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A mania da importância que nunca teve

por Manuel_AR, em 02.03.17

Cavaco Silva_7.jpg


Vale a bem apena divulgar transcrever este texto de Miguel Sousa Tavares publicado no jornal Expresso no passado sábado.  Apesar e não apreciar muito os artigos de opinião dele, talvez porque não me agrade a forma como ele brande argumentos contra tudo e contra todos, mas no meio de tudo alguns com alguma razão.


Há quem goste apenas de ler o que esteja de acordo com o que pensa e que lhe agrade. Quando não lhes agrada o que leem ou que esteja em desacordo com o seu pensamento e alinhamento politico ou partidário reagem mal e, não sabendo como argumentar, muitos há que estropiam a linguagem corrente com impropérios desajustados aos autores dos comentários. É o que mais se vê por aí no mundo das redes sociais.


Todavia não é este o caso de Miguel Sousa Tavares quando comenta sobre o livro dessa personagem sinistra que é, e foi, Cavaco Silva. Não utiliza impropérios, vai ao cerne da questão sobre o que ele sabe e nós não sobre Cavaco Silva. Assim, vale a pena ler o que Sousa Tavares diz sobre a adulteração feita por Cavaco. Apesar de já ter circulando por várias redes sociais e blogs vale pena a repetição.


«(...) Bem pode Cavaco Silva desfilar o rol de grandes do mundo que conheceu em vinte anos no topo da política portuguesa: nenhum desses grandes o recordará nem que seja num pé de página de memórias e a nossa história não guardará dele mais do que o registo de uma grandiloquente decepção.


Nos seus dez anos como primeiro-ministro, Cavaco Silva teve o que nunca ninguém tinha tido antes dele e não voltou nem voltará a ter depois dele: uma maioria, tempo, paz social, esperança e dinheiro sem fim, vindo da Europa. Fosse ele, porventura, um homem dotado de visão e de coragem e conhecedor da nossa história e dos nossos males ancestrais, teria aproveitado as circunstâncias para inverter de vez o funesto paradigma em que vivemos há décadas ou séculos. Em lugar disso, aproveitou o dinheiro e os ventos favoráveis para engrossar o Estado, fazer demasiadas obras públicas inúteis e cimentar a clientela empresarial que sempre viveu da obra ou do favor público. Ele lançou as raízes do défice e da dívida pública, que, depois, tal como as obras (de Sócrates), passou a execrar. Cinco anos volvidos, regressaria para outros dez de Presidência. Por razões que já nem adianta esmiuçar, acabaria por sair de Belém com uma taxa de rejeição recorde e com 80% dos portugueses fartos dele e do seu pequeno mundo. Muita da popularidade de Marcelo deve-se ao facto de os portugueses o verem em tudo como o oposto de Cavaco Silva.


Tive um breve mas arrepiante flashback deste pequeno mundo quando, na semana passada, Cavaco Silva lançou o seu livro de ajuste de contas. Pelas citações e declarações que li e ouvi, parece-me que a única coisa boa do livro é o título — (mas até esse li que não era original). No restante, Cavaco entretém-se a contar os seus “factos rigorosos” para“ informação dos portugueses”, e registados com base num método que diz ter inventado quando era estudante e que se presume não ser o do gravador oculto. A finalidade da história das suas quintas-feiras é atacar um homem já debaixo de todos os fogos — o que confirma a lendária coragem intelectual de Cavaco, tal como no seu discurso de vitória quando foi reeleito, atacando com uma raiva e um despeito indignos de um Presidente da República os seus adversários que já não se podiam defender. Parece que agora, com um absoluto desplante e tomando-nos a todos por idiotas, Cavaco Silva ensaia uma indecorosa falsificação dos tais “factos rigorosos”: a história de como ele e a filha ganharam 150% em dois anos com acções do BPN que não estavam cotadas em bolsa (jamais desmentida e bem documentada), não passou, afinal, de uma “calúnia”, vinda da candidatura de Manuel Alegre; e a célebre “conspiração das escutas” de Sócrates a Belém, engendrada entre o assessor de imprensa de Cavaco e um jornalista do “Público”, foi, pasme-se, ao contrário: foi o Governo que montou uma operação para fazer crer… que o Governo escutava Belém!


