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A Propósito de Quase Tudo: opiniões, factos, política, sociedade, comunicação

Aqui vocês, podem encontrar de tudo um pouco: sociedade, ambiente, comunicação, crítica, crónicas, opinião, política e até gastronomia, com apoio de fontes fidedignas.

Presidente comentador versão 2.0

29.11.25 | Manuel_AR

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No debate André Ventura com Marques Mendes o primeiro não foi novidade a nuvem de palavra costumeira fluía tocando a mesma partitura. Sobre a pergunta sobre o que faria se fosse eleito presidente como tem sido habitual a resposta nem ouvi-la. A estratégia foi a fuga para a frente.

Marques Mendes lá foi andando com alguns tropeções. Não é fácil debater com Ventura porque é entrar numa espécie de carrocel. André Ventura mostrou que, em assuntos fundamentais, na diplomacia não tem sentido de Estado. Marques Mendes foi acusado por Ventura de ser uma “marioneta de Montenegro”, que não é independente e que era o “comentador do sistema” “alinhado com o primeiro-ministro” disse.

Sobre a justiça Marques Mendes disse que convocaria uma reunião do Conselho de Estado para tratar da corrupção e da reforma da justiça ao que André Ventura, aproveitou para lhe chamar “fofinho” afirmando que preciso é acabar com eles. Ventura só não especificou como o faria.

É provável que Marques Mendes vá à segunda volta, mas se conseguir passar a essa etapa e ganhar vamos ter uma espécie do slogan que Sá Carneiro tendo em 1980 a AD uma maioria absoluta nas eleições presidenciais apoiava o General Soares Carneiro e pedia “uma maioria, um Governo e um Presidente”. Na composição atual do Parlamento há uma minoria AD um Governo e um presidente, Marcelo Rebelo de Sousa.

Parece haver uma dinâmica de comentadores TV e artigos de opinião com tendência para a promoção do candidato Marques Mendes. Já aqui escrevi um texto em relação às opções partidário- ideológicas de comentadores de política e dos candidatos à Presidência da República.

Já temos um Presidente da República em fim de prazo que veio de comentador em canais de televisão e se tornou num selfista, apresenta-se agora à candidatura do cargo uma outra personalidade que, à semelhança do primeiro, também foi comentador político poderemos vir a ter outro, embora com algumas diferenças mas da mesma área partidária. É mais do mesmo.

Analisemos então as diferenças entre as duas versões. Primeiro quanto ao percurso político. Ambos têm trajetórias semelhantes porque foram líderes do PSD e comentadores televisivos.  Marques Mendes tem sublinhado que não é uma “cópia” nem uma “imitação” afirmando que são “muito diferentes” ele e Marcelo Rebelo de Sousa. É uma verdade óbvia. São personalidades diferentes apesar da amizade, vieram do mesmo partido. Há algumas coincidências. Pois, é nas coincidências que pode estar o problema porque é um campo muito vasto para que não haja semelhanças.

Marques Mendes destaca-se pelo apoio explícito ao PSD, mas fez questão de entregar o cartão de militante como gesto simbólico de independência, tal como fez Cavaco Silva. Ora aqui está uma atitude que tem apenas um significado simbólico por que como já escrevi noutro texto sobre Marcelo Rebelo de Sousasendo militante do PSD não se desfiliou do seu partido, tendo suspendido a militância quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República.  Não existe um requisito legal explícito que obrigue um Presidente da República a desfiliar-se do seu partido, assim, um candidato à Presidência da República pode manter a sua filiação partidária. O que está estabelecido na Constituição da República Portuguesa é que o Presidente da República deve atuar com total independência e imparcialidade para representar a unidade nacional… Contudo, a desvinculação ao partido a que pertence é uma consequência natural e necessária para garantir a sua atuação enquanto Chefe de Estado

Numa entrevista, ao ser questionado sobre as semelhanças que tem com o atual Presidente da República, Marques Mendes, devido ao facto de terem sido ambos presidentes do PSD e comentadores televisivos rejeitou ser um “filho político” de Marcelo Rebelo de Sousa. Quis demonstrar que é um candidato experiente, preparado e conhecedor sobre o que deve ser um Presidente, o que parece ser arrogância face a outros candidatos, o que pode ser demonstrativo do quanto ele está implicado com o sistema, tal como diria André Ventura se fizesse um cometário a esta afirmação.

Marques Mendes defende ainda que o presidente deve estar preparado para evitar crises e propõe pactos de regime para regenerar a política, aproximando partidos em matérias como ética e justiça. Lugar-comum a quem se candidata a presidente porque não se vislumbra diferença em relação aos outros candidatos que defendem o mesmo, PSD com o CDS-PP.

Para se destacar Mendes exprime um sentimento negativo ao afirmar depreciativamente Rebelo de Sousa dizendo que se fosse presidente reuniria mais vezes o Conselho de Estado e não manteria a prática de promulgar leis e fazer comentários públicos sobre elas, como faz Marcelo. Considera que esses comentários criam “ruído e instabilidade” e não são úteis, pois o presidente não é governo. Marques Mendes seria, portanto, um presidente fugidio, escondido, refugiado no palácio, mais ou menos «à moda» de Cavaco Silva.

