeus que apoiam partidos populistas da extrema-direita têm sido historicamente mais propensos a expressar uma visão positiva da Rússia e do seu presidente, Vladimir Putin. Todavia, em alguns casos, as opiniões favoráveis sobre a Rússia e Putin diminuíram acentuadamente entre os populistas europeus da extrema-direita após a invasão militar da Ucrânia por Putin em nome da Rússia.
Na orquestra democrática da União Europeia há grupos cujos “instrumentos” que não estão afinados no tom da peça musical tocada por aquela orquestra e que falam em nome das coletividades que representam e a que pertencem. Isto é, nessas sociedades, a vida e a política estão a causar a desafinação no conjunto porque contemplam dimensões morais e de regras de conduta diferentes daquelas com que de início aderiram à orquestra.
Após a devastação social causada por duas guerras mundiais, o movimento em direção à solidariedade coletiva foi incorporado à vida política em muitos países, não só europeus, tendo em vista o Estado de bem-estar social. Contudo, nas últimas décadas do século XX, a implantação de políticas neoliberais na década de 1970 e seguintes incentivaram direta ou indiretamente o desenvolvimento de características morais, sociais e afetivas definidoras das culturas individualistas. Isto é, uma “nova peça musical” que também influenciou emoções, comportamentos e até mesmo a conduta dos ouvintes.
Fazer tocar todos os instrumentos desta orquestra afinados durante um concerto não é possível porque se transforma numa charanga que toca sons e tons em que cada um afina o seu instrumento ao seu modo. Pensar e agir politicamente torna-se difícil quando prevalece desproporcionada a autorreferência do conjunto instrumental, o interesse próprio, o individualismo da nação de cada grupo, servindo-se de todos os outros como meios para os seus objetivos.
A competição pelo controle do mundo, ou seja, pela hegemonia económica e geoestratégica após a Segunda Guerra Mundial foi a causa da denominada Guerra Fria, conflito político-ideológico entre os Estados Unidos, países democráticos e a União Soviética entre 1947 e 1991, o conflito travado entre aqueles dois blocos foi responsável por polarizar o mundo, um, alinhado ao capitalismo, outro alinhado ao comunismo. Naquele último ano foi a queda do muro de Berlim que se pensou ser o começo das relações pacíficas entre aqueles dois países. Durante a segunda metade do século XX, a polarização mundial resultou numa série de conflitos de pequena e média escala em diferentes locais do mundo, que contavam, muitas vezes, com o envolvimento indireto dos EUA e da URSS, a partir do financiamento, da disponibilização de armas e do treinamento militar.
As perdidas pretensões hegemónicas da antiga URSS regressaram pela mão do poder totalitário e autocrático de Vladimir Putin A questão da competição pela hegemonia no mundo voltou a fazer parte das suas ambições em nome da Rússia. Putin revelou-se um perito em desafinação de orquestras.
Temos vindo a assistir, por parte de alguns concertistas extremistas e obstrutivos, a contribuições para a desafinação das orquestras europeia a que pertencem o que, no que se refere à guerra na Ucrânia, pode vir a contribuir para o desejo de Putin de fazer desafinar a orquestra da Europa ao aperceber-se de indícios de desafinação. Não é por acaso que Moscovo financiou, ou ainda financia, a extrema-direita europeia e é também é sabido que a extrema-direita italiana e francesa o terão aceitado.
O apoio de Putin às orquestras da extrema-direita é lançar à terra as sementes do mal palavras idênticas às que ele usou no seu último discurso “vitória” e de propaganda pela anexação ilegal de territórios ucranianos, em que são evidentes a política do ódio, da acusação, da discriminação, procurando encontrar, no outro, um inimigo. Antes da invasão Putin pretendeu preparar a desafinação da Europa que neste momento enfrenta o veneno letal das cobras apoiadas pelo Kremlin materializado em partidos como o Vox, Irmãos de Itália, Chega, Democratas da Suécia, Verdadeiros Finlandeses, Partido da Liberdade, União Nacional, causando uma espécie de epidemia que alastra. Seria nesta peste que Trump e Putin apostavam para desmantelar a Europa. Onde o exibicionismo reativo de Trump falhou, a frieza e a sórdida obsessão de Putin ainda pode resultar.
No passado já houve outros como ele, Estaline, Hitler, Mussolini, Pinochet, e muitos outros, e, por isso, a nossa memória histórica não se pode perder.

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