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Com o PCP nada acontece por acaso, nada se perde e tudo se transforma

28.05.22 | Manuel_AR

Jerónimo e Putin.png

A estratégia que o PCP - Partido Comunista Português tem vindo a seguir após o desaire das eleições, e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia está a desenvolver-se em três frentes.

A primeira frente, a mais recente, é a manutenção da culpabilização da invasão da Ucrânia pelo ocidente tratando o invadido e o ocidente como sendo os agressores. A desculpabilização do agressor é também defendida pelos que, reivindicam um pensamento alternativo, para eles indiscutível, em contraponto ao que eles denominam de pensamento único, que é contra a invasão e que é o errado. Para essa corrente, a Europa, enfeudada aos EUA e à NATO, são os geradores de uma escalada militar belicista.

Pela análise dos argumentos de Vladimir Putin e dos seus seguidores, o ocidente é o meio privilegiado da expansão dos valores negativos da cultura ocidental para a Rússia. É, pois, em nome da autodeterminação dos povos, e não apenas do povo russo, que Vladimir Putin diz prosseguir a sua política externa de forma a romper com os constrangimentos da hegemonia ocidental (ver discursos e intervenções). Ao mesmo tempo insiste em querer preservar a influência de Moscovo no “estrangeiro próximo” que se perdeu com o colapso da URSS (a retórica do PCP está próxima). Todavia a invasão da Ucrânia é demonstrativa da sua contradição por não lhe reconhecer o seu direito à autodeterminação.

A segunda frente do PCP é ideológica e processa-se no âmbito da sua política interna. No partido nada acontece por acaso. O “interior” do partido está rodeado pela discrição onde está enraizada uma ideologia dogmática com certos postulados não sujeitos a crítica e em que é o comité central que faz o ditame do posicionamento ideológico-partidário do momento que obedece a uma liturgia própria. O PCP debate-se, por isso, com o dilema de simultaneamente ter de responder à necessidade de manutenção da sua identidade, cujos valores e princípios são submetidos à ideologia internacionalista do comunismo mais ortodoxo e a vontade do eleitorado que pretende recuperar.

As narrativas produzidas pelo PCP têm vindo a competir com outros discursos existentes no espaço político. Ao longo do tempo, no que se refere a evolução discursiva, desenvolveu algumas alterações na sua terminologia linguística reprimindo algumas expressões e a aceitação de outras pela reformulação de elementos linguísticos que deixaram de ser utilizados na sua antiga formulação com a entrada e a participação do partido no diálogo político que se encetou em Portugal após o estabelecimento do regime democrático, ficando numa espécie de letargia de que tem custado a sair, mas a que parece pretender regressar.

Todavia, ao longo dos anos, ao escutar e ao ler alguns dos discursos dos líderes do PCP tenho verificado que, desde o tempo da URSS e do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), até à atualidade, alguns dos pressupostos do PCP mantiveram-se. A NATO continua a ser uma organização agressiva, os EUA capitalistas, imperialistas e agressores e a União Europeia está ao seu mando. Deste modo, faça a Rússia  o que fizer, (leia-se antes Putin), para o PCP estará sempre certa, no pressuposto de que, todos os que considerem como inimigos os de quem sou inimigo, são meus amigos.

Apesar da confusa barracada causada por declarações por figuras do PCP, algumas delas contraditórias, sobre a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin que pode ver aqui e aqui, e em que o líder Jerónimo de Sousa tem afirmado que o PCP garante “não ter nada a ver com o governo russo” nem com Putin o certo é que, os seus militantes e adeptos ao colocarem-se do lado contrário de quem está contra Putin colocam-se, indiretamente, do lado do agressor.

No 101º aniversário do PCP Jerónimo de Sousa afirmou ser “uma calúnia” dizer que o partido apoia a invasão da Ucrânia. Apesar da tentativa de se demarcar do regime de Putin, não foi a ele quem mais atacou. Foi aos EUA que mais apontou o dedo. No mesmo comício, em março, a defesa indireta do agressor que é Vladimir Putin deu-se pelo ataque aos que ajudam o agredido, foi o Ocidente, sobretudo aos EUA, que mais responsabilizou. Narrativa que também tem passado pelas redes sociais pelos seus adeptos. Jerónimo de Sousa apontou “todo um caminho de ingerência, violência e confrontação” que diz ter começado no “golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, que instaurou um poder xenófobo e belicista”, e que provocou “a recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia e a intensificação da escalada belicista dos EUA, da NATO e da União Europeia.” Afinal o que é isto senão a lavagem da política de Putin em relação à Ucrânia? Basta agora acrescentarmos o termo “operação militar especial” que Jerónimo já utilizou para se referir à invasão da Ucrânia. A colagem torna-se ainda mais evidente quando não refere Putin como imperialista nem o coloca em causa pelo que deveria ser para o PCP a tradição leninista da autodeterminação dos povos, já que, Putin responsabiliza Lenine pela independência da Ucrânia por ser o seu "autor e criador".

Os argumentos vindos do Kremlin para a invasão da Ucrânia são apontados ao ocidente, sobretudo à U.E., EUA e NATO o que parece terem dado ao PCP um novo alento. Não é por acaso que os seus capangas ideológicos andam pelas redes sociais e blogues a apoiar indiretamente Putin criticando e colocando-se contra o ocidente. Para o PCP a U.E. e a NATO foram e são uns empecilhos ao avanço estratégico da Rússia para ocidente e um bloqueio à progressão dos desígnios de expansão do comunismo na esperança de que um dia a URSS ou algo parecido regressem.

O PCP, embora esteja contra as políticas capitalistas do Kremlin como diz, ao mesmo tempo está em consonância com a sua política externa. A ambição do Kremlin pelo controle da Europa, pelo menos dos países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, é a hegemonia económica e geopolítica que passa também pelo desmembramento da União Europeia e a NATO que tem sido (e sempre foi) uma pedra no sapato de Putin e que também fazem parte de uma das lutas do PCP.

A terceira frente que não é independente das duas anteriores resulta da pesada derrota nas últimas eleições legislativas que está a fazer com que o PCP regresse ao “show de rua” com reivindicações e greves, com palavras de ordem mais do desgastadas e com o costumeiro radicalismo arcaico e ortodoxo.

As palavras de ordem do PCP voltaram a ser as de um populismo de esquerda para captar as massas populares para a sua luta. Palavras de ordem, as mesmas de sempre, como “aumentar os salários”, “valorizar o trabalho”, “desenvolver o país” às quais acrescentam a inflação e o custo de vida que vieram, em boa-hora, ajudar a direita e a extrema-direita a fazer oposição, como já vimos no Parlamento o PSD a defender aumento na função pública quando anteriormente falava no peso do Estado na economia.

Aprovado o OE para 2022 que o PCP votou contra, juntamente com a direita e com a extrema-direita, pela mão dos sindicatos que controla irá tentar instalar uma instabilidade social artificial com greves, paralisações e manifestações. O seu objetivo é fazer uma oposição de ataque cerrado e de desacreditação da maioria absoluta do Governo do Partido Socialista.

As únicas propostas que o PCP apresenta para melhorar o país são o aumento das pensões, dos salários, a fixação de preços contra o grande capital. Fixação de preço que resultaria em faltas nos abastecimentos de produtos básicos essenciais para as populações, sobretudo as urbanas, em filas para a compra de produtos essenciais como se verificava na ex-URSS da chamada economia planificada do regime comunista.

A economia da URSS era tão planificada que, depois da sua dissolução as privatizações de grandes empresas foram parar à mãos de quadros, antes fiéis do PCUS-Partido Comunista da URSS e “gestores” dessas mesmas empresas do Estado, que são atualmente os grandes oligarcas da Federação Russa e cuja maioria ainda está do lado de Putin.

Ainda no sentido desta terceira frente e aproveitando a atual conjuntura internacional devido à invasão da Ucrânia seguida do pedido de adesão à U.E., o PCP luta com as armas desestabilizadoras que tem ao seu dispor para dar apoio, mal disfarçado, à política de Vladimir Putin. Esta posição é coerente com a nota do gabinete de imprensa do PCP de 22 de fevereiro deste ano.

Há ainda a salientar a despropositada conferência que o PCP organizou no ISCTE na passada terça-feira, em Lisboa, para analisar as “consequências do uso do euro para o país se este rumo se mantiver” e as “possibilidades para concretizar uma rutura”. Parece-me que Putin terá ficado agradecido, assim como o PCFR.

O PCP faz um balanço negativo da adesão ao euro e destes 20 anos em que a moeda esteve a circular baseia-se na perda de soberania sobre a sua política monetária, cambial e orçamental; nos períodos de recessão ou estagnação económica, tornou-se mais endividado e dependente, perdeu capacidade produtiva, e não convergiu com a média da União Europeia. “Temos o dever de perguntar: como serão os próximos 20 anos? Vamos resignar-nos a este cenário?” questiona o PCP. Os argumentos parecem ser idênticos aos da extrema-direita quando está contra a U.E.

Os comunistas realçaram na conferência, organizada pelos eurodeputados do PCP, que “A permanência no euro já é suficientemente longa para se tirar conclusões independentes das conjunturas e dos governos. Este é o tempo de recordar a propaganda e as promessas então feitas e de as conformar com os impactos reais da adesão. Mas é sobretudo o tempo de pensarmos o presente e o futuro. Este debate assume recusar inevitabilidades”.

A proposta e a estratégia do PCP ao adotar uma estratégia anacrónica para criticar a presença de Portugal no Euro vai no sentido de que Portugal fique novamente “orgulhosamente só”, tal como proferiu Salazar num discurso em 1965 quando o mundo se opunha à manutenção do colonialismo. É lamentável que após 57 anos, embora num contexto distinto, mas igualmente severo, o PCP esteja a querer encaminhar Portugal para o desastre.

A discussão veio facilitar a abertura do tema que está no alinhamento com Putin ao aperceber-se de uma Europa Unida pelo que há que estilhaçar esta perigosa união. Não nos admiremos se a extrema-direita vier também a alinhar com a ladainha comunista sobre a U.E. Temos visto nos últimos anos como a extrema-direita na Europa tem trazido para a discussão populista a verborreia contra a União Europeia.

Enquanto continua a haver países de leste, nomeadamente a Moldávia, que pretendem entrar para a U.E. e para a NATO/OTAN e para zona Euro, coisa que o presidente Vladimir Putin vê como um cerco à Rússia, e o Reino Unido acha que terá sido um erro a sua saída da U.E. o PCP continua a propor a saída de Portugal do Euro. Não é novidade, a sua coerência reside no facto de ter estado sempre contra a entrada de Portugal para a U.E. e para a zona Euro que, para aquele partido, é uma organização “defensora do grande capital”. Aliás, em 2016, o PCP defendia “derrotar a União Europeia, criar ‘outra Europa’ dos trabalhadores”. Qual? A da ex-URSS?

De facto, parece-me estranho que o PCP nas atuais circunstâncias esteja novamente a levantar a discussão e a colocar em causa o Euro e a U.E. Caso fosse desmantelada a U.E. esta ficaria dividida e a porta ficaria aberta ao imperialismo de Vladimir Putin. Neste aspeto o PCP é coerente porque sempre foi contra a U.E., mas, saído das “amarras” de compromissos de apoio parlamentar com o PS encontrou novamente o folego e a oportunidade para, ao arrepio da guerra da Ucrânia, se aproximar dos pontos de vista de Vladimir Putin cuja filosofia é contra a E.U. e contra o Euro por ver neles um empecilho apesar de a ter enfeudado ao fornecimento de gás e petróleo da Rússia.

Este debate sobre o Euro não surge por acaso e regressa com os mesmos estribilhos já bem conhecidos.

Convém também não esquecer que este espírito anti U.E. e anti NATO foi também a do anterior presidente dos EUA Donald Trump que esteve empenhado no seu enfraquecimento como realçou o Presidente francês Emmanuel Macron em 2019: “O que estamos a assistir é a morte cerebral da NATO", devido às decisões do presidente norte-americano sobre a Aliança Atlântica e também pelo comportamento do presidente turco”. A invasão russa da Ucrânia ocorreu num momento de enfraquecimento da NATO e não de um ostensivo e concreto alargamento até à fronteira russa.

O PCP sabe que a política externa de Vladimir Putin se pauta pelo confronto com os países ocidentais como se tem verificado há algum tempo. Os comunistas do PCP encontraram agora uma oportunidade de fazer eclodir uma discussão sobre o Euro porque a conjuntura da invasão da Ucrânia, a que também Jerónimo de Sousa chamou “operação militar especial”, e a que, claramente, nunca se opuseram, a não ser em falar em abstrato na paz que dizem pretender.

O presidente Vladimir Putin, para justificar os seus objetivos argumenta que se está a criar um “cerco estratégico”, o que é falso, e, de acordo com esta narrativa, traçou uma política externa que diz ser defensiva. Independentemente da avaliação que possamos fazer quanto a esta linha de argumentação, há uma verdade inequívoca: as ações de Moscovo ao longo dos últimos anos quer na Moldávia, na Geórgia, na Crimeia e agora na Ucrânia, as ações de Moscovo desfizeram dúvidas quanto à postura bélica assumida pelo presidente Putin.

 

As eleições diretas no Partido Social Democrata

27.05.22 | Manuel_AR

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Espantoso que o PSD dos cortes na função pública e nos salários e que sempre alertou para o peso do Estado na economia e nos salários da função pública venha agora, demagogicamente, apresentar propostas de alteração ao Orçamento do Estado para atualizar os salários da função pública em 4%, em linha com a taxa de inflação. Sobrecarregar o orçamento com despesa poderá ser um dos objetivos do PSD condicionando o partido do Governo a gasta mais para cair em déficit excessivo. Não se discute a justiça da proposta, o PCP e o BE também já o fizeram, mas para o PSD parece mais ser uma estratégia demagógica para atrair os trabalhadores da função pública e para causar o desastre nas contas públicas.

O PSD está em campanha para a escolha do novo líder e no próximo dia 28 de maio, parece coincidência, é também o dia do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 que posteriormente veio a dar lugar à instauração do Estado Novo e é nesta data que vão ser realizadas as eleições diretas no PSD para o novo líder. O que esta última data tem a ver com as eleições no PSD. Provavelmente nada, apenas uma coincidência.

Destas eleições nada de novo se esperará visto que os dois candidatos que se apresentam estiveram ao lado de Passos Coelho. Luís Montenegro como deputado e líder parlamentar do PSD na Assembleia da República entre 2011 e 2017; Jorge Moreira da Silva assumiu em 2013 a pasta do Ambiente no executivo de coligação PSD/CDS chefiado por Passos Coelho e é reconduzido no governo saído das legislativas de 2015, cujo programa acabou chumbado no Parlamento e caiu. Em 2016 é nomeado diretor-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE, o que o levou a abandonar a vice-presidência do PSD.

Dos dois, como se costuma dizer, venha o diabo e escolha porque ambos foram cozinhