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Notícias, Opinião, Política, Sociedade e, a Propósito de Quase Tudo

Crítica e opinião sobre quase tudo. Como vejo a política, bem ou mal, ao correr da pena com origem em fontes fidedignas. Comunicação, lifestyle, sociedade, ambiente, trabalho, migrações e tanto mais.

A invasão da Ucrânia de Trump a Putin: contributos para uma teoria da conspiração

30.07.22 | Manuel_AR

Curioso é analisarmos que Joe Biden tomou posse como Presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021. Cerca de um ano e um mês depois de Trump ter saído da cena da presidência Putin invade a Ucrânia. Isto diz-nos alguma coisa.

 

Putin e Trump-capa.png

As circunstâncias criadas pelos atores da política internacional levam-nos por vezes a aventurar-nos em terrenos imprevisíveis da paisagem política em permanente mudança de velocidade e de factos. Ao tentarmos fazer uma interpretação política de factos políticos sem sermos especialistas, vemos que há acontecimentos comprovados que nos levam a estabelecer interpretações e paralelismos por vezes arrojados.

Em política, interpretações e paralelismos não são isentos de ideologias que determinam o contexto do exercício do poder e as abordagens socioeconómicas que fazem parte de ideias e de interesses que ajudam a compreender a criatividade estratégica das ações e, muitas vezes, as obsessões dos atores políticos.

Pode continuar a ler AQUI o artigoA invasão da Ucrânia de Trump a Putin-contributos para uma teoria da conspiração

 

 

Coitadinho do PCP que tem sido uma vítima

28.07.22 | Manuel_AR

PCP uma vítima (3).png

A ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação repreende a SIC, qual menina malcomportada, porque o menino PCP fez queixinha e disse que aquela menina o tratou mal. Fez o papel de donzela ofendida. O PCP quer tentar demonstrar que anda a ser perseguido, o que é no mínimo patético para não dizer caricato.

O PCP e os seus dirigentes entraram em delírio e vitimizam-se. Coitadinho do PCP fez queixinha porque a cobertura noticiosa do comício do 101.º aniversário no Campo Pequeno em março teve um “registo opinativo, que desvaloriza e ridiculariza a posição” do partido, o que contrariou o rigor informativo e a isenção a que a SIC está obrigada por lei, escreveu na altura a ERC.

O que a voz off ao dar notícia do acontecimento disse foi que “Aos 101 anos, o PCP já tem idade suficiente para dizer sempre a mesma coisa”. Eu, que desde o 25 de Abril e no tempo de líder Álvaro Cunhal tenho ouvido sempre o PCP reproduzir sempre a mesma cassete, com mais ou menos variantes consoante os momentos.

Para melhor compreender o que desvairou o PCP reproduzo o que o jornal Público publicou sobre o que foi afirmado no comício: “o PCP não apoia a guerra” e que “não tem nada a ver com o Governo russo e o seu Presidente”. Acrescenta a notícia citando a voz off que “… isso não significa que o partido apoie Zelensky, antes o critica, e afirmou ainda que Jerónimo de Sousa “repete a cartilha” quando fala da responsabilidade dos Estados Unidos na promoção da guerra. “E assim se chega aos 101 anos”, remata a voz off.

A ERC parece ter entrado no jogo do PCP pois que no comunicado diz que embora realce que não se exige que as notícias “sejam um relato neutro e acrítico dos factos noticiados” e que podem integrar uma “componente analítica e interpretativa”, considera que os comentários feitos na peça não são uma interpretação, mas uma opinião que “desvaloriza e ridiculariza a posição do PCP” assente numa “avaliação pessoal e preconcebida do jornalista”. Coitadinho do PCP!

