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Assumam que querem a vitória da Rússia

por Manuel_AR, em 09.04.22

Opinião

Sejam adultos, assumam que querem a vitória da Rússia

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana.


Não há nada mais perigoso do que uma opção política baseada apenas em princípios éticos, a não ser uma opção política baseada em tudo menos em princípios éticos. Uma decisão bem-intencionada pode ser contraproducente: pode ela própria ser nefasta para os valores que deseja promover, se não tiver em atenção os limites que a infinita complexidade do mundo impõe aos nossos sentimentos de dever. Mas uma decisão que não siga uma qualquer bússola de valores, seja por niilismo, oportunismo ou embaraço em enfrentar o substrato moral das alternativas, é logo à partida uma decisão inaceitável. A amoralidade é pior do que a temeridade.

Os últimos dias provocaram duas mudanças dramáticas na discussão. Em primeiro lugar, deixou de fazer sentido a ideia de que a Rússia sairá inevitavelmente vencedora da invasão. O falhanço da conquista da capital mostra que, para além da capacidade admirável de resistir ao agressor, a Ucrânia pode mesmo derrotá-lo. Em segundo lugar, os destroços materiais e humanos mostraram o verdadeiro significado de uma ocupação russa, além de que as subsequentes mentiras de Moscovo revelaram o valor real da palavra de Putin. Como é que, perante isto, se negoceia um acordo de paz com cedências territoriais?

Neste cenário, em que só é possível a paz dos cemitérios, qualquer pessoa que partilhe o quadro de valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos sente um dever moral de apelar a que se continue a ajudar a resistência ucraniana. O Ocidente tem de redobrar o seu apoio, para evitar a rendição. Com mais pressão diplomática, certamente, mas também com mais armas, mais apoio logístico e humanitário, e mais sanções económicas.

Ainda assim, há muitas pessoas que continuam a querer contaminar a discussão com o nevoeiro de uma complexidade que não existe. Escrevem crónicas e manifestos extraordinários, a denunciar o belicismo de Zelenskii, a defender que não se forneçam mais armas à Ucrânia, a lamentar que “pensar” seja “difícil”, a acusar os outros de serem levados pelo sensacionalismo e o sentimentalismo, e a pedir mais jornalismo do que propaganda (o que, aliás, é desde logo um insulto aos jornalistas que atestam as atrocidades russas nos órgãos que publicam esses textos).

O que convinha, para benefício do debate numa sociedade adulta, é que fossem totalmente claros e consequentes com o que defendem. Sendo que o que defendem, como é ostensivo, é a vitória da Rússia. Só isso explica que, em face da evidência da barbárie, continuem a desviar a conversa. Muitos dos autores daqueles textos passaram os últimos anos a alinhar com a política externa de Putin. Quer em geral, quando defendem o direito da Rússia à sua zona de influência, num mundo “multipolar” contrário à ordem liberal euro-americana, quer em particular no tema da Ucrânia, no qual estiveram sempre, sempre, sempre do lado das posições de Moscovo. Viveram bem com o governo fantoche de Ianukovitch, opuseram-se ao movimento pró-europeu e pró-democrático de Maidan, apoiaram a anexação da Crimeia, acusaram Zelenskii de ser infantil, populista e neonazi. Quando chegam a este ponto e propõem coisas como o fim do fornecimento de armas defensivas à resistência, querem o quê? Querem evidentemente a rendição da Ucrânia e a vitória da Rússia.

Deixemo-nos, nós próprios, de rodeios: o problema destas pessoas não é a dificuldade de pensar; é a dificuldade de assumirem o que verdadeiramente pensam.

O autor é colunista do PÚBLICO

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publicado às 19:00


2 comentários

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De SAP3i a 09.04.2022 às 20:31

Mais do que a propagando e as razões de ambos os lados importa responder à seguinte pergunta: «A quem interessa mais, ter os civis como escudos-humanos e mantê-los sem poderem ser evacuados para proteger os seus soldados e as milícias armadas?» A resposta é óbvia, e está a ser vista por todos... Obviamente que Buscha e Kramatorsk são da autoria do «regime Zelensky & batalhão Azov» (iniciado em 2014, pela “revolta colorida” financiada pelos EUA). O «discurso sobre os civis» é uma estratégia militar do «regime Zelensky & batalhão Azov», combinada com a Nato e EUA. É mais do que óbvio. O «regime Zelensky & batalhão Azov» quis durante 8 anos, à força das armas e de perseguições (ver os dois “Relatórios da ONU”, de 2016 e 2018, disponíveis em PDF), separar os russos que há séculos eram uma miscigenação naquele território. Agora tiveram a resposta do outro lado. São 45 dias contra 8 anos... Portanto, até 8 anos, ainda falta muito tempo.
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De Manuel_AR a 01.05.2022 às 19:05

Caro SAP3i, imaginação não lhe falta. Então podemos inferir do seu comentário que Zelensky na Ucrânia combinou uma invasão por outro país, digamos antes Putin, para executar todo um plano que sugere. Pode ter a opinião que quiser, mesmo a mais fantasiosa, mas os seus argumentos falham perante os factos. A pergunta deve ser: Quem invadiu quem? O que ganha a Ucrânia e Zelensky com tudo isso que descreve? Será que as imagens reais de destruição que vemos para si são tudo ficção e realização de Zelensky. Não queiramos colocar viseiras nos olhos para defender ou atacar quem quer que seja. Acho que a força ideológica não se sobrepor aos factos, senão podemos estar a ser facciosos. Acrescento ainda: então, perante os ditos factos históricos, como refere por que é que após a queda da URSS não consideraram a Ucrânia como parte integrante da Rússia em vez de lhe dar soberania como o fez com outros países de leste que se encontravam sob o domínio da URSS?

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