Ele (Cavaco Silva) que continue a escrever a sua história: a História jamais o absolverá


Mas não foi isso o que verdadeiramente me arrepiou nas notícias e imagens do lançamento do livro do Professor. Outra coisa eu não esperava dele nem do seu livro. O que me impressionou e arrepiou foi uma visão que diz tudo sobre quem foi e quem é este homem. Após mais de vinte anos na vida política e nos mais altos postos dela, tendo fatalmente conhecido não só vários grandes do mundo mas também toda uma geração de portugueses da política, da cultura, do empresariado, das universidades, etc., quem é que Cavaco Silva tinha a escutá-lo no seu lançamento? A sua corte de sempre, tirando os que estão a contas com a Justiça. Os mesmos de sempre — Leonor Beleza e o que resta da sua facção fiel no PSD. Mais ninguém. Nem um socialista, nem um comunista, nem um escritor, um actor, um arquitecto, um músico reconhecido. Nada poderia ilustrar melhor o que foi e é o pequeno mundo de Cavaco Silva. Ele que continue a escrever a sua história: a História jamais o absolverá.»


Miguel Sousa Tavares: "Sem sombra de grandeza". Texto publicado no Expresso de 25 de fevereiro de 2017.


 P.S.: Miguel Sousa Tavares não utiliza o atual acordo ortográfico pelo que mantive o texto original.

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publicado às 09:08


6 comentários

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De José Carvalho a 02.03.2017 às 10:52

Este sr. Tavares , e outros, não deviam escrever para o público com erros,não usando o português que se ensina nas escolas . Além disso não sei se tem idoneidade para dizer mal de alguem e lembro-
-me de o Sr. Dr. Gentil Martins ,em tempos, o ter
"metido na ordem" após mais uma das suas frequen-
tes e infelizes doutorices.
Menino, tenha tento. Ninguém é totalmente bom nem totalmente mau. Como tu também não.
-Parem as raivas , CARAMBA . . .!
Multas grandes nos ranhosos que prende-los ficam caros . . .
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De JR VAZ a 02.03.2017 às 11:55

Como é possível um 1º Ministro um Presidente, ser acusado de tanta coisa e ser rodeado por tanta gente a mal tratar, será que não haverá nada a fazer para tolher esta mal discência.
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De janeka a 02.03.2017 às 15:40

Quem conheceu o ambiente estudantil de Faro nos anos sessenta, os frequentadores da pastelaria Gardy, e a mentalidade provinciana e pretenso-elitista dessa fauna, a que Cavaco desesperadamente aspirava pertencer, compreenderá melhor o carácter desta figura. Por azar dele, além de não ser particularmente brilhante, sempre foi péssimo actor.
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De :P a 02.03.2017 às 16:08

Tem C.S. o grande mérito de personificar uma certa classe média portuguesa e um tipo de português muito comum, altaneiro com os fracos mas untuoso e servil com os poderosos. Basicamente, a perfeita ilustração do sec XX português.
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De Anónimo a 02.03.2017 às 16:12

Portugal orgulha-se de ter muitas figuras de grande carácter, e certamente que cometendo muitas injustiças dou exemplo de uns quantos:
Família Espírito Santo
Família de Horácio Roque
João Rendeiro, Paulo Guichard, Salvador Fezas Vital e Fernando Lima do BPP
Oliveira e Costa BPN
Jardim Gonçalves BCP
Tavares Moreira
Jorge Tomé
José Maria Ricciardi
Amílcar Pires
Zeinal Bava
Henrique Granadeiro
José Sócrates
Cavaco Silva
Isaltino Morais
Fátima Felgueiras
Valentim Loureiro
Avelino Ferreira Torres
Mesquita Machado
Miguel Macedo
Dias Loureiro
Duarte Lima

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De Pedro S a 02.03.2017 às 16:34

Senhor José Carvalho, desculpe-me lá, mas você é um imbecil

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