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Opinião, Política, Sociedade, notícias e crónicas a Propósito de Quase Tudo

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Revisão da Constituição ou Constituição da revisão

20.11.22 | Manuel_AR

Revisão da Constituição.png

Na falta de oposição credível e objetiva o PSD resolveu, inoportunamente, avançar com um proposta para revisão constitucional e é nisso que devemos estar atentos. Quem se dedicar a ler atentamente a proposta de revisão da Constituição daquele partido encontrará, embora em termos menos agressivos, o regresso do tema "peste grisalha", (não sei se ainda se recordam), de forma mais subtil e adocicada nas palavras.

Atento como sempre Pacheco Pereira num artigo de opinião no Público alerta e coloca avisos sobre a mencionada revisão. Vale a pena ler.

Opinião

Mais uma vez a “peste grisalha” – uma “justiça” que é uma injustiça

Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Em 2013, num artigo de jornal, um deputado do PSD escreveu: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha.” A frase suscitou uma furiosa discussão, chegou ao debate parlamentar e foi objecto de processos judiciais. Um reformado que reagiu com veemência à sua classificação como pestífero, e foi por isso processado pelo deputado, ganhou no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e teve direito a uma indemnização. Numa das colunas de verificação de factos confirmou-se a veracidade da frase e do seu autor, “mas” considerou-se uma atenuante que a expressão “peste grisalha” era usada em estudos académicos e não era de sua autoria.

Foto DR

Na verdade, no caso português, toda a frase é sinistra, porque a escolha de palavras densas como “pátria” e “contaminar” não iludem sobre o sentido pejorativo que se pretendia dar à “peste grisalha”. O contexto também não engana: estamos em plena ofensiva do Governo Passos-Portas-troika contra os direitos dos pensionistas e reformados e é a eles que se dirige o amável epíteto de “peste”. Essa ofensiva só não foi mais longe porque o Tribunal Constitucional a impediu.

O contexto da época ainda se torna mais esclarecedor, quando a JSD começou a falar de uma coisa a que chamava “justiça geracional”, considerando que os mais velhos, com as suas reformas e pensões, “roubavam” os mais novos que as tinham de pagar sem ter a garantia de vir a ter idêntico tratamento no futuro. O discurso “geracional”, mais uma variante dos discursos antidemocráticos que circulam nos dias de hoje, estruturalmente semelhante aos discursos “identitários”, era à época uma forma de legitimar a ofensiva contra a “peste”. O que é grave é que ele aparece de novo no actual projecto constitucional do PSD.

O que sabemos sobre esse projecto são as 40 propostas de alteração à Constituição, mais um programa de governo do que um projecto de revisão constitucional, com uma ou outra ideia razoável, mas muitas más. As propostas, que ainda não são o texto da revisão, tornam a Constituição um texto complexo e confuso, dominado pela preocupação de limitar o poder actual do PS, esquecendo-se que, a seu tempo, o PSD terá de governar com uma Constituição que torna a governação quase impossível. A Constituição tornar-se-á gigantesca, cheia de direitos abstractos, escritos na linguagem da moda “do século XXI”, num país que está longe de garantir sequer os direitos do século XIX. Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Uma das ideias perigosas é exactamente essa da “justiça intergeracional”. Ela está a expressa nos seguintes pontos:

Justiça intergeracional, combate à sub-representação dos jovens no processo democrático e valorização de todas as gerações:

a. Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações;

b. Criação do Conselho da Coesão Territorial e Geracional como um órgão que assegura uma representação paritária das diferentes regiões do território e gerações, (…)

c. Alteração da idade legal para exercer o direito de voto: a partir dos 16 anos;

d. Reforço da dignidade na terceira idade.

Percebe-se muito bem que quem redigiu este ponto não diz ao que vem. A última alínea – “reforço da dignidade na terceira idade”, numa formulação de slogan, está lá apenas por razões cosméticas, porque o essencial está antes disfarçado em afirmações confusas. O que é que significa o “combate à sub-representação dos jovens no processo democrático”? Quotas? Direitos de preferência? A mais importante é a frase “Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações”. Muito bem, podemos é perguntar quais são as “injustiças” actuais, porque aí é que se percebe melhor o alvo.

