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Imagem alheia ao jornal Público e da responsabilidade do autor do texto 

Sem vida há um mês, para contentamento de alguns, "apropositodetudo", esteve "calado", devido à languidez causada pelo calor, pelas férias e, ao mesmo tempo, para refrescar ideias, mas estará de volta. Até lá aqui vai um artigo sobre o Chega. Eu, cá por mim, evitaria falar dele, porque quanto mais se fala mais o balão populista vai enchendo. Mas até pode ser que um dia rebente. 

A normalização do Chega

Tinham razão os que defendiam um cordão sanitário às suas propostas ou iniciativas. Sem amparos no PSD, o Chega fica confinado ao radicalismo inconsequente.

 

Em Fevereiro, o secretário-geral do Chega, Tiago Sousa Dias, demitiu-se por “não se enquadrar no futuro do partido. Em Março, os vereadores do Chega na Moita demitem-se por não encontrarem “espaço” de discussão, seguindo os passos da sua congénere de Moura. Em Abril, o assessor e pai da deputada Rita Matias, Mário Matias, abandona o partido. Em Maio, André Ventura demite o seu chefe de gabinete e cúmplice na fundação do Chega por “questões de política interna”. Este mês, chegou a vez de uma das figuras mais influentes do partido, Gabriel Mithá Ribeiro, se demitir da vice-presidência em choque com André Ventura.

Isoladamente, esta constante instabilidade interna vale apenas como prova de uma imaturidade típica de uma associação de estudantes ou de uma inconsistência programática digna de uma agremiação de rebeldes com causas vagas. Mas acrescente-se à irresponsabilidade que a vaga de saídas sugere o resultado político da acção do Chega: o partido de Ventura votou 56 vezes ao lado do PS no Orçamento, esfalfou-se em comissões de inquérito condenadas ao fracasso, em apelos à união da direita que ninguém ouve ou na denúncia de minorias que deixaram de surpreender e indignar as redes sociais. Pode-se então constatar que o Chega deixou de ser a hiena da política portuguesa e passou a ser um bicho doméstico ruidoso mas inofensivo. 

O Chega incomodou, incomoda e vai continuar a incomodar com as suas diatribes, o seu racismo larvar, a sua xenofobia e a sua argumentação populista – mas pouco mais. A terceira força do Parlamento não tem o lastro ideológico da direita falangista do Vox, ou a saudade do fascismo que a extrema-direita de Itália reclama. O Chega corporiza o desconforto de parte dos portugueses mais desprotegidos ou afastados da política, agrega os ressentidos ou desconfiados da cultura woke e é mais um megafone do que um partido. Tornou-se previsível e repetitivo. As querelas internas são uma expressão do seu fracasso.

Tinham razão os que defendiam um cordão sanitário às suas propostas ou iniciativas. Sem amparos no PSD, o Chega fica confinado ao radicalismo inconsequente. Com o tempo, a Iniciativa Liberal tratará de o substituir na frente de luta contra o Estado, deixando-o no redil do discurso contra as minorias que permitem ao presidente da Assembleia brilhar.

O Chega está a normalizar-se. Chegou, portanto, a hora de se encarar a sua existência com normalidade. Se a democracia não se degradar, se os abusos do poder não se multiplicarem, se a desigualdade se reduzir e o crescimento económico se acelerar, o Chega será o que começou já a parecer: um grupo de radicais entretido a repetir ideias gastas e a alimentar lutas intestinas.

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publicado às 17:22

Apesar de estar de férias a contemplar o mar não conseguiu desligar-me dos temas da política nem resistir a comentar os que apostam em estar contra o lado de uma razão sensata de ilibarem o invasor e condenarem o invadido apresentando razões que apenas a eles, os invadidos dizem respeito. Muitos deles, especialistas credenciados que, do alto da sua cátedra, tergiversam para o seu campo ideológico, borrifando-se para a isenção da ciência que professam.

Parece ser o caso de Boaventura Sousa Santos, emérito sociólogo, que, parece mostrar uma visão estreita no que a opiniões políticas se refere. Daí que, a sua obsessão pelo radicalismo ideológico de esquerda que é contra a democracia do ocidente e tudo quanto dele venha lhes turve a sensatez. De um lado a proximidade com o Bloco de Esquerda, partido alojamento de alguma intelectualidade da nossa praça e do outro o PCP que nem pode ouvir falar na União Europeia, nem nos EUA, nem na NATO e cuja orientação que, mesmo após o fim da URSS os bons ventos parecem ainda soprar-lhe daquele lado.

Daí que incorporo um artigo de Rita Seabra, quadro superior em funções públicas que achei ser uma crítica ao pensamento conservador de esquerda radical do professor Sousa Santos que se cola ao PCP nesta campanha pro-Putin. O PCP após a revolução de abril titulava de fascista e de reacionário quem não era por eles. Agora quem não é por eles é anticomunista, e acrescentam "primário". Por favor, tenham tento.

 Opinião de 

Rita Seabra-Publico  (1).png

Rita Seabra

In Público, 6 de agosto de 2022

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Uma “guerra fantasma”? “Merece a pena” repudiar

No seu último artigo, Mereceu a pena?, Boaventura de Sousa Santos aborda um conjunto de questões que vale mesmo a pena debatermos.

Boaventura de Sousa Santos tem opiniões que eu estimo, concordando ou discordando, dependendo das matérias, e que leio sempre com atenção. Pois no seu último artigo Mereceu a pena?, aborda um conjunto de questões que vale mesmo a pena debatermos.

