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A não mudança do PCP no editorial de Manuel Carvalho

07.11.22 | Manuel_AR

Manuel Carvalho

Paulo Raimundo, a continuação de uma era

Quem acreditou que o PCP aproveitaria o fim de ciclo para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um apparatchik da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.

Jerónimo de Sousa sai do PCP e da sua bancada e deixa como rasto uma onda de complacência simpática que se explica por duas razões: porque ele é um homem genuíno e coerente que, como o próprio disse, procurou “sempre fazer o melhor que sabia (...) nos valores éticos da honestidade, franqueza, fraternidade”; e porque o PCP se tornou com o curso da História uma fera envelhecida e amansada, incapaz de ameaçar direitos fundamentais da democracia liberal, papel que caiu nas mãos da extrema-direita.

Paulo Raimundo vai substituí-lo e promete continuar a trilhar as mesmas vias que levaram o PCP à quase irrelevância – o partido que em 1976 elegeu 40 deputados e teve força para pôr em causa a criação de uma democracia liberal está hoje reduzido a seis lugares no Parlamento. Quem acreditou que aproveitaria o fim de ciclo de Jerónimo de Sousa para se actualizar ou para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um “apparatchik do velho mundo da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.

Até na tentativa de vender aos eleitores o perfil de um operário se percebe esse esforço de conservar a mitologia – a classe operária já não usa o boné com fuligem e Paulo Raimundo é um produto do circuito fechado da Soeiro Pereira Gomes. O PCP vive há anos nessa terrível angústia de saber que, se mudar, arrisca perder o seu pequeno lugar no mundo e, se não mudar, está condenado a adiar a decadência.

Para a continuidade, Paulo Raimundo parece bem. Basta ouvir o seu discurso no 101.º aniversário do partido para se perceber que a “luta”, os “inimigos de classe”, a “exploração” como “instrumento do capitalismo”, ou, numa citação reveladora, que a “teoria do passado continua a explicar a luta do presente” para perceber ao que vem. É essa “teoria” que impede o PCP de ver a Europa como um projecto de paz, é isso que o impele a proteger tiranias como a da Coreia do Norte ou da Venezuela, é isso que associa a “luta pela paz” ao apoio discreto à Rússia na agressão â Ucrânia.

Hoje, o PCP não tem força para impor uma ditadura do proletariado, nem para matar a liberdade de iniciativa. O “espectro” que Marx profetizou tornou-se uma extravagância, como a moda “soviet chic”. Paulo Raimundo dirá coisas importantes, manterá os seus trunfos nos sindicatos ou no Estado e o PCP continuará a dar voz a uma parte importante da sociedade portuguesa. Não deixará de ser o reflexo de um passado. Uma força do folclore que não faz mal a ninguém.