Apesar das semelhanças no percurso, Marques Mendes procura afirmar uma postura mais institucional, menos mediática e mais focada na estabilidade política e na transparência. Já Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido pelo estilo comunicativo, pelos comentários públicos e pela proximidade com o público. Mendes quer marcar diferença pela forma de exercer o cargo e pela defesa de pactos e acordos claros entre partidos.

Contudo, Marques Mendes tanto distanciamento quer ter de Marcelo Rebelo que se esqueceu, como escreve Ana Sá Lopes no Público, que Marcelo «Foi capaz, entre muitas selfies e outros exageros, de dessacralizar a instituição Presidente da República, o que era fundamental a seguir ao último mandato de Cavaco. Esteve mais perto do povo do que talvez qualquer um dos seus antecessores.». E termina sublinhando que «O excesso de demarcação de Marcelo Rebelo de Sousa pode, se calhar, não ser uma ideia assim tão boa. Ah, basta ver o plano de “paz” para a Ucrânia para ver que o Presidente tinha razão quando considerou Donald Trump “um activo russo”. Confirma-se.»

Marques Mendes defende também que o Presidente da República deve ser “experiente, preparado para evitar crises e independente”, não sendo uma “correia de transmissão” do partido.

Não ser uma “correia de transmissão” do partido surgiu-me uma dúvida filosófica: será que alguém deve demitir-se da sua ideologia enquanto político quando exerce um importante cargo público, por exemplo, como o de Presidente dum país?

Não é possível os candidatos a presidentes demitirem-se totalmente da ideologia, porque toda ação política implica valores e escolhas normativas, é possível, isso sim, suspender a identidade partidária ou suavizar a marca ideológica, apresentando-se como uma espécie de árbitro ou moderador mais ou menos pragmático. Todavia, essa suspensão é sempre parcial e provisória porque a ideologia reaparece nas decisões concretas e na perceção pública.

Prestar juramento de defender a Constituição exige dar prioridade às obrigações constitucionais acima das suas crenças pessoais ou religiosas, mas não obriga à renúncia da ideologia, mesmo que partidária, apesar dessa renúncia ser uma imposição mais de consciência do que outra.

De facto, simbolicamente, a atitude de Marques Mendes pode ser um gesto de distanciamento meramente estratégico, para se apresentar como independente ou pragmático, mas no plano prático, mesmo que rejeite rótulos, as suas decisões continuarão a refletir valores, prioridades e visões do mundo que são em si mesmos ideológicos. Cargos como o de Presidente da República exigem imparcialidade formal, mas não anulam a bagagem ideológica de quem ocupa o lugar.

Assim, a declaração de Marques Mendes de que não será correia de transmissão do partido não fazer mudar a posição dos eleitores visto que estes projetam expectativas ideológicas sobre qualquer candidato, mesmo que este se declare acima das ideologias. Também não é possível demitir-se totalmente do que defende em teores políticos visto que toda a ação política implica valores e opções que, de certo modo, são de carácter ideológico.

Isto ocorre quando a adesão dogmática à ideologia entra em conflito com o dever de servir a nação e o país, com a evidência empírica dos factos e com a racionalidade do indivíduo. O que pode estar em causa é a distinção entre oportunismo de mudança para benefício próprio e uma reavaliação de colocar acima de tudo mudança para servir o país.

A fim de melhorar as suas hipóteses de eleição e para manter a sua influência os políticos, e Marques Mendes é um deles, estão plenamente cientes de sua viabilidade eleitoral e podem modificar as suas posições para se alinhar com as mudanças no sentimento público e perceção dos eleitores fazendo por mostrar que o dever para com o bem comum deve sobrepõe-se à lealdade ideológica. Mas os eleitores que votam num determinado partido irão também votar num candidato a Presidente da República do qual conhecem o seu pensamento em termos partidário-ideológico.  Todos os candidatos a presidentes aquele que ganhar e for empossado tenta procurar distinguir-se do seu anterior e afirmar-se autonomamente perante a opinião pública, mas nem sempre é assim.

Marques Mendes será uma espécie de Marcelo mais contido, mais reflexivo, mas não deixará de ser mais do mesmo porque o “vício” do comentário televisivo não desaparece facilmente defendendo o que a sua consciência partidária lhe ditar. Se não o fizer será para si uma contrariedade como o foi a de Cavaco ao tempo em que aceitou uma “geringonça”.  

Cavaco Silva não aprovava a geringonça porque a considerava uma solução inédita, arriscada e pouco credível, tanto interna como externamente. Aceitou-a apenas por não ver alternativa viável, entre um governo de gestão ou a nomeação de Costa, e procurou reduzir os riscos impondo condições formais.

O carrossel de André Ventura

22.11.25 | Manuel_AR

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Nada de novo com o agora candidato à presidência da república André Ventura. A estratégia como líder do partido Chega não se altera, não muda é igual a si mesmo.

Para Ventura ser candidato à Presidência da República é o mesmo que ser candidato a primeiro-ministro ou mesmo como deputado. Nada muda, nem no estilo, nem na atitude, nem no comportamento.

Nas entrevistas e debates, sejam quais e onde forem, a sua atitude mantém-se, manifestando e reagindo a situações e a pessoas conforme o seu modo de sentir ou avaliar algo ou alguém, assim como o seu comportamento expresso por ações observáveis e exteriores às atitudes, mantendo as emoções.

