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A morte anunciada de um Orçamento Estado

por Manuel_AR, em 29.10.21

Chumbo Orçamento 22.png

Logo após a notícia do chumbo do Orçamento de Estado para 2022 veio-me à memória o de livro de Gabriel Garcia Marquez, Crónicas de uma Morte Anunciada do qual faço uma sinopse: um jovem vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana. O enredo do livro, baseado numa história verídica nada tem a ver com política, mas serviu-me como raciocínio através do qual inferi de uma semelhança não comprovada um facto de semelhança comprovado, a morte anunciada do orçamento.

O destino do O.E. já seria conhecido de antemão por todos e apenas um milagre ou passe de magia poderia salvá-lo embora muitos acreditassem anda que poderia passar.  O chumbo do Orçamento despertou a indignação de uns, a satisfação de outros e a tentativa de distorção do facto por outros. A indiferença, o desprezo e o egoísmo partidário e introvertido levaram a que dois partidos, o BE e o PCP, acabassem regendo o processo que culminou simbolicamente na morte da vítima que é o interesse do país e dos portugueses.

Antes da votação final a morte anunciada do O.E. despertou nas pessoas, comentadores e analistas políticos sentimentos diversos e conflituantes por entre visões diferentes, especialmente nos atores durante a discussão do objeto do litígio.

Alguns ouvintes e observadores da trágica anunciação colocaram-se em posição de descrença, acreditando devotamente que os executores da sentença de morte não levariam o seu plano adiante. Para outros, o ódio nutrido pela vítima, leia-se orçamento, resultou numa posição de indiferença quanto ao resultado provável, a sua morte. De qualquer modo o que se observou, em quase todas as reações, foi que, a despeito da trágica notícia da morte ser por todos previamente conhecida, ninguém agiu exceto a já conhecida vítima o protagonista no sentido de evitar o resultado final.

Quem provocou a crise não foi a direita, mas ajudou, foram as esquerdas radicais. A direita foi honesta. Desde o início que O.E. se não fosse alterado não era o que aprovariam, e, muito menos, após os ajustes dados como benesses aos dois partidos à esquerda do PS.  Por outro lado, um entendimento à direita foi logo rejeitado por António Costa ao dizer em agosto que “No dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”. Pois foi, acabou pelas mãos dos antigos parceiros do PS.

A ideia inicial de acabar com os muros que, ao longo dos anos, marginalizavam os partidos à esquerda do PS foi democrática, idealistas, romântica.  Depositavam-se muitas esperanças na aproximação. Todavia, pareceu uma ingenuidade da parte de António Costa e de alguns setores do PS meterem-se na cama com o “assassino”, nome de filme um cujo título é “Dormindo com um Assassino”. Em 2015 alguém disse que aqueles dois partidos não eram de fiar.

Com a assombração da perda de votos nas eleições que os penalizaram posteriormente ao acordo o PCP e o BE começaram a ver no PS o seu principal inimigo e direcionaram a sua tática para o combater a qualquer preço.

A estabilidade e a sobrevivência política que se viveu até ontem foi baseada num paradigma que, em vez de olhar para o futuro, visava apenas o combate à herança de Passos Coelho que agora ameaça regressar. O que prevaleceu no final foi o desprezo pelos interesses do país em favor dos dogmas partidários das esquerdas radicais Bloco e PCP que só sobrevivem do protesto, das greves e do combate ao modelo social e económico europeu, da aversão ao mercado e ao liberalismo europeu que um partido social-democrata como o PS perfilha.

É o regresso à praia preferida do PCP e do BE onde, só aí, sabem surfar e conseguem sobreviver às ondas da democracia. Neste aspeto há semelhanças com a extrema-direita que se congratula, a única que ganhar porque prospera por entre os pântanos políticos.

Os políticos pressionados pelos seus partidos têm o centro do olhar no seu umbigo, com um sectarismo cego obediente às estratégias partidárias. Na política as estratégias são necessárias quando o objetivo é o de chegar ao poder deixando os interesses da maioria do povo para segundo plano. A extrema-esquerda não têm esta ambição porque estes partidos sabem que, isoladamente e através de eleições, nunca chegarão ao poder. A sua política centra-se na instabilidade usando tudo o que a democracia lhes permite como manifestações, greves, movimentos sindicais. Se estas estratégias há tempos eram apenas das extremas-esquerda hoje em dia as extremas-direita adotaram as mesmas e infiltrações em manifestações para provocarem instabilidade.

A política como atividade ocupacional que nós todos pagamos deveria ter a função de conseguir articular equilíbrios o que exige a capacidade de julgamento, visão de conjunto, prudência, intuição, sentido de tempo e de oportunidade, jeito e disposição para tomar decisões sobre assuntos sobre as quais não existem certezas absolutas. A falta destas qualidades revelou-se nos políticos de todos os partidos à esquerda do PS ao chumbarem o Orçamento de Estado com exceção do PAN e das deputadas não inscritas.

A política não serve apenas para gerir objetivos governativos ou de oposição tem mais que ver com ponderação sobre o significado social das decisões, certas ou erradas, que se tomam assim como da sua oportunidade e do modo como podem afetar as pessoas. É disto que o PCP e o BE têm falta, - e não apenas estes - centrando-se, como já afirmei, no seu umbigo partidário dogmático mesmo em situações cuja gravidade nos afetará a todos. A questão ideológica está entranhada no inconsciente revolucionário daqueles partidos que vem do passado, é uma espécie de arquétipo que se sobrepõe à racionalidade e ao bom senso.

A essência ideológica dos partidos da esquerda radical ainda se mantém, contudo, personalizou-se, deu lugar simultaneamente à personalização da decisão que é aceite por um “mercado” eleitoral amorfo e ideologicamente desinteressado. O eleitor vota por vezes no sujeito A ou no sujeito B e não da ideologia que move os partidos em que votou.  

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publicado às 12:13


3 comentários

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De Mosaicos em Português a 31.10.2021 às 18:51

Precisamente. O eleitor vota no sujeito.
Neste caso, vai votar outra vez no sujeito que prometeu tudo e mais alguma coisa nas eleições autárquicas, numa despudorada oficialização da cunha que, espera ele, desta vez resulte melhor do que em finais de Setembro, altura do grande fiasco do partido dito socialista.
https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/09/oficializaram-cunha.html
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De s o s a 02.11.2021 às 22:12

o post até trem algumas perolas (verdades), mas nao tem novidades, mais parece a manifestaçao de um dor.

Admitindo que os males presentes do mundo, aquilo que dificulta e mesmo atormenta o cotidiano das pessoas em geral, sao irracionais, tente a sorte e explique essa coisa da " racionalidade ao bom senso ". Está a falar de que ?
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De Manuel_AR a 03.11.2021 às 16:45

Olá, s o s,
É fácil de perceber: racionalidade é a faculdade de perceber de saber pensar e bom senso é a faculdade de poder julgar os atos e das decisões que se tomam. A falta de bom senso neste caso foi a não perceção da realidade por aqueles partidos ao tomarem as decisão que tomaram ao chumbarem o OE pensado talvez que não se iria dissolver o parlamento, e neste momento em que escrevo ainda não se sabe. Isto é, os dois partidos estavam mais centrados no interesse internos dos partidos e ao mesmo tempo submetidos á ideologia que professam mostrando que são fortes... Está entendido?

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