Por fim o segundo o mesmo diário o PCP congratulou-se com a decisão da ERC e aproveitou para lamentar que este não seja um caso isolado, antes um “exemplo de práticas recorrentes de manipulação e deturpação deliberadas das posições” do partido “particularmente presentes” no grupo Impresa, nomeadamente nas coberturas eleitorais. Mas o partido também considera “incompreensível que não sejam retiradas quaisquer consequências” da decisão do regulador, que se limita a “instar” a SIC a cumprir a lei. Mais, uma vez coitadinho do PCP que é uma vítima de uma empresa de comunicação.

Quem costuma ouvir os porta-voz e os dirigentes do PCP pode confirmar que, quer nos comícios, quer ao falar aos órgãos de comunicação, são, de facto, uma espécie de cassetes repetitivas.

Sobre a questão da Ucrânia o PCP bem pode gritar e dizer em abstrato que é contra a guerra e pela paz, (era mais o que faltava dizer o contrário), e que não tem nada a ver com o Governo russo e com o seu Presidente, ao mesmo tempo que responsabiliza os EUA pela guerra.

O PCP nunca afirmou claramente que rejeita a invasão da Ucrânia pela Rússia. Limita-se a falar, tal como o Kremlin, na operação especial, agora já mudou um pouco este discurso. De facto, não houve formalmente uma declaração de guerra, mas houve, objetivamente, uma invasão para ocupação de território de outro país. Se alguém leu ou ouviu alguma declaração de rejeição clara e concreta da invasão da Ucrânia por parte da Rússia de Putin agradeço que me informe quando e onde! Pode ser falha minha.

O PCP bem pode dizer que nada tem a ver com o Governo russo nem com Putin, mas deve saber muito bem que o Partido Comunista da Federação Russa, o PCFR, apoia Putin na questão da Ucrânia.

Tudo isto sobre a queixinha do PCP à ERC é uma espécie de faz de conta para enganar incautos que também serviu para mobilizar e motivar as suas hostes internas que devem andar um pouco desmobilizadas e tristonhas. Voltou a salientar que se houver algum militante ou simpatizante do PCP que leia este “post” e que ache que o partido oficialmente condena a invasão da Ucrânia pelo Presidente da Rússia que o escreva claramente nos comentários.

Se partidos da extrema-direita lhe apanham o jeito, aliás parece que já o apanharam, como se viu na peixeirada que fizeram na Assembleia da República aquando da discussão do Estado da Nação e que ameaçaram fazer queixinha ao Presidente da República. Ou será que o PCP os quer imitar?

Por favor, senhores do PCP, não façam por perder a dignidade que sempre tiveram e que o povo português sempre respeitou, mesmo os que, racionalmente, não concordam com as suas posições políticas e ideológicas.

Mecanismos de influência da opinião pública nas sondagens

21.07.22 | Manuel_AR

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A formação e alteração de opiniões é feito através de mecanismos sociais e psicológicos por intermédio dos órgãos de comunicação social, também conhecidos por media, é raro provocarem mudanças de opinião. Há para alguns autores (Klapper) há um conjunto de mecanismos de formação de opinião que tende para a consolidação das opiniões preexistentes do público do que para a mudança de opinião. Estes mecanismos raramente atuam o que explica o facto de mudança de opiniões e de “conversão” a opiniões contrárias, isto é, mudanças de convicções, temporárias ou não, nos acontecimentos na área política. Estas mudanças de opinião parecem ser menores sobretudo nas passagens de uma opinião políticas ou partidária para outra sobre determinados fenómenos em que os media podem ter uma influência direta.

O recetor interpreta e adapta a mensagem ao seu contexto subjetivo, conhecimento e motivações, mas investigações têm demonstrado que a ação dos media na formação das opiniões de pessoas que não têm conhecimento ou motivações sobre um determinado assunto constataram que, sobretudo a televisão, afetava as ideias das pessoas sem conhecimentos prévios sobre um determinado assunto ou facto, mas não o das pessoas mais ou menos esclarecidas.

As possibilidades de condicionamento pelos media, se forem mobilizados por governos totalitários, como o de Vladimir Putin, por exemplo e, muitas vezes as mudanças que se vão alternando referem-se aos frustrados do sistema.

Condicionar sondagens para o lado que se pretende segue um processo muito simples que se relaciona com mudanças de opinião. Primeiramente começa-se pelos meios de comunicação social, televisão, imprensa e pelos seus colaboradores que fazem comentários e publicam opiniões. Para começar selecionam-se evidências negativas que possam ter impacto na opinião pública ainda que as mesmas sejam pontuais e suscetíveis de correção ou melhoria.

Responsabilizam-se pelas evidências ministérios ou pessoas e figuras do governo potencialmente envolvidas que possam ser menos gratas à oposição e aos media para serem sistematicamente criticados. Ao mesmo tempo convocam-se outros atores desejosos de protagonismo que comentem e façam oposição sobre o mesmo fazendo crer às audiências que não estão a fazer política e que são isentos.

Dá-se visibilidade a alguns protagonistas que passam desempenhar funções sindicais ou outras (ex. ordem dos médicos) e se mostram frente a manifestações anti ministros ou elementos do governo.

Diariamente repete-se a mesma matéria até à exaustão com algumas variantes de ocasião. Interrompendo-se sempre surjam outras notícias alarmantes que se sobreponham e as façam passar para segundo ou terceiro lugar no alinhamento noticioso até à recuperação do anterior tema logo que possível ou necessário. Por exemplo, durante os incêndios as referências à urgências de obstetrícia deixaram de estra em primeiro plano. Aparentemente parece que a matéria anterior deixou de ser importante. Logo após voltarão ao mesmo.

Fazem-se repetições exaustivas e desgastantes para os intervenientes e personalidades visadas. Uma ou duas semanas depois encomendam-se sondagens. Alguém tem dúvidas dos resultados? Convidam-se personalidades para entrevista nas televisões que possam ajudar a induzir as suas opiniões no público.

Está iniciado um processo de indução à opinião pública para os fins pretendidos: mostrar que o partido do governo está em queda e desgastado e que a oposição está em alta.

Estamos em democracia, não há dúvida, mas estes métodos são utilizados também em regimes totalitários. Numa democracia são aceites estes métodos desde que não haja interferência direta do poder na comunicação social. A formação da opinião pública de acordo com interesses vários atravessa todos os regimes.

Em síntese esta espécie de exposição seletiva serve para captar o público para critica e oposição podendo-se desta forma iniciar o desgaste e a oposição aos governos de modo a auxiliar também partidos da oposição a fazê-lo na luta partidária que possa levar num futuro mais ou menos próximo à ocupação do poder, através de eleições obviamente.

Que tipo de potência quer ser a Rússia?

14.07.22 | Manuel_AR

A gravidade dos incêndios tem feito passar para segundo plano a guerra na Ucrânia nos alinhamentos dos jornais televisivos. Ela no entanto continua presente no terreno e nos pensamentos. Recordo aqui um artigo que Teresa de Sousa escreveu em agosto de 2018, publicado no jornal Público, que se mantem atual face à vontade de Putin para reverter todo o processo que terminou com a Guerra Fria e com a União Soviética e até que ponto Donald Trump o tem ajudado.

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A Rússia é uma potência do século XX

 que ainda não se adaptou ao século XXI

Um artigo de Teresa de Sousa

In jornal Público, 19 de Agosto de 2018

O que quer e o que pode Vladimir Putin? A resposta, difícil, provoca algumas insónias aos europeus. Donald Trump não ajudou.

  1. À primeira vista, dir-se-ia que a vida tem corrido bem a Vladimir Putin. Conseguiu transformar a Rússia de potência decadente em potência “emergente”, com direito a figurar nos BRICS. Há dez anos, pelo menos, que desafia o Ocidente, infringido as leis internacionais, ignorando fronteiras e ocupando parte de dois países independentes: primeiro a Geórgia, depois a Ucrânia. Não esconde a sua política “revisionista” da ordem internacional para reconquistar as “zonas de influência” da União Soviética, perdidas depois da derrota na Guerra Fria. Encontrou recentemente no líder da única superpotência que resta uma “alma gémea”, cujo objectivo é entender-se com ele, apesar das crescentes resistências internas nos EUA. A cimeira de Helsínquia, há um mês, correu-lhe de feição, apresentando-se ao lado de um homólogo americano desejoso de agradar-lhe, ao ponto de o desresponsabilizar pela interferência, mais do que provada, nas presidenciais americanas de 2016. Fez-lhe o favor não mencionar a Ucrânia ou a Crimeia. O seu objectivo é um entendimento com o Presidente americano por cima da “cabeça” da Europa que tenta, constantemente, dividir, para recuperar a influência sobre a sua parte Leste, da qual ainda não desistiu. Conseguiu colocar um pé firme no Médio Oriente e no Mediterrâneo, graças à guerra na Síria, salvando o regime assassino de Damasco e preparando-se para ficar. Apresentou ao mundo, no Mundial de futebol, um país organizado, capaz de levar a cabo sem problemas (visíveis) nem incidentes um campeonato desta envergadura, aproveitando uma plateia de milhares de milhões de espectadores.

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Foto Thomas Peter/REUTERS

Mas a cerimónia final do Mundial, no pódio instalado no centro do relvado, onde Putin, Emmanuel Macron e Kolinda Grabar-Kitarovic recebiam os jogadores e distribuíam as medalhas, revelou uma anomalia. De um lado, um Putin rígido, apesar do sucesso; do outro, dois Presidentes eufóricos, alegres, descontraídos, capazes de tirar todo o partido da vitória da França e do honroso segundo lugar da Croácia. De repente, uma bátega de água ameaçou estragar a festa. Os guarda-costas de Putin abriram imediatamente um chapéu-de-chuva para protegê-lo, sem a mínima intenção de fazer o mesmo aos outros dois Presidentes, indiferentes à chuva e sem guarda-costas, mantendo a euforia. A imagem era forte: dois mundos muito distantes habitaram por um momento o grandioso estádio de Moscovo.

  1. A vida corre bem a Vladimir Putin? E com que consequências para o Ocidente, até agora incapaz de evitar duas invasões a países independentes na sua fronteira Leste? Um deles, aGeórgia, queria afastar-se da influência de Moscovo e aproximar-se da União Europeia e da NATO. Foi invadida em Agosto de 2008 pelas tropas russas, alegadamente para defender as minorias russas que viviam na Abkhazia e na Ossétia do Sul. Na altura, ninguém queria imaginar o cenário com que a Aliança se depararia no caso de a Geórgia ser membro da NATO. O cenário contrário também podia ser verdadeiro: se fosse, Putin teria invadido? Era este o dilema ocidental.

A Ucrânia já foi outro caso, embora com o mesmo objectivo: expandir a influência russa e testar a reacção europeia e americana. Em 2008, Putin ainda via a NATO como o verdadeiro inimigo. Em 2014, já tinha percebido que a União Europeia, apesar de desarmada, tinha um efeito de atracção praticamente irresistível. Quando, em Dezembro de 2013, o governo pró-russo de Kiev se preparava para assinar um Tratado de Associação com a União Europeia, Putin pura e simplesmente proibiu-o. Não tardaram as manifestações na Praça central de Kiev e, depois, nas outras praças e nas outras cidades do país, contra a interferência de Moscovo.

O Presidente ucraniano fugiu para Moscovo. O pretexto para a intervenção russa teve semelhanças com a Geórgia. A população de língua russa que vivia na parte Leste da Ucrânia, a velha região industrial, mais longe do sonho europeu, precisava de protecção. Seguiu-se a anexação da Crimeia, violando todos os acordos estabelecidos depois da Guerra Fria.