A verdade nua e crua, e que muita gente não gosta de ouvir, é que ser jovem é, sob todos os pontos de vista, melhor do que ser velho. Não há sequer comparação possível entre as oportunidades de quem tem futuro e quem só tem passado. Pode ter dificuldades em arranjar emprego, mas não são certamente maiores do que as de uma pessoa que nem precisa de ser velho, basta ser de meia-idade. Pode ter salários mais baixos e precariedade, sem dúvida, mas ser desempregado de um dia para o outro com família constituída e receber o subsídio de desemprego por uns meses é um drama maior.

E, se há injustiça é a invisibilidade social da condição de velho, a que se soma a condição terrível de ser velho e pobre, e que a sociedade, obcecada pela moda da juventude – os jovens têm sempre boa imprensa –, pura e simplesmente ignora por comodidade e desatenção. As ruas das cidades nunca foram tão hostis aos velhos, que podem tropeçar numa trotinete atirada ao chão em qualquer lado, ser atropelados por uma bicicleta em sentido contrário ou a andar nos passeios, ser obrigados a ler em ecrãs sem resolução para quem já vê mal, a subir e descer escadas em prédios em que o condomínio desde a troika a primeira coisa que deixa de compor são os elevadores, com correios que obrigam a deslocações e perda de tempo para receber a reformas ou pagar as contas, com transportes inadequados e difíceis de apanhar. Habituem-se, modernizem-se, chamem um Uber… E a enorme solidão que o egoísmo crescente de famílias e vizinhos traz numa sociedade em que as relações sociais são substituídas por simulacros virtuais. E ser velho hoje é insulto, e não é preciso ir mais longe para o ver do que as caixas de comentários deste jornal.

Sim, há “injustiça geracional”, só que num sentido diferente daquele que o PSD coloca nas suas propostas de revisão constitucional. Há uma parte que vem da natureza e pode ser minimizada, mas não eliminada, e outra que vem de uma sociedade dominada pela moda, pelo egoísmo e pela falta daquilo a que Shakespeare chamava “the milk of human kindness”.

 

Religião nas campanhas eleitorais: atitude e intenções dos candidatos

12.11.22 | Manuel_AR

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Falemos de guerra, revoluções, levantamentos populares, manifestações, eleições e de religião. A longo de milénios a religião tem tido um papel importante na vida de milhões de seres humanos pois ela existe em todas as sociedades e é um elemento central da experiência humana que influencia o modo como se vê e reage ao meio que nos rodeia. Há evidências de que a religião interfere no mundo secular, nomeadamente na política.

Durante a Idade Média houve uma luta constante entre a Europa Cristã e os estados Muçulmanos que culminou com o crescimento do Ocidente nos séculos XVIII e XIX. A incapacidade do mundo muçulmano para resistir à expansão do Ocidente deu lugar a reformas para procurar restaurar a pureza do Islamismo para afirmação da sua identidade, o que originou as denominadas revoluções islâmicas pelas mais diversas formas embora em alguns casos até a repressão por governos teocráticos islâmicos para fazerem cumprir os preceitos religiosas como se tem verificado no Irão.

Há, e sempre houve, uma tensão entre o pensamento racionalista e a atitude religiosa. O desconhecimento e a falta de respostas científicas definitivas sobre a origem da vida, juntamente com a incapacidade das sociedades, na maior parte do Mundo, para resolverem problemas sociais prementes, e alguns até angustiantes, têm tido consequências que podem a vir a ficar num futuro próximo, se é que já não estão, fora de controle.  

A tristeza e a angústia da morte alimentam a ideia de fé que empurra emocionalmente as pessoas para a crença de uma vida após a morte onde a virtude é premiada e o mal castigado, mundos opostos que foram alimentados com a crença no divino.

A variedade de crenças e de organizações religiosas é enorme pelo que se torna difícil uma definição sociológica de religião que seja universalmente aceite. No contexto deste artigo o senso comum poderá ajudar à sua compreensão. No Ocidente as generalidades das pessoas identificam a religião com o Cristianismo que nos promete uma vida para além da morte. Contudo, estas crenças e muitos outros aspetos do Cristianismo estão ausentes na grande maioria das religiões do mundo. Por outro lado, nas principais religiões do mundo, existiram e existem agrupamentos e seitas com zelo dos seus crentes idêntico ao encontrado no Cristianismo. Grupos religiosos podem seguir o seu caminho sem se oporem necessariamente a outras organizações mais estabelecidas, como é o caso das inúmeras igrejas evangélicas.