Diz ele que “bastou uma guerra fantasma – travada na Europa, mas não protagonizada pela Europa e nem sequer no interesse dos europeus – para pôr tudo a perder” (a paz e o desenvolvimento). Inaceitável, esta frase. Porque a guerra não é fantasma, nem para as centenas de milhares de vítimas e as suas famílias, ucranianas e russas, nem para os milhões de deslocados que já totalizam mais de 30% da população do país. Sim, há vítimas dos dois lados, que as guerras ceifam a direito, mas a forma como a balança pende para a Ucrânia...

Esta guerra “fantasma” é inaceitável porque é a segunda em duas décadas, depois da assinatura do Memorando de Budapeste em 1994, em que três países, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos, garantiram à Ucrânia, então terceira potência nuclear mundial, que se abdicasse das suas armas nucleares não sofreria ataques militares ou qualquer tipo de coerção económica. E a quem cedeu a Ucrânia as suas armas nucleares? À Rússia. A mesma Rússia que assinou a garantia de não atacar e respeitar as fronteiras do país, para que a Ucrânia aceitasse desnuclearizar-se.

Boaventura Sousa Santos fala em “derrotados. Não se sabe ainda quem ganhará esta guerra (…) mas já se sabe quem mais perde com ela”. Não nos enganemos sobre isto: quem mais perde com a guerra são em primeiro lugar as vítimas, que perdem a vida, ou pedaços de corpo, ou os seus haveres e o seu quotidiano de normalidade. São os anónimos individuais de que ninguém se lembrará depois, recordados apenas pelas suas famílias.

Mas há também dois coletivos que perdem em toda a linha (e isso nem sequer é justo, porque um coletivo não devia pagar pela maldade de um homem). A Ucrânia, que vê o seu país arrasado; e a Rússia, que também já perdeu, qualquer que seja o resultado da guerra, pela falta de palavra, pela forma como fez tábua rasa dos seus compromissos de honra, assinados há menos de três décadas. Perdeu pela falta de honra com que faz a guerra, com crimes de guerra documentados diariamente. Perdeu pelo discurso inaceitável das “realidades alternativas” com que nos brinda todos os dias, num desrespeito feroz pela humanidade e pelo resto do mundo.

À semelhança do que sucedeu após a II Guerra Mundial, um coletivo terá que carregar uma culpa coletiva pelas más ações de um homem e do conjunto de cobardes que o rodeiam e sancionam as atrocidades que ele congemina.

Quanto à Europa e ao resto do mundo, só perderam por intervir demasiado tarde. Mesmo que isso tenha impacto no bem-estar europeu e na nossa riqueza. Nos últimos 30 anos, a Rússia teve mais de uma dúzia de conflitos com países da União Soviética, dos quais porventura o mais recordado pelos contornos de bestialidade foi o da Chechénia. Sobre intervenção noutras partes do mundo, destaque para a mais recente, na Síria, da qual muito se escreveu sobre crimes de guerra e a carnificina em Alepo. Se tivéssemos tomado posição mais cedo, mais firme, talvez não estivéssemos hoje onde estamos.

Boaventura Sousa Santos fala em “normalização do nazismo [e da] forte presença de grupos neonazis na Ucrânia”. Caríssimo, não há desculpa para os grupos neonazis, ucranianos, portugueses ou outros, que vão surgindo um pouco por todo o lado e que devem ser tratados como ameaça pelos governos dos países onde se desenvolvem. Mas, neste conflito, o único comportamento nazi a que temos assistido é o de Putin e do seu entorno, que decidem que, à falta de uma vitória fácil, a guerra se faz exterminando civis e arrasando economia, cultura e tudo o que faz de um país uma nação.

Sobre o “governo das mulheres" escreve que "à frente da União Europeia está uma mulher com instintos belicistas, e as primeiras-ministras da Finlândia e da Suécia não parecem ficar-lhe atrás”. Parece uma afirmação sexista, talvez? Porque a escolha é interessante. Não me consta que Biden ou Boris Johnson, ou Emanuel Macron, ou... a lista é interminável, tenham mudado de sexo. Até Guterres, que, como todos se lembram, é o homem dos diálogos (e por isso está onde está), escolheu um lado. É instinto belicista lutar pelo que está correto e ficar do lado de quem tem razão, não obstante ser mais fraco? Ou tentar proteger o seu país, que já sofreu ameaças veladas várias vezes? O mundo civilizado está todo errado sobre quem tem razão numa invasão de fronteiras? E porque é que três mulheres corporizam o instinto belicista? Porque não foram suficientemente “femininas” na sua assertividade? Ou porque foram menos calculistas sobre eventuais perdas nas escolhas ou interpretaram melhor o sentimento de repúdio de quem as elegeu?

Porque é que três mulheres corporizam o instinto belicista? Porque não foram suficientemente 'femininas' na sua assertividade? Ou porque foram menos calculistas sobre eventuais perdas nas escolhas ou interpretaram melhor o sentimento de repúdio de quem as elegeu? Última palavra para o “anticomunismo fantasma": “O ódio anti-russo que se exacerbou na Europa por via da invasão da Ucrânia contém subliminarmente o ódio anticomunista”, refere Boaventura de Sousa Santos. Que raio de discurso de vitimização do PCP! Pois se até a China já representa um florescente “comunismo de mercado”... Caro, toda a gente sabe que a Rússia não é comunista há muito tempo e, muitos anos antes da queda do muro de Berlim, o comunismo russo teve laivos fortes de outras coisas, para dizer o mínimo. O que é inaceitável, do meu ponto de vista, é que o PCP assuma a defesa bacoca de uma posição indefensável como é a da Rússia, que vai contra muitas das suas bandeiras habituais, com destaque para a defesa dos mais fracos e dos oprimidos. Faz pensar sobre o que motiva o PCP, não faz? É pena que um partido com a história e a tradição do PCP fique refém de uma aliança com um país cujo governante ficará possivelmente para a história como o “carniceiro do século XXI”.

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publicado às 10:54


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