A base naval russa de Sebastopol, em águas quentes do Mar Negro, continuava a ser fundamental para a estratégia expansionista do Kremlin. O facto consumado desencadeou uma reacção que não estava nos cálculos do Presidente russo. Foi a única coisa que lhe correu mal. A Europa decretou sanções logo em Março de 2014, que foram sempre em crescendo.

A queda do voo MH17, com 300 passageiro a bordo, saído de Amesterdão, derrubado por um míssil de proveniência russa disparado da Ucrânia foi a gota de água que pôs fim a quaisquer hesitações europeias. Uma linha vermelha tinha sido ultrapassada. Berlim e Paris conseguiram reunir à sua volta a maioria dos parceiros europeus para organizar a reacção.

Seguiram-se as negociações dos acordos de Minsk que Putin, até hoje, não cumpriu. Os europeus mantiveram-se unidos. As sanções têm vindo a ser sistematicamente renovadas. Os “amigos” de Putin que, entretanto, ganharam terreno na Europa, não fizeram ondas. O Presidente russo não contava com a união da Europa, como não contava com uma coordenação sem falhas entre Berlim e Washington. Obama liderou a resposta. A Rússia ficou isolada internacionalmente. As sanções doem na economia. Mas têm, como sempre, um duplo efeito: alimentam o discurso nacionalista conta a agressão ocidental, ao qual os russos são ainda sensíveis. 

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Foto Rebeldes pró-russos do Leste da Ucrânia, em 2014 Marko Djurica/REUTERS

A eleição de Donald Trump acabou por ser uma inesperada prenda para Vladimir Putin. Mas realidade ainda não traduz o seu efeito. O Congresso americano decidiu há dias aplicar novas sanções no domínio da tecnologia militar, em resposta ao “caso Skripal”, do envenenamento de um ex-espião russo com o recurso a um agente químico considerado uma “arma”, em território britânico. Washington vendeu armas a Kiev. O Pentágono aumentou o financiamento da presença militar dos EUA nos Bálticos e na Polónia, em conjunto com as forças da NATO, para prevenir qualquer tentação de Moscovo.

  1. O Guardian publicava recentemente uma opinião da reputada especialista francesa da Rússia, Marie Mendras. Vale a pena olhar para o que escreveu. “A narrativa do Kremlin assenta na noção de uma Rússia ‘patriótica’ superando constantemente uma oposição minúscula, desprezada como uma “quinta coluna” criada e manipulada por forças externas”, diz a académica francesa. Para avisar: “É tentador para os observadores externos adoptar esta visão a preto e branco, na qual o líder é dominador e admirado, enquanto os que duvidam dele são uma excepção.”

Na realidade, continua Mendras, “há três Rússias”. A primeira é a de Putin, “construída sobre uma estrutura de poder oligárquica e uma massiva máquina de propaganda.” A televisão é totalmente controlada. A segunda “são os cidadãos normais, com as suas muitas facetas mas também os seus problemas comuns”. A terceira, finalmente, “são as elites profissionais e a classe média alta, que beneficiaram do boom económico dos anos 2000 e que agora têm muito a perder”.

É uma boa descrição. A esmagadora maioria dos 140 milhões de russos preocupa-se com a queda do nível de vida, a quebra de qualidade da saúde e da educação, a insegurança e a corrupção. Os protestos, diz Mendras, são frequentes. “A situação de Putin é, de facto, o problema clássico que muitos líderes autoritários enfrentam”, conclui a académica. “Precisa de exibir legitimidade popular para convencer o seu próprio círculo próximo, bem como rivais potenciais, de que é invencível e insubstituível”.

Outro dado interessante é a imigração crescente das classes profissionais, sobretudo para a Europa, ainda que sempre com vontade de regressar. Se as coisas se complicarem internamente, a tentação será de “aumentar a repressão” interna, o que apenas alimentar a resistência. “Em última análise, a demanda do poder mundial pode não ser suficiente para unificar uma sociedade fragmentada e as suas várias elites à volta de um homem forte.” É difícil de acreditar que Putin venha a optar pela outra vida possível: a liberalização do regime. 

Há outra versão da história recente da Rússia e da culpa ocidental. George Friedman, reputado geopolítico que já dirigiu a Stratfor, dava recentemente outra visão muito mais crítica da “incompreensão” dos “liberais ocidentais” da história e da geografia do grande país de Leste. É uma visão bastante em moda em alguns meios intelectuais europeus, que vêem em Putin um notável estratego e tendem a não considerar relevante a questão da democracia.

Friedman acusa o Ocidente de um erro de raiz: “O problema é que os reformadores liberais vêem a Rússia e outros países como nações desejosas de serem como eles. É uma forma de narcisismo ocidental que conduz a uma incompreensão do mundo”. A sua frase mais reveladora: “Se Putin tivesse sido atropelado por um carro em 2000, teria sido substituído por outro Putin, com outro nome”. Tudo teria sido igual.

Os limites da tese são óbvios. Basta um exemplo dos cem que vêem ao espírito. Se Winston Churchill tivesse sido atropelado em 1940 em Picadilly Circus, a História não teria sido igual. A União Europeia foi, ela própria, a vitória dos valores políticos contra a geografia e a história. O raciocínio ocidental era mais elaborado: a ideia de que todos os povos do mundo tinham direito a viver em democracia. A polémica dura até hoje, embora cada vez mais a desfavor dos que continuam a considerar os valores ocidentais como universais. A crescente “desuniversalização dos valores e das normas das democracias ocidentais” é uma realidade, escreve Bobo Lo, do Institut Français des Relations Internationales (IFRI), de Paris. Trump deu uma forte contribuição, deixando as potências ocidentais sem um instrumento que foi estruturante da sua política externa.

  1. Também para Putin o caminho não é fácil. Alguns dados económicos ajudam a relativizar a sua força. O PIB da Rússia é inferior ao italiano, embora já tenha sido igual ao holandês. O país continua a depender de uma só fonte de riqueza: o petróleo e o gás natural. A modernização da sua economia depende do investimento estrangeiro ocidental, posto em reserva pelas sanções e pelas incertezas internacionais. Há já alguns anos, Chris Patten, último governador de Hong-Kong e actual reitor de Oxford, numa entrevista ao PÚBLICO, respondia com outra pergunta à pergunta sobre a economia russa: “Tem em casa alguma coisa a dizer made in Russia?”.

O caminho da China é oposto. E o petróleo é, cada vez menos, uma “arma”. Putin teve a vida facilitada quando o crude esteve acima dos 100 dólares por barril. Tentou a arma energética, em 2006, quando fechou a torneira do gasoduto que abastece a Ucrânia, para mostrar à Europa (sobretudo à Alemanha) o que lhe poderia acontecer num Inverno rigoroso. Desde então, os europeus trataram de diversificar as suas fontes de abastecimento. Os especialistas lembram que, sobretudo nos países do Sul, foram construídos portos para receber o gás liquefeito importado da América. Hoje, a própria Alemanha está a construir um. Trump está muito interessado no negócio. 

Amy Myers Jaffe, do Council on Foreign Relations, refere que, em Helsínquia, “Putin lembrou ao Presidente americano que ‘nenhum dos dois está interessado na queda dos preços do petróleo.’” Os EUA são hoje praticamente auto-suficientes em matéria de energia. Querem aumentar as exportações. Os gigantes russos, como a Rosneft e a Lukoil ou a Gazprom vêem-se obrigados a investir em países de grande instabilidade política como o Irão, Venezuela, Líbia ou o Iraque, correndo um risco elevado, chama à atenção a mesma analista. A realidade e sempre mais complicado do que parece. 

O que pode afinal Vladimir Putin? “Em muitos aspectos, a Rússia é uma potência do século XX a lutar por adaptar-se às realidades do século XXI”, escreve Bobo Lo. Mantém um gigantesco arsenal nuclear. Não consegue intimidar os EUA, nem sequer a China. O seu futuro não está determinado.

Sobre a guerra da Ucrânia e o futuro da Europa: um editorial do Jornal Público

11.07.22 | Manuel_AR

A longa guerra pelo futuro está para começar

 Editorial de Manuel Carvalho

in jornal Público, 11de Julho de 2022

Jornal Público.pngLeia o jornal Público

Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades.

A Rússia está cada vez mais perto de conseguir os seus objectivos militares na Ucrânia. Já não está em causa a queda do Governo de Volodymyr Zelensky e a sua substituição por um executivo fantoche manipulado pelo Kremlin, como a primeira fase da “operação militar especial” indicava. Como revelou sem qualquer pudor o embaixador de Moscovo em Londres, a Rússia parece para já ficar contente com o controlo de um quinto da área actual da Ucrânia.

O que está em causa é o controlo do Donbass, a zona mais rica em matérias-primas, na produção industrial e na agricultura, e um corredor junto ao mar Negro que garante a continuidade territorial da Rússia até à Crimeia. Mas não é de afastar a possibilidade de Moscovo levar as suas conquistas até ao Dniepre, como aconteceu quando o país foi partilhado com a Áustria-Hungria, até ao final da I Guerra Mundial.

Se a Ucrânia for amputada de uma parte substancial dos seus territórios históricos, a Europa estará condenada a viver uma longa era de Guerra Fria. A ocupação jamais será aceite por Kiev, pela União Europeia e, em geral, pela NATO. As sanções vão perdurar, a militarização da fronteira Leste da Europa será acelerada e a Rússia tenderá a cortar os abastecimentos de energia ao Ocidente.

Como nos anos duros do pós-guerra, a ameaça russa tenderá a reforçar o projecto europeu. Mas, sejamos realistas, a eventualidade de o conflito actual se perpetuar num jogo de nervos não augura nada de bom. O que acontecer nos próximos meses, principalmente no Inverno, permitirá antecipar com maior nitidez os desafios com os quais a Europa terá de lidar.

Se os custos das sanções e o corte nos abastecimentos de gás à Europa vão agravar as debilidades económicas da Rússia e submeter a sua população a maiores privações, sabemos também que os europeus terão de sofrer um agravamento das suas condições de bem-estar. As restrições no consumo de gás vão gerar dificuldades numa população habituada a enfrentar as agruras do Inverno com a energia vinda da Rússia. E os impactes na economia de países como a Alemanha, onde o gás é essencial para a produção industrial, estão ainda por avaliar.

É neste confronto que residem todas as incertezas. Os autocratas russos vão certamente reprimir todos os sinais de descontentamento da sua população. As democracias europeias terão outras dificuldades. Uma crise económica longa e o agravamento das condições de vida são ameaças capazes de estimular soluções autoritárias e extremistas. A guerra pode ficar em suspenso na Ucrânia, mas as suas consequências imprevisíveis serão determinantes para o futuro próximo.

Um artigo de Pacheco Pereira e a simbiose no pensar entre gerações de jornalistas

01.07.22 | Manuel_AR

OPINIÃO

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Não sabe o que é o nó górdio? Se não sabe devia saber

José Pacheco Pereira

In Jornal Público, 2 de julho de 2020

turnover geracional político e jornalístico criou uma espécie de simbiose no pensar, no falar, no viver entre os jovens políticos e jornalistas.

Ele há dias, em bom rigor cada vez mais dias, em que o meu interesse pela política corrente portuguesa, se não é nulo, é quase nulo. Não é uma atitude aconselhável, porque o desinteresse pela coisa pública não é uma atitude cívica que se deva ter, mas não consigo, pura e simplesmente não consigo, passar o dia a ouvir e a ler sobre as trapalhadas entre António Costa e Pedro Nuno Santos, ou sobre a tragédia da menina Jessica, ou sobre as “contingências” na saúde, ou as ciclópicas tarefas do novo líder do PSD. No entanto, em todas estas histórias há aspectos relevantes, seja a qualidade da acção governativa, seja o retrato da miséria física e moral do mundo da pobreza e a sua implícita violência, seja o conflito larvar entre corporações poderosas, interesses privados e, de novo, a incompetência da governação, ou sobre o dilema entre uma oposição dos decibéis ou uma oposição reformista num país demasiado pequeno e atrasado para poder ultrapassar os interesses instalados.

De novo, insisto, tudo isto é relevante e não merece indiferença, mas… a pasta informativa que nos é servida todos os dias transforma-o numa espécie de puré de batata, ou melhor num puré de maçã adornado por frutos vermelhos e uma pétala ou uma pequena flor por cima, como um pastiche da pseudo-comida francesa que por aí se come. E quando não é só isso, no meio do puré está um fio de veneno, com a crescente politização escondida da informação, que torna mais saudável ler o Abril, Abril, um site informativo do PCP que não engana ninguém, do que a mais sofisticada e profissional manipulação da Rádio Observador pelas manhãs. Isto para quem não seja seguidor de Mitridates do Ponto, como eu sou há muito tempo, e corra o risco de se envenenar mesmo a sério.

A culpa é dos jornalistas? Já foi mais do que o que é, porque, entretanto, o turnover geracional político e jornalístico criou uma espécie de simbiose no pensar, no falar, no viver entre os jovens políticos e jornalistas - jovem aqui segue o critério do Konsomol - que cada vez são mais parecidos na visão do mundo, no vocabulário, no modo de viver entre si, na frequência de lugares, de restaurantes, de leituras, de “sítios”, do que vêem na televisão e ouvem na rádio, que se entendem como quem respira. É uma coisa que se tem vindo a desenvolver nos últimos anos, uma comunidade de vida e cultura, uma redução da política a critérios mediáticos, uma espécie de contínuo entre a má política e o mau jornalismo feito de uma atenção quase obsessiva às chamadas “redes sociais”, de uma redução da complexidade a favor de um simplismo redutor, de uma pobreza vocabular de que resulta numa incapacidade expressiva e, por isso mesmo, ou uma brutalidade argumentativa ou uma sucessão de lugares comuns, muito pouco estudo e uma dose exagerada de comentários e debates televisivos.

Todos os rodriguinhos dos nossos tempos são absorvidos, quer como aspirações, quer como tabus, com um medo pânico e um não-pensar em relação às matérias proibidas, seja o racismo, seja a homofobia, seja a condição feminina, seja, noutra área de “negócios”, a interiorização da economia da troika, a começar pelo PS. A indiferença face aos estragos feitos à língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico, que só subsiste pela inércia cultural da ignorância, é mais difícil de mudar do que pôr-nos a todos a dizer “todes” para sermos politicamente correctos.

Viver vidas a sério, ou seja as que têm dificuldades e escolhas, não garante experiência, mas as vidas de plástico aproximam-se muito do mundo imbecil das/dos influenciadores das revistas do jetset. Esperem para chegar a praia e vão ver como é. Ler muito também não garante nem qualidade nem razão, mas ler pouco garante muita ignorância e, para quem vive num mundo com uma forte componente explícita de símbolos e escondida de interesses, resulta num modus operandi de rotina e incompetência e de serviço aos glutões que por aí andam e comem estes políticos e jornalistas ao pequeno-almoço.

Dizer isto é elitismo e sobranceria? Talvez. Mas tenho por mim a memória de José Medeiros Ferreira e um seu momento numa entrevista em que falou do “nó górdio”, e a jornalista perguntou-lhe o que era. Medeiros Ferreira irritou-se e respondeu: “Se não sabe devia saber”.

O autor é colunista do PÚBLICO