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A eterna normalização e democratização do Chega que nunca mais chega

26.08.22 | Manuel_AR

Chega ao contrario.png

Imagem alheia ao jornal Público e da responsabilidade do autor do texto 

Sem vida há um mês, para contentamento de alguns, "apropositodetudo", esteve "calado", devido à languidez causada pelo calor, pelas férias e, ao mesmo tempo, para refrescar ideias, mas estará de volta. Até lá aqui vai um artigo sobre o Chega. Eu, cá por mim, evitaria falar dele, porque quanto mais se fala mais o balão populista vai enchendo. Mas até pode ser que um dia rebente. 

A normalização do Chega

Tinham razão os que defendiam um cordão sanitário às suas propostas ou iniciativas. Sem amparos no PSD, o Chega fica confinado ao radicalismo inconsequente.

 

Em Fevereiro, o secretário-geral do Chega, Tiago Sousa Dias, demitiu-se por “não se enquadrar no futuro do partido. Em Março, os vereadores do Chega na Moita demitem-se por não encontrarem “espaço” de discussão, seguindo os passos da sua congénere de Moura. Em Abril, o assessor e pai da deputada Rita Matias, Mário Matias, abandona o partido. Em Maio, André Ventura demite o seu chefe de gabinete e cúmplice na fundação do Chega por “questões de política interna”. Este mês, chegou a vez de uma das figuras mais influentes do partido, Gabriel Mithá Ribeiro, se demitir da vice-presidência em choque com André Ventura.

Isoladamente, esta constante instabilidade interna vale apenas como prova de uma imaturidade típica de uma associação de estudantes ou de uma inconsistência programática digna de uma agremiação de rebeldes com causas vagas. Mas acrescente-se à irresponsabilidade que a vaga de saídas sugere o resultado político da acção do Chega: o partido de Ventura votou 56 vezes ao lado do PS no Orçamento, esfalfou-se em comissões de inquérito condenadas ao fracasso, em apelos à união da direita que ninguém ouve ou na denúncia de minorias que deixaram de surpreender e indignar as redes sociais. Pode-se então constatar que o Chega deixou de ser a hiena da política portuguesa e passou a ser um bicho doméstico ruidoso mas inofensivo. 

O Chega incomodou, incomoda e vai continuar a incomodar com as suas diatribes, o seu racismo larvar, a sua xenofobia e a sua argumentação populista – mas pouco mais. A terceira força do Parlamento não tem o lastro ideológico da direita falangista do Vox, ou a saudade do fascismo que a extrema-direita de Itália reclama. O Chega corporiza o desconforto de parte dos portugueses mais desprotegidos ou afastados da política, agrega os ressentidos ou desconfiados da cultura woke e é mais um megafone do que um partido. Tornou-se previsível e repetitivo. As querelas internas são uma expressão do seu fracasso.

Tinham razão os que defendiam um cordão sanitário às suas propostas ou iniciativas. Sem amparos no PSD, o Chega fica confinado ao radicalismo inconsequente. Com o tempo, a Iniciativa Liberal tratará de o substituir na frente de luta contra o Estado, deixando-o no redil do discurso contra as minorias que permitem ao presidente da Assembleia brilhar.

O Chega está a normalizar-se. Chegou, portanto, a hora de se encarar a sua existência com normalidade. Se a democracia não se degradar, se os abusos do poder não se multiplicarem, se a desigualdade se reduzir e o crescimento económico se acelerar, o Chega será o que começou já a parecer: um grupo de radicais entretido a repetir ideias gastas e a alimentar lutas intestinas.

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