Novas seitas e novos cultos estão constantemente a surgir como uma qualquer atividade negocial. As suas atividades, rituais e crenças tornam-se semelhantes e as cerimónias litúrgicas ajudam à criação do sentimento da qualidade da experiência religiosa.

Deve ainda salientar-se a importância do fundamentalismo religioso com o regresso literal aos textos das escrituras que emerge como resposta à modernização e à racionalização. Negando respostas sociais, refugia-se em respostas sociais assentes na fé defendendo a tradição, fugindo à secularização, isto é, à sujeição às leis civis, como acontece, por exemplo, com o fundamentalismo islâmico no Irão e Afeganistão e a opressão sobre o sexo feminino, porque a lei da “sharia”, lei islâmica, em parte é contrária aos direitos humanos e especialmente severa com as mulheres e meninas.

Os movimentos fundamentalistas surgem como resposta a uma crise económica generalizada, cultural, de identidade e de autoridade. Defendem a aplicação da «sharia» como único fundamento de organização da sociedade. Há duas correntes  fundamentalistas, os moderados e os radicais. Os primeiros mantêm pressão sobre os dirigentes para que estes provoquem a transformação da sociedade. Para os radicais não há compromissos com a atual sociedade e defendem por isso a rutura política e introduzem o conceito de revolução.

Manipular a religiosidade do povo e das suas crenças leva políticos a invocar o nome de Deus independentemente dos cultos e das liturgias que venerem. Vladimir Putin e os que o apoiam na injusta guerra invasiva da Ucrânia também tem a religião ao seu serviço.

O apoio por parte da Igreja Ortodoxa foi evidente quando as tropas de Vladimir Putin invadiram a Ucrânia e Kirill, o patriarca de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa, não condenou as ações militares. Pelo contrário, abençoou as tropas russas e, até agora, não apelou a um cessar-fogo. Kirill o máximo representante da Igreja Ortodoxa Russa é um antigo aliado de Putin que, em 2012, chamou ao governo de Putin "milagre de Deus". O conceito de paz não tem qualquer valor para ele. O feriado por ele criado no dia 4 de novembro que diz ser o Dia da Unidade Nacional que também é o dia da glória militar da Rússia. É um feriado oficial no país. O feriado está associado à libertação de Moscou dos invasores poloneses em 1612 e simboliza a unidade nacional.

Manifesta-se uma espécie de simbiose entre alguns políticos e religiões tendo em vista a manipulação do povo ao serviço dos mais diversos interesses. Entra-se no domínio da relação e de participação da religião na política e reciprocamente. Uma evidência relativamente recente foi o caso que ocorreu nos EUA durante o mandato de Donald Trump que prometeu na campanha a revogação da “Emenda Johnson”, legislação que limita a capacidade de organizações religiosas isentas de impostos de apoiar ou opor-se a um candidato político que usou para apelar ao voto, com algum sucesso, dos eleitores evangélicos.

Já na presidência, Trump afirmou que "se livrou" da emenda e que as organizações religiosas eram livres para defender opiniões políticas na discussão pública. Mas, a “Emenda Johnson” ainda se encontra em vigor, apesar das repetidas afirmações contrárias de Trump e da promessa da sua revogação.  

O recurso às religiões maioritárias não se verificou apenas no Brasil na campanha para as eleições de novembro deste ano. Em 2016 durante a campanha eleitoral de Donald Trump verificou-se o mesmo quando o nome de Deus foi frequentemente proferido.Como se viu durante o mandato de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil a palavra “Deus” em vários contextos era frequentemente utilizada nos seus comícios políticos. Na Europa estamos a testemunhar uma instrumentalização semelhante do cristianismo por políticas populistas de extrema-direita que utilizam o nome dado ao “Ser Supremo e Criador” para atrair os crentes para as suas “hostes” político-ideológicas.

 
  


Em Portugal André Ventura, do partido CHEGA, é o exemplo demonstrativo com as suas afirmações salvíficas no Tweet e com as suas intervenções públicas assumindo-se como o escolhido de Deus, o que caracteriza o discurso dos ditadores.

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Quando a religião é posta na bancada da disputa eleitoral e da contenda política são implícitos os riscos do messianismo político.