Assim, a disposição interna de André Ventura perante os seus adversários políticos, temas polémicos e o modo como reage emocionalmente e avalia situações nos debates, mantem sempre uma postura combativa e crítica, independentemente do cargo a que se candidata.

Um psicólogo poderia avaliar este estado como uma atitude interna de firmeza e convicção, que não se altera com o contexto. O seu comportamento motor, verbal, cognitivo, emocional e social é denunciado através das suas atitudes e comentários durante entrevistas ou debates. Cite-se, a título de exemplo, factos como interromper adversários, usar um tom assertivo ou desafiar regras dos debates.

A postura de André Ventura, enquanto figura política, revela uma notável constância tanto na sua atitude como no seu comportamento, independentemente do cargo a que se candidata ou do contexto em que participa em debates públicos. Não há alterações visíveis na sua forma de se posicionar perante os adversários políticos, mantendo sempre uma postura combativa, crítica e por vezes provocatória. Seja como candidato à Presidência da República, a primeiro-ministro ou enquanto deputado, Ventura apresenta as mesmas estratégias, o mesmo estilo comunicativo e as mesmas expressões emocionais.

Esta coerência manifesta-se tanto a nível interno, na sua disposição e convicção, como externamente, através de comportamentos nas entrevistas e debates, nomeadamente, a tendência para interromper adversários, adotar um tom assertivo e desafiar as normas dos debates. O seu comportamento motor, verbal, cognitivo, emocional e social mantém-se estável, perante o público e interlocutores, reforçando a imagem de firmeza e convicção, para além das contradições.

Uma das suas estratégias é o uso de soundbites, palavras ou frases que ele sabe que têm impacto em parte do eleitorado e que fazem parte dos trechos do seu discurso que sempre usa para resumir as ideias do seu ponto de vista político.

Outra estratégia adotada por Ventura nos debates consiste em dirigir-se ao interlocutor interrompendo-o de modo que muitas vezes ele não seja escutado pelo público. Típica atitude de forte pressão verbal. Lança mão de estímulos que provocam reações emocionais intensas e frequentemente impulsivas nos seus oponentes, influenciando desse modo o ritmo do debate.

Há palavras que Ventura utiliza para descredibilizar o adversário ou interromper o raciocínio alheio tais como “vergonha”, talvez a palavra mais frequente em expressões como “Tenha vergonha” ou “É uma vergonha”, que servem para reivindicar superioridade moral sobre o seu oponente. A estas junta-se o tema central da sua narrativa que é “Corrupção” que utiliza para colar os adversários especialmente PS e PSD a escândalos passados.

Outras palavras são “Mentira” e “Mentiroso” que emprega sistematicamente para refutar dados apresentados pelos oponentes, muitas vezes sem os contra-argumentar, atacando unicamente a intenção. A sua luta é contra o seu inimigo abstrato que é o “Sistema”! Para André Ventura tudo o que está errado é culpa do “sistema” ou dos “interesses instalados”.

Mas há mais, usa até à exaustão, frases referentes ao apelo identitário do ‘nós’ contra ‘eles’, para criar uma ligação direta com o telespectador, os portugueses e outros políticos. Coloca-se frequentemente como sendo o único intérprete do sentir da vontade dos portugueses, o povo, com palavras com expressões como “Os portugueses sabem”, “Os portugueses sentem “.

Foca-se também no custo de vida para demonstrar empatia com a economia doméstica dos portugueses, falando em “bens de primeira necessidade” e “famílias”.

O alarmismo e o medo são instrumentos usados para instalar o sentimento de insegurança e criar um inimigo comum, justificativo para um governo autoritário que apela à força e à intolerância, tal como o fascismo clássico usa o medo para consolidar o seu poder, e caracterizado pelo seu nacionalismo exacerbado, pelo autoritarismo, anticomunismo e antissocialismo, mesmo o socialismo democrático.

O vocabulário de alarmismo e de medo são referidos para criar um sentido de urgência ou de catástrofe iminente. Palavras como “migração” ,”imigrantes” associados a termos como “descontrolo”, “portas escancaradas” ou “invasão” são usadas para gerar também a ideia de que o país é perigoso e que as forças de autoridade estão desprotegidas. Daí a insistência em palavras que surgem nas narrativas de Ventura como aumento de “Criminalidade”, ausência de “Segurança”, desautorização da “Polícia”.

O estado da saúde e do SNS não ficam de fora do discurso de André Ventura e outros temas que saem dessa perigosa figura Rita Matias. O estado da saúde (SNS) ou da educação são descritos como “caos” recorde-se o caso de Rita Matias ter lido e passado nas redes sociais nomes de crianças estrangeiras matriculadas numa escola em Lisboa, alegando que passam à frente das crianças portuguesas, sem nunca o ter conseguido provar. “Subsídios” e    “Subsídio-dependentes” são os vocábulos usados para criticar quem recebe apoios do Estado (RSI), criando divisão entre “quem trabalha” e “quem não quer trabalhar”.

Rita Matias-perigosa irritante.png.jpg

O termo “limpar” do discurso “Vamos limpar Portugal” concentra a ideia de purificação das instituições.

Vejamos outras frases de André Ventura: “Um presidente não pode achar que um imigrante é igual a um português

Quem quiser usar burca não faz cá falta, boa viagem

 “Montenegro é frouxo e morno”, “Se a polícia tiver de entrar a matar, tem de entrar a matar”, etc..

Muitos outros vocábulos e frases poderíamos encontrar nas narrativas de André Ventura do Chega, mas estes são os principais que identifiquei para usar como a repetição se torna numa espécie de carrocel durante comícios, entrevistas e debates.

Para finalizar vejam este vídeo que sintetiza tudo o que por palavras aqui foi descrito.

Fonte: Youtube-bruttosuave

 

De comentador a presidente ex-comentador vai um passo

17.11.25 | Manuel_AR

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Acerca das presidenciais já fiz a minha escolha por entre os candidatos e decidi em quem vou ‘apostar’. Apesar de haver muitos comentadores e colunistas a dar opiniões sobre os candidatos às presidenciais que não revelam as suas preferências e o seu envolvimento nas campanhas e estratégias dos candidatos lá vão por entre linha elogiando os seus preferidos e fazendo por desacreditar outros.  Por isso pretendo ser eu a fazer próprio a minha análise a partir de informação disponível e dos pontos de vista de cada um dos candidatos.

A primeira experiência que tivemos com a eleição dum Presidente da República que passou a ser comentador de política na televisão foi Marcelo Rebelo de Sousa, militante do PSD. Rebelo de Sousa fez comentário político na TVI entre 2000-2004, na RTP entre 2005-2010 e novamente na TVI entre 2010 e 2015. No entanto, sendo militante do PSD não se desfiliou do seu partido, tendo suspendido a militância quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República.  Não existe um requisito legal explícito que obrigue um Presidente da República a desfiliar-se do seu partido, assim, um candidato à Presidência da República pode manter a sua filiação partidária.

O que está estabelecido na Constituição da República Portuguesa é que o Presidente da República deve atuar com total independência e imparcialidade para representar a unidade nacional, o que, na prática, significa que deve assumir uma posição de neutralidade e representação de todos os cidadãos, pelo que a sua ligação a um partido político deve ser separada do exercício do cargo presidencial. Contudo, a desvinculação ao partido a que pertence é uma consequência natural e necessária para garantir a sua atuação enquanto Chefe de Estado.

Em síntese, o Presidente da República, após eleição, deve exercer as suas funções com a independência e imparcialidade exigidas pelo cargo, que é um órgão de soberania acima dos interesses partidários, mas a sua filiação a um partido não é um impedimento legal, tal como um candidato a presidente ter sido comentador político de televisão não é impeditivo.

A desfiliação do partido a que pertencem pelos candidatos a presidentes da república parece ser apenas uma formalidade para salvar as aparências. É claro que a sua orientação do ponto de vista partidário-ideológico não se altera considerando que a sua ideologia seja o seu sistema de ideias, crenças e princípios e a visão sobre como a sociedade deve ser organizada e de como os objetivos devem ser alcançados.

Não tenho dúvidas de que os comentadores de política nas televisões têm a sua ideologia política e os seus partidos preferidos. Temos um Presidente da República que já foi comentador, e há atualmente um candidato que também já o foi e não duvido que estes continuam a ter preferência pelo PSD.

A pergunta que podemos colocar é: devemos ignorar textos e cometários de opinião apenas pela sua suposta ideologia política? Artigos de opinião ou comentários políticos devem ser lidos tendo em conta o enviesamento, isto é, o desvio ou deformação na maneira de ver, julgar ou agir, e, por isso, o leitor deve lê-los e ouvi-los com alguma cautela.

Assim, temos de encarar as campanhas dos vários candidatos à presidência da república, cujas campanhas parecem querer mostrar uma aparente imparcialidade e que se afastam de qualquer ponto de vista ideológico com a cautela necessária.

Muitos candidatos abandonam a sua militância no partido em que militaram, tal como fez o ainda atual Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que tentou mostrar que se afastou da sua ideologia política e de qualquer outra. Não há que omitir que política e ideologia andaram sempre a par visto que as democracias revigoram-se com a livre discussão de ideias e com a pluralidade de opiniões e perspetivas de solução dos problemas.

É natural que candidatos que foram comentadores políticos enfrentem desvantagens tais como suspeitas de parcialidade, falta de experiência executiva e confusão entre análise e ação política. Podemos analisar as principais desvantagens associadas a candidatos presidenciais que anteriormente atuaram como comentadores políticos.

Os comentadores são frequentemente associados a posições ideológicas explícitas que podem comprometer da imagem de imparcialidade esperada para um presidente. A transição do comentário para a política ativa pode ser vista como oportunista, especialmente se o comentador criticava partidos que depois passa a deixar de criticar.

Há um caso evidente que foi o do jornalista português, na altura com 28 anos, Sebastião Bugalho que de comentador político se transformou em candidato, pela AD, ao Parlamento Europeu.  Este caso faz parte de uma lista entre outros que, partindo do jornalismo, se lançaram em percursos políticos partindo do comentário político na televisão. Mas, em democracia e num país livre, qualquer um pode tomar as decisões que entender mesmo que entrando em contradição.

Há muitos comentadores e até alguns candidatos que afirmam que não ter experiência em cargos executivos ou legislativos é uma lacuna importante para o exercício da presidência, argumento que utilizam para justificar a sua preferência e o desprestigio em relação a outros candidatos.

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Os que afirmam, por exemplo, que o Almirante Gouveia e Melo não tem experiência política esquecem-se, ou não se recordam que o General Ramalho Eanes não tinha experiência política significativa antes de ser presidente, a não ser alguma experiência política formal limitada. Ter posições de destaque na sua carreira militar como Chefe do Estado-Maior do Exército e a sua participação no controlo do golpe do 25 de novembro de 1975, assumindo somente, como seria de esperar um papel político operacional e estratégico na transição democrática. Ter também exercido o cargo de relevância pública como presidente da RTP após o 25 de Abril, antes de ser eleito para a presidência não pode ser considerada uma grande experiência política como tal.

Outro caso foi o de Soares Carneiro candidato presidencial nas eleições presidenciais de 1980, cuja intervenção política não era conhecida, a não ser o de ter o apoio da Aliança Democrática na altura.

Do mesmo modo o Almirante Gouveia e Melo também teve um exercício político inerente aos cargos militares que desempenhou, tal como o General Ramalho Eanes que foi Presidente numa época politicamente conturbada e ideologicamente polarizada.

Há sempre vantagens e desvantagens entre candidatos que têm ou tiveram notoriedade como comentadores e militantes de partidos e os sem histórico como comentadores. Os que foram comentadores têm a desvantagens da perceção que transmitem de parcialidade, falta de experiência institucional, contradições públicas em relação a afirmações nos comentários, confusão entre análise e ação política. Pelo contrário, os que não têm histórico no cometário político têm desvantagem porque têm uma menor visibilidade mediática e, por isso, têm necessidade de construir notoriedade e dependência de apoios partidários.

Quanto ao ainda Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e ao candidato à presidência Marques Mendes fizeram do comentário político nas televisões um trampolim para uma intervenção pública, neste caso ao mais alto nível.

Os que têm histórico como comentadores passam uma perceção de imparcialidade      questionada associada a posições ideológicas explícitas, os que não foram comentadores estão geralmente menos expostos a acusações de parcialidade mediática, como é o caso de Gouveia e Melo. A propósito de Gouveia e Melo já começou, por parte de alguns comentadores e jornalistas, porque estarão mais próximos de outros candidatos, a procura de potenciais falhas ou contradições que ele possa cometer para as ‘escavarem’ e repetirem até à exaustão.

O contraste de Marques Mendes com os outros candidatos é apenas e, mais uma vez, o seu percurso político no PSD depois no comentário político em televisão para se colocar na ‘pole position’ na corrida para qualificação para a corrida à presidência.

Quando o comentário político televisivo ao longo de muito tempo garante notoriedade televisiva e até pode garantir visibilidade, mas tem a desvantagem de levantar dúvidas sobre a profundidade do compromisso político e as propostas que defende, esvaziando a credibilidade em futuras carreiras políticas.

Há muitos comentadores e colunistas a dar opiniões sobre as presidenciais sem revelarem as suas lealdades e o seu envolvimento ativo nas campanhas e estratégias dos candidatos. Os comentadores podem ser vistos como bons comunicadores, mas não são, necessariamente, bons gestores ou líderes institucionais.

O Almirante Gouveia e Melo não foi comentador, mas apenas homem que se mostra autêntico. O seu papel não é o de analisar e criticar e, enquanto não político, mostra a vontade de propor, aconselhar e executar ainda que esta posição possa gerar desconfiança sobre a capacidade de transformar no terreno porque não faz parte das competências dum Presidente da República.

Por outro lado, notabilidade televisiva pode garantir visibilidade, mas também levanta dúvidas sobre a profundidade do compromisso político. Esta exposição constante nos meios de comunicação pode criar uma perceção pública favorável e facilitar o reconhecimento imediato do candidato, contudo, não substitui a necessidade de demonstrar coerência e convicção nas propostas que apresenta. A partir daqui candidatos que emergem do comentário televisivo enfrentam o desafio de provar que a sua presença mediática não se limita ao espetáculo, mas está sustentada por um verdadeiro compromisso com o serviço público e capacidade para liderar com seriedade, afastando a ideia de que apenas procuram capitalizar popularidade sem apresentar soluções relevantes para o país. O que afirmo demonstram que declarações passadas podem ser recuperadas e gerar crises de credibilidade, como no caso de Sebastião Bugalho que anteriormente referi, que dizia não ter ambições políticas.

Tal como Marques Mendes que em 20 de outubro de 2016, já lá vão seis anos, afirmava que «Não sou candidato a coisíssima nenhuma. A nada». Na altura Luís Marques Mendes repetiu, por várias vezes, que não iria “candidatar-se a primeiro-ministro na conferência “Portugal em Exame”.

Em setembro de 2022, declarou que não pretendia ser candidato nem tinha essa ambição. Já em agosto de 2023 Luís Marques Mendes, antigo presidente do Partido Social Democrata (PSD), não descartava a hipótese de se candidatar a Belém ao afirmar que «Se um dia achar que, com uma candidatura à Presidência da República, posso ser útil ao país, que é isso que conta, ter utilidade para o país, tomarei essa decisão». Ainda na mesma data passou a admitir a hipótese de se candidatar, dizendo que “se um dia achar que é útil, não excluo”. Ou seja, houve uma evolução: primeiro rejeitou categoricamente a ideia, mas depois deixou a porta aberta, até chegar ao momento atual em que é de facto candidato apoiado pelo PSD.

Em 2 de fevereiro de 2025 Marques Mendes despediu-se do seu espaço de comentário no ‘Jornal da Noite’ da SIC quatro dias antes da sessão de apresentação da sua candidatura às eleições presidenciais de 2026.

A conclusão a tirar é a perceção de que a sua passagem pelo comentário político serviu de trampolim para a intervenção pública ao mais alto nível e revela a constatação de que a cobertura mediática tende a privilegiar rostos conhecidos, o que pode distorcer a representatividade e favorecer alguns candidatos.

Portugal não precisa de presidentes comentadores e de políticos profissionais, precisa, isso sim, dum presidente que se mostre independente e com a neutralidade e imparcialidades necessárias, assumidas e continuadas.

 

Comportamento parlamentar de deputados

O caso de Rita Matias

09.11.25 | Manuel_AR

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As expressões faciais das emoções são uma componente essencial da comunicação humana, e podem refletir a riqueza e a complexidade do mundo emocional interno de cada sujeito.

Raiva é em geral tratada como uma emoção intensa, de curta duração a reações situacionais. Ódio tende a ser um estado mais duradouro, ligado à desumanização, desejo persistente de dano e à perda de empatia. Tem havido pesquisas em psicologia emocional e social, no âmbito das ciências políticas em relação ao ódio coletivo, ao discurso de ódio, ao ódio no âmbito da política, à cultura do ódio e estigmatização.

Na Assembleia da República temos visto frequentemente a proliferação de discursos agressivos entre deputados de qualquer partido, mas desde a entrada do partido Chega no Parlamento a situação piorou.

Em psicologia o comportamento agressivo na sua forma de atuação aparece caracterizada como tensão e explosão de raiva de modo a aliviar o indivíduo. Geralmente quem possui muita agressividade, canaliza toda a sua energia em explosões de raiva a fim de se livrar dessas emoções muito intensas.

Em política um comportamento agressivo aparece como explosão de raiva às vezes apoiados ou mesmo incentivados por governos e partidos. Este tipo de comportamentos pode constituir-se num problema que vai para além da polarização política interna.

Há exemplos pontuais localizados em situações específicas como no caso de deputados(as) que mobilizam agressividade como a raiva e ódio manifestados por comportamentos agressivos usados como recursos nas retóricas para persuadir audiências, sinalizar lealdades e mobilizar bases eleitorais. Esta retórica emotiva tende a ampliar a visibilidade mediática e a polarizar debates, servindo quer para mobilização, quer para legitimar posições políticas.

É certo que manifestações de discurso de ódio não são mais do que meras palavras escritas, representações gestuais, mas as verbalizadas são mais amplas e os seus efeitos vão muito além da mera ofensa.

O conceito de ódio em política está mais associado, sobretudo, aos Estados totalitários, governos autoritários. Contudo, também é possível encontrar traços desse tipo, principalmente nos anos mais recentes, mostras de um crescimento exponencial da presença daquele tipo de discurso no âmbito de regimes democráticos. Assim, tem havido dificuldade da democracia lidar com um volume inédito de manifestações de intolerância, também ligados a elementos do campo político.

A escalada da manifestação de discursos de ódio e de agressividade em regimes democráticos, não é direcionado apenas contra grupos sociais ou étnicos, mas também contra a própria democracia e está longe de ser um problema isolado ou local. A política de ódio, ou seja, o ódio transformado em insultos e agressões verbais na prática institucional e social volta-se, em muitos casos, contra a própria democracia.

Não tem sido raro que na Assembleia da República deputados e deputadas do partido Chega tenham feito bulling contra deputados de outros partidos. Há deputados do Chega que são “mestres do insulto e da ofensa” (Filipe Melo, Pedro Frazão e Rita Matias).

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Há exemplos concreto duma linguagem que revela agressividade até alguma raiva para com deputados doutros partidos. Um  deles foi o que aconteceu num plenário em fevereiro de 2025 quando se ouviram apartes, coisa que parece ser permanente no parlamento. Todas as bancadas ouviram ‘Aberração’, ‘drogada’, ‘devias estar numa esquina’ e outras expressões insultuosas por parte de deputados do partido Chega.

Durante uma sessão plenária em 4 de novembro do ano corrente a deputada Rita Matias dirigiu insultos explícitos à deputada Inês Sousa Real do PAN chamando-lhe repetidamente ‘asquerosa’. Este episódio não foi um caso isolado, uma vez que, em 2023, a mesma deputada Rita Matias já havia insultado Edite Estrela, então vice-presidente da Assembleia da República, a quem chamou ‘senil’ no plenário.

 

A deputada Rita Matias, do partido Chega, em algumas circunstâncias apresenta um rosto expressivo que manifesta agressividade quando não aversão que podem ser facilmente confundidos com episódios de sentimentos de raiva e eventualmente ódio.

Contudo, é fundamental distinguir entre aversão e ódio em termos expressivos da verbalização. A primeira manifesta-se mais pela repulsa do que por hostilidade aberta. Uma análise do contexto e do comportamento global são essenciais para compreender verdadeiramente as emoções expressas, dado que as expressões faciais, tomadas isoladamente, podem ser ambíguas.

A raiva e o ódio tendem a ter uma raiz comum, frequentemente associada ao desejo de represália, o que pode não explicar as frequentes ofensas lançadas por Rita Matias a deputadas de outros partidos.

Estes comportamentos levantam a questão sobre o perfil da deputada Rita Matias para a função que ocupa, levando a questionar se consegue igualar o seu líder e colegas em termos de má conduta parlamentar.

A essência da democracia reside no respeito mútuo e na liberdade de expressão, mas esta última não pode ser utilizada como instrumento de humilhação ou desumanização. As ofensas pessoais violam o princípio da dignidade humana, que está consagrado na Constituição, ultrapassando os limites do aceitável num Estado democrático.

A utilização de linguagem insultuosa ultrapassa uma mera falta de civilidade e representa um ataque direto à dignidade institucional de uma colega deputada e enfraquece o mínimo de boa educação necessário para o funcionamento do debate parlamentar.

Por vezes as expressões faciais e verbais de Rita Matias aparentam revelar sentimentos de desprezo, ódio e aversão aos seus opositores, como é ilustrado em imagens alteradas por inteligência artificial para mostrar aquela expressões.

A normalização dos insultos públicos contribui para a perda de legitimidade pessoal enquanto ferramenta política fomentando a polarização e a hostilidade em detrimento da confrontação construtiva de ideias. Insultar uma colega em plenário é um desrespeito não só para com a pessoa ofendida, mas também para com o papel da Assembleia enquanto espaço de deliberação pública. A democracia não se sustenta apenas através das eleições, mas exige um respeito mínimo para a sua manutenção.

 

Extrema-direita imigração de portas abertas e eleições presidenciais

03.11.25 | Manuel_AR

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Já entrámos em pré-campanha eleitoral para a Presidência da República e por entre os vários candidatos surge o líder do partido Chega André Ventura. É, assim, previsível que o tema da imigração venha a ser reanimado e trazido à discussão tendo em conta a polémica que os cartazes da sua campanha já desencadearam.

O destaque que André Ventura imprime à temática da imigração, ao enfatizar uma presença excessiva de imigrantes, parece ter-se revelado uma estratégia eficaz na conquista de votos e apoio eleitoral. Esta abordagem, ao centrar o debate nas emoções em torno dos receios e inquietações em determinados segmentos da população, tem-lhe permitido captar o interesse e a adesão de muitos eleitores.

Com o início da pré-campanha eleitoral para a Presidência da República, o líder do partido Chega, André Ventura, assume um papel de destaque entre os candidatos. É previsível que o tema da imigração volte a ser central no debate político, especialmente considerando as controvérsias já geradas pelos cartazes da sua campanha. Ao explorar essas preocupações, Ventura consegue captar o interesse e a adesão de muitos eleitores, reforçando assim o espaço político do Chega.

O seu posicionamento crítico face à imigração, frequentemente reiterado no discurso público e nos materiais de campanha como os referidos cartazes de campanha já levantaram polémica e tem sido determinante para consolidar o seu espaço político e aumentar a sua influência no panorama eleitoral português.

Falar ou escrever sobre imigração sob uma perspetiva que difere do discurso dominante acarreta desafios significativos. Já abordei este tema em diversas ocasiões, e é inevitável sentir a preocupação de que qualquer análise mais crítica possa ser imediatamente associada às posições defendidas pelo líder do Chega. Esta realidade torna o debate sensível e complexo, pois existe o risco constante de ver as minhas opiniões confundidas com as de uma corrente política específica.

Ao contrariar a visão dominante quando se abordam ideias que se afastam da visão partilhada pela maioria, persiste sempre o risco de que estas sejam mal interpretadas ou gerem controvérsia. Este posicionamento, embora necessário para um debate plural, frequentemente entra em conflito com o meu próprio ponto de vista e consciência sobre o meu pensamento, gerando falsas interpretações.

Apesar das possíveis divergências entre opinião pessoal e consenso social, é fundamental que se exprima aquilo que se observa e sente, especialmente quando tal reflete o sentimento duma parcela significativa da população. Nos grandes centros urbanos, estas perceções, mesmo quando não sustentadas por dados objetivos, manifestam-se de forma intensa e merecem ser consideradas no debate público, pois revelam inquietações e realidades vividas no quotidiano.

Recordem-se as polémicas geradas quando o projeto de lei aprovado pelo Parlamento português que proíbe o uso de vestimentas que ocultem o rosto em espaços públicos a chamada “lei da burca” que desencadeou uma série de comentários e artigos de opinião nos órgãos e comunicação. Mesmo aqueles a quem Portugal abriu as portas saem à rua em manifestações (não ponho em causa o direito ao protesto), mas ao procederem a exigências ao país que os acolhe remete para uma atitude de que a cultura do país de acolhimento não tem de ser respeitada, antes pelo contrário, deve ser imposta sua cultura àqueles que os acolhem na sua “casa”. Este tema tornando-se um símbolo das tensões existentes em torno das questões de integração e respeito pelas normas do país de acolhimento.

As manifestações públicas organizadas por alguns daqueles que beneficiaram da hospitalidade portuguesa, embora legítimas no seu direito ao protesto, trouxeram à tona um debate delicado. Quando, durante estas manifestações, se fazem exigências ao país de acolhimento, surge a perceção de que pode não haver uma plena aceitação da cultura local. Ao invés disso, pode parecer que há uma tentativa de impor os valores e costumes de origem à sociedade que os recebe, desafiando os princípios de integração e respeito mútuo.

O fenómeno migratório, longe de ser um processo linear, envolve fatores sociais, económicos e culturais que desafiam tanto as comunidades de acolhimento como as dos que recebemos. A perceção pública sobre a imigração é frequentemente moldada por narrativas mediáticas, discursos políticos e comentários polarizados que, grande parte das vezes, distorce a compreensão real dos benefícios e desafios associados à integração de novas populações.

A perceção pública sobre a imigração é frequentemente contrariada por narrativas mediáticas e discursos políticos que tendem a polarizar o debate. Comentários e análises difundidos pelos media podem distorcer o entendimento coletivo acerca dos verdadeiros benefícios e desafios inerentes à integração de novas populações. Assim, o debate sobre a imigração raramente reflete a realidade total dos processos de integração, sendo muitas vezes marcado por interpretações parciais ou sensacionalistas.

A ascensão dos partidos populistas de extrema-direita, como o Chega, está intrinsecamente ligada à instrumentalização de temas sensíveis como a etnia cigana e a imigração. Este fenómeno político alimenta-se de uma retórica que explora emoções e receios latentes na sociedade, direcionando o debate público para questões identitárias, nacionalistas e de segurança. O partido Chega utiliza a imigração como ponto central do seu discurso, promovendo uma visão crítica e alarmista sobre a presença de imigrantes no país.

No caso concreto do Chega, para além da corrupção e da criminalidade a imigração tornou-se o eixo central do seu discurso, sendo abordada de forma crítica e frequentemente alarmista. Esta abordagem visa criar uma perceção de ameaça associada à presença de imigrantes no país, explorando inseguranças quanto à preservação da identidade nacional e à estabilidade social. O partido utiliza esta estratégia para consolidar a sua base de apoio, apresentando-se como a voz que denuncia aquilo que considera serem os riscos e desafios decorrentes da integração de novas populações.

Assim, o fenómeno político em análise revela-se alimentado por uma retórica polarizadora, que procura dividir a opinião pública e mobilizar segmentos da população que se sentem desamparados ou ignorados pelas políticas tradicionais. Ao focar-se na imigração e em questões identitárias, o Chega posiciona-se como alternativa ao discurso dominante, promovendo uma visão que enfatiza os potenciais impactos negativos da imigração na sociedade portuguesa.

Numa entrevista que deu para um livro de Gustavo Sampaio, André Ventura disse sobre a imigração que «… problemas com um impacto mais significativo, talvez, no dia-a-dia das pessoas, exceto em algumas zonas do território. Refiro-me à imigração». Continua referindo-se ainda à imigração que, «portanto, não podia deixar de abordar este tema. Vejo aliás que somos o único partido no Parlamento com coragem para o fazer. Nenhum outro partido aborda o tema da imigração. E quando o aborda, é para dizer que precisamos de mais gente, ou que está tudo bem assim…».  

A resposta ao crescimento dos movimentos de extrema-direita apresenta-se como um fenómeno multifacetado, sendo a imigração apenas uma de suas dimensões, além do descontentamento económico e social decorrente de crises financeiras, desemprego, precarização das relações de trabalho e redução do poder de compra, fatores que contribuíram para um ambiente de insatisfação, notadamente entre as classes médias e trabalhadoras. Observa-se uma perceção de que os partidos tradicionais não têm proporcionado soluções eficazes para tais questões, o que gera desconfiança nas instituições e na política tradicional, agravada por episódios de corrupção, promessas não cumpridas e o distanciamento percebido entre representantes políticos e cidadãos. Esse conjunto de fatores tem alimentado o desencanto com a democracia liberal, criando condições favoráveis ao surgimento de partidos autodeclarados “antissistema”, como é o caso do Chega.

Todavia há um ponto comum entre os partidos populistas da extrema-direita que centram a sua narrativa no aumento excessivo da imigração, especialmente após a crise dos refugiados de 2015 que gerou o levantamento de questões identitárias e culturais.

Aqui chegado vem à memória a “teoria da conspiração sobre a substituição da população europeia por imigrantes”, amplamente conhecida como a teoria da “Grande Substituição” e adotada pelas extremas-direitas como forma de encarar a imigração porque é uma teoria conspirativa que alega a existência de um plano deliberado e secreto, frequentemente atribuído a elites políticas ou a grupos globalistas, para substituir a população branca e cristã da Europa por imigrantes não-brancos e não-cristãos, geralmente muçulmanos.

Esta teoria, aproveitada pelas extremas-direita radicais e nazis, é considerada uma narrativa conspiratória, racista e xenófoba, que distorce dados demográficos e atribui as mudanças populacionais naturais e complexas a um plano secreto e malicioso. Ainda que esta teoria da conspiração, como tantas outras idêntica sejam um disparate podemos, contudo, fazer uma abordagem meramente teórica do ponto de vista estritamente duma projeção demográfica de taxas de natalidade e de fecundidade/fertilidade o que virá a ser tema dum próximo POST.