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A derrota do Capitão América

por Manuel_AR, em 10.04.20

Coronavirus e Estados Unidos.png


Estive nos Estados Unidos da América, mais propriamente em Nova York, em 2003. Foram quinze dias inesquecíveis que me souberam a pouco. Era o tempo em que George W. Bush era Presidente do mais poderoso país do Mundo, aliás muito criticado, não por ser republicano, mas pela sua política disparatada e que, por isso, será lembrado. Muitos dos seus atos políticos serão difíceis de esquecer. O mesmo aconteceu com as suas frases, que eram motivo de risos e de constante perplexidade. Relembro uma das muitas frases malucas que Bush Júnior proferiu ao longo de sua carreira política tais como esta: "Os nossos inimigos são inovadores e engenhosos, mas nós também. Eles nunca param de pensar em como prejudicar nosso país e nosso povo. Nós também não" (Washington, 5 de agosto de 2004).


Podemos chamar-lhe trocadilho, lapso, ou quer que seja, mas em nada se comparam às contradições, mentiras, provocações malévolas, negacionismo do atual e pouco estadista presidente Donald Trump.


Peritos de saúde nos Estados Unidos têm ainda estado em desacordo com Donald Trump, que tem feito uma série de afirmações questionáveis, ou simplesmente falsas, a propósito do coronavírus. Disse que a taxa de mortalidade da gripe comum é “muito mais alta” do que 0,1% (depois de ter confirmado que era 0,1%, como dizem os especialistas); que “ninguém sabia o que era o Ébola antes de 2014” (o Ébola foi descoberto em 1976); desvalorizou o perigo e a progressão da doença, falando da possibilidade de uma vacina aparecer rapidamente (estima-se que leve um ano a ano e meio a estar pronta); mencionando os efeitos económicos do coronavírus, declarou: “Vai passar. Tenham calma.”


Segundo a BBC e dados do Censo, com valores referentes ao mês de março, mostram que mais de 27,5 milhões de americanos não têm acesso a seguros de saúde, o que terá feito com que muitos que apresentam sintomas ou requerem tratamento não recorram a hospitais por medo dos custos elevados. Mas para muitos que têm plano de saúde, o dinheiro com a coparticipação ou franquia têm de desembolsar uma quantidade de dinheiro que as seguradoras não cobrem e que em algumas ocasiões pode ser de milhares de dólares e também pode fazer com que muitos descartem a possibilidade de ir ao médico. Segundo dados da ONG Commonwealth Fund, mais de 44 milhões de pessoas encontram-se neste último grupo de "seguro insuficiente".


Com a conivência do partido Republicano Trump encara os EUA como se fosse o seu condomínio privado, um qualquer espaço de recreio infantil sujeito aos seus caprichos momentâneos e aleatórios dizendo tão rapidamente quanto desdiz. O que em uns dias seria uma verdade absoluta deixa de o ser na semana ou mês seguinte.  Uma postura ridícula de poder é notória quando mostra para as câmaras a sua assinatura que lembra uma peça publicitária de mau gosto.


Em 2003 tinham passado somente 3 anos dos atentados do 11 de setembro, trauma na altura ainda fresco, mas respirava-se naquela altura a agitada vida nova-iorquina, a cidade sem descanso. Hoje Nova Yorque está e a passar por uma catástrofe humana, social e económica nunca vistas, nem vividas desde a destruição das torres gémeas por grupos de criminosos terroristas. Hoje é o “terrorismo” da pandemia do novo coronavírus sobre a saúde pública americana que ataca selvaticamente a população de Nova Yorque e os EUA a que Trump assiste impávido e sereno dizendo trivialidades nas conferências de imprensa.


Trump, com manifesto desprezo pela vida humana - que não a dele, claro – inicialmente, e ainda continua a fazê-lo, desdramatizou, adiou, retardou ao extremo, não se sabe se propositadamente,  medidas para salvaguardar a saúde pública que se impunham como necessárias. Se não tivesse sido pressionado não tomaria quaisquer medidas para proteção da população. Para ele a economia e os lucros das grandes empresas que o têm mantido no poder valem mais do que a vida dos seus concidadãos americanos.


Nos EUA a questão do aumento do emprego e do desemprego relacionam-se com as empresas e a política. Quando uma presidência lhes é favorável, e porque sabem que liberalização dos despedimentos os protege, contratam pessoal facilmente e as estatísticas do desemprego diminuem, mostrando assim a virtude das políticas da administração que então se encontre na Casa Branca. Tem sido assim que, com Trump, o emprego nos EUA tem aumentado, mas agora em altura de crise o desemprego aumenta para níveis assustadores.  


Como é que Trump justifica agora aos americanos o que está a acontecer com o Covid-19? Muito simples, arranjam-se culpados para justificar a sua inépcia. Primeiro chamou-lhe o vírus chinês que era apenas uma pequena gripe, em março de 2020 Trump acusa UE de falhar na resposta ao Covid-19 e promover infeções nos EUA, agora acusa a OMS – Organização Mundial de Saúde de não ter o avisado e de ser pró-chinesa. Mas, então, a OMS não avisou há meses e quase diariamente o que estava a acontecer e assim como as previsões. Está a chamar indiretamente aos seus compatriotas e ao resto do mundo imbecis.  Ao que chegou o Partido Republicano que sustenta gente como esta, é coisa nunca vista, tanto quanto se conhece da história e da política dos EUA mesmo em anos maus.


Trump está a perder o respeito no palco mundial, ou melhor, já o perdeu, que o afasta cada vez mais das diversas realidades. Vive num mundo só dele e dos que ainda o continuam a apoiar. Por outro lado, os países da U.E. com as suas tricas internas devidas a egoísmos nacionalistas encobertos e à falta de solidariedade parecem não ter percebido que estão a ajudar Putin e Trump que aproveitam todas as oportunidades para a desmoronar, aliás como Trump parece ter feito durante o seu mandato. Não é novidade que Trump aconselhou o Reino Unido a sair da União Europeia. Emmanuel Macron, em maio de 2019, denunciou haver "uma convergência entre nacionalistas e interesses estrangeiros" para destruir a União Europeia, referindo-se a Steve Bannon, ex-estratega político de Donald Trump, e à Rússia. "Só podemos estar perturbados e não podemos ser ingénuos", disse Macron numa entrevista a 41 jornais regionais em que afirma, sem dar pormenores, que "russos e outros" estão a financiar partidos extremistas na Europa".

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publicado às 18:59



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