Éric Zemmour, político de extrema-direita francesa derrotado na eleição presidencial em 2022 que apresentou ao eleitorado um discurso xenófobo, misógino e revisionista exalta "o anjo que lidera o exército de anjos contra o dos demónios" usa símbolos histórico-políticos e religiosos. Não faz nada de novo, limita-se a assumir explicitamente os "valores cristãos" que diz defender.

Em Medjugorje, uma vila situada no Sul da Bósnia e Herzegovina, onde alegadamente ocorrem aparições da Virgem Maria, Salvini em março de 2020 expressou a sua devoção a Nossa Senhora de Medjugorje como o fez em várias ocasiões. Orban procura a Bíblia para afirmações com conotação e insistência religiosa: “Os ensinamentos de Deus levaram-nos a não ver uma mera coincidência ou capricho do destino no facto de que, aqui e agora, há um governo cristão de fé a liderar a Hungria”.

Os populistas de extrema-direita na Europa e em outros lugares procuram os símbolos, a linguagem e os rituais do cristianismo, para torná-lo uma defesa contra o estrangeiro e fortalecer o senso de identidade nacional do ocidente.

Seja Putin, Orban, Bolsonaro, Zemmour, Salvini ou Trump, são a evidência do mesmo apelo aos valores cristãos, a mesma exaltação duma herança que a Europa está a perder. Contudo, paradoxalmente, esses populistas que se proclamam defensores da tradição cristã encontraram em Roma o seu inimigo mais firme no coração deste cristianismo com o Papa Francisco. Os apelos do Vaticano e os valores cristãos pela voz do Papa não lhes chegam aos ouvidos.

O lema “Deus, Pátria, Família” ao qual alguns acrescentam abusivamente liberdade, são a evidência do salto, não muito longo, para a as tentativas de ligação da religião às políticas populistas autoritárias. Este slogan criado nos anos 30 ainda se mantém e é mencionado na atualidade tendo como finalidade o apelo à religiosidade do povo e às suas crenças.

O lema da trilogia "Deus, Pátria e Família" não foi, como se poderá supor, invenção da educação do Estado Novo como base do ensino escolar do tempo da ditadura. No Brasil já era usado pelo movimento Integralista Brasileiro em 1932 inspirado no fascismo italiano que tinha sido criado por Mussolini entre as décadas de 1920-1940. Estes movimentos de natureza fascista baseavam-se nos ideais do cristianismo (católico), unidade nacional (entenda-se não existência de vários partidos), corporativismo, combate ao liberalismo e ao socialismo. A religião ficava assim simbolizada pela palavra Deus todo-poderoso e soberano.

Ideologicamente a esquerda critica o slogan “Deus, Pátria, Família” que associa à ditadura. Salazar, para destruir o espírito partidário, planeou e organizou a instituição que é a União Nacional que, embora com intuídos políticos, era considerado, por alguns um partido político e por outros um partido único.  O seu fim político consistia em criar no País a atmosfera dita, indispensável, para uma alegada reforma necessária na política e nos costumes.  Para Salazar os partidos fizeram-se para servir clientelas, mas a União Nacional nunca seria um partido político por que teria a aspiração mais alta de “organizar a Nação” sobe o lema Deus, Pátria, Família.

Mas será que, por a ditadura de Salazar não aceitar o sistema pluripartidário, desvalorizar a democracia e assentar a política na chamada União Nacional, de partido único, haverá razoabilidade para em democracia se odiar aquele slogan para sempre. Cada qual poderá tirar as ilações que entender sobre os significado e carga política que são atribuídos ao slogan, contudo slogans podem ser aplicado de cordo com propósitos pretendidos.

O populismo da extrema-direita portuguesa, dando como exemplo o caso português do partido CHEGA, que se apropriou do mesmo lema do regime ditatorial salazarista parece também valorizar os valores e princípios salazarista e antidemocráticos com arrazoados tais como estar contra o sistema, manifestações xenófobas e racistas, nacionalismo extremado, anti europa, etc. Para André Ventura a ideia de que o seu partido é de extrema-direita é falsa com alegação estranha de que, se o fosse, “não teria a implantação que tem no Alentejo”.

Mas, o que é, para ele, ser antissistema e pretender ser "uma nova Direita antissistema"? Será opor-se ao sistema económico, político, democrático, etc., vigente? Será ser contra a ordem estabelecida? Então que sistema propõe? Será ser antissistema por oposição à democracia? (Ver várias intervenções de André Ventura do partido Chega). Será que ser antissistema é estar contra a democracia e contra tudo o que ela conseguiu e representa? Não temos respostas satisfatórias da sua parte e clamar “Deus, Pátria, Família” não ajuda.

Durante a última campanha eleitoral no Brasil, na disputa pela presidência entre Lula e Bolsonaro, algumas vezes se dirigiam às igrejas e seitas religiosas para a captação de votos. Bolsonaro apoiado pelas igrejas evangélicas e Lula também à igreja católica que fizeram entrar no confronto eleitoral.

Os apoiantes de Bolsonaro após o apuramento dos votos reagiram mal à derrota e fizeram a saudação nazi em frente a um quartel, onde pediam a intervenção militar e de mãos levantadas em posição de prece invocavam Deus numa que exorcização dos resultados.

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Se estivermos atentos ao que se passa no mundo de hoje e sobretudo em em alguns países podemos facilmente constatar através das notícias e informações que nos chegam que as religiões ao intrometerem-se na política ficam cúmplices da potencial instabilidade social criada e da perturbação do exercício democrático que deveria ser pacífico.

A ligação das igrejas evangélicas a Bolsonaro foi várias vezes referida na imprensa brasileira durante a campanha eleitoral, mas a igreja católica, mais discreta, por meias palavras terá dado o seu apoio ao lado oposto. Assim, é possível que a campanha dentro das igrejas ou nas redes sociais direcionada aos fiéis evangélicos tenha tido um papel relevante nos resultados.   

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De acordo com pesquisas de opinião a massa dos apoiantes de Bolsonaro terá sido composta por membros das igrejas e fiéis simpatizantes do mundo evangélico, como fonte de “apoio inabalável”. Note-se que segundo o último censo demográfico brasileiro de 2010, (último conhecido porque o prazo para a recolha de informações para o Censo 2022 foi prorrogado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística até ao início de dezembro), 64,63% diziam ser Católicos Apostólicos Romanos, Evangélicas 22,16% e Evangélicos de Origem Pentecostal 13,30% estas duas últimas obtinham um total de 35,46%.  

 Os cristãos das igrejas evangélica estão do lado oposto ao que seria previsto oporem-se que era o da violência, da morte e das armas. Com os olhos postos na política abandonaram o lema de “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, deixando-o para o passado.

Pastores e “influencers” nas redes sociais escreveram barbaridades como a de que Jesus andaria armado se precisasse, o que contraria o Evangelho segundo São João, (18:10,11): “Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. Jesus, porém, ordenou a Pedro: Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu? ".

Parece começar a emergir a tentativa de associação entre religião, armas e política. Não é por acaso que ocorrem fenómenos político-religiosos de nacionalismo cristão que nasce como ideologia duma extrema-direita global, que se descola como movimento organizado do fascismo tradicional.

Um século depois, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, o partido de extrema-direita, Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, o mais votado em Itália que tem as suas raízes fincadas no fascismo também recuperou o lema que popularizou Mussolini "Deus, Pátria, Família". Parece que tudo se está a encaminhar para uma tempestade complexa que poderá ser difícil de parar.

 

A não mudança do PCP no editorial de Manuel Carvalho

07.11.22 | Manuel_AR

Manuel Carvalho

Paulo Raimundo, a continuação de uma era

Quem acreditou que o PCP aproveitaria o fim de ciclo para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um apparatchik da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.

Jerónimo de Sousa sai do PCP e da sua bancada e deixa como rasto uma onda de complacência simpática que se explica por duas razões: porque ele é um homem genuíno e coerente que, como o próprio disse, procurou “sempre fazer o melhor que sabia (...) nos valores éticos da honestidade, franqueza, fraternidade”; e porque o PCP se tornou com o curso da História uma fera envelhecida e amansada, incapaz de ameaçar direitos fundamentais da democracia liberal, papel que caiu nas mãos da extrema-direita.

Paulo Raimundo vai substituí-lo e promete continuar a trilhar as mesmas vias que levaram o PCP à quase irrelevância – o partido que em 1976 elegeu 40 deputados e teve força para pôr em causa a criação de uma democracia liberal está hoje reduzido a seis lugares no Parlamento. Quem acreditou que aproveitaria o fim de ciclo de Jerónimo de Sousa para se actualizar ou para se reinventar enganou-se. Raimundo é mais um “apparatchik do velho mundo da luta de classes do que um protagonista de uma ideia para o mundo digital.

Até na tentativa de vender aos eleitores o perfil de um operário se percebe esse esforço de conservar a mitologia – a classe operária já não usa o boné com fuligem e Paulo Raimundo é um produto do circuito fechado da Soeiro Pereira Gomes. O PCP vive há anos nessa terrível angústia de saber que, se mudar, arrisca perder o seu pequeno lugar no mundo e, se não mudar, está condenado a adiar a decadência.

Para a continuidade, Paulo Raimundo parece bem. Basta ouvir o seu discurso no 101.º aniversário do partido para se perceber que a “luta”, os “inimigos de classe”, a “exploração” como “instrumento do capitalismo”, ou, numa citação reveladora, que a “teoria do passado continua a explicar a luta do presente” para perceber ao que vem. É essa “teoria” que impede o PCP de ver a Europa como um projecto de paz, é isso que o impele a proteger tiranias como a da Coreia do Norte ou da Venezuela, é isso que associa a “luta pela paz” ao apoio discreto à Rússia na agressão â Ucrânia.

Hoje, o PCP não tem força para impor uma ditadura do proletariado, nem para matar a liberdade de iniciativa. O “espectro” que Marx profetizou tornou-se uma extravagância, como a moda “soviet chic”. Paulo Raimundo dirá coisas importantes, manterá os seus trunfos nos sindicatos ou no Estado e o PCP continuará a dar voz a uma parte importante da sociedade portuguesa. Não deixará de ser o reflexo de um passado. Uma força do folclore que não faz mal a ninguém.

Bancos e a infoexclusão bancária

03.11.22 | Manuel_AR

 

Bancos-Deco.png

Sendo este um blogue que escreve a propósito de tudo vai intervala-se a política com um assunto que parece ser de interesse geral, pelo menos para os que têm menos literacia tecnológica e são mais desprotegidos no seu acesso.

Assim, o tema relaciona-se com o acesso balcões e agências bancárias que, cada vez mais, rareiam dificultando o acesso a muitos cidadãos que têm que se dirigir a balcões presenciais.

A Deco Proteste no seu suplemento Dinheiro & Direitos de novembro/dezembro de 2022 publicou um artigo sobre o assunto e cujo editorial parece ser oportuno e de importância para o publico. Daí o fazer-se a sua inclusão. 

DISCURSO DIRETO 

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Travar a exclusão bancária

In Dinheiro & Direitos, Deco Proteste 

Filipa Rendo, jornalista e coordenadora editorial

Novembro/dezembro 2022

Consultar o saldo da conta, transferir dinheiro ou pagar compras através de uma referência Multibanco não levam a muitos portugueses mais do que uns parcos minutos no conforto do sofá. A conveniência do homebanking, assim como os seus custos mais reduzidos, juntaram o útil ao agradável. É este o meu caso. Será também o de muitos leitores. Na pior das hipóteses, para boa parte de nós, a “chatice” resume-se a calçar os sapatos e a percorrer um quarteirão ou dois para chegar à caixa automática mais próxima. Mas não é a realidade de quem, por razões de iliteracia tecnológica, área de residência ou limitações financeiras, não faz uso dos meios digitais. A esses cidadãos – muitos deles idosos, imigrantes que não falam a língua ou indivíduos com menos posses – resta o atendimento presencial. Quando existir, se existir. O fecho de balcões, fruto das políticas de contenção de custos dos bancos, bem como a transição digital, apressada pela pandemia, exacerbaram a exclusão bancária. Não só em Portugal, na Europa também. Vários países estão, por isso, a tomar medidas para a mitigar. É o caso da vizinha Espanha, onde, por intervenção estatal, o fecho das sucursais não pode necessariamente levar à remoção das caixas automáticas, ou onde há horários mínimos de atendimento nos balcões, por exemplo. Por cá, num país tão pequeno, não pode ser razoável que haja quem faça dezenas de quilómetros para ir à agência mais próxima e seja ainda penalizado com a cobrança de comissões caríssimas. Precisamente quem menos deve ser. Pior: quem menos pode.

O artigo referido nesta edição pode ser consultado no artigo da D&D/Exclusão Bancária “140 Km para ir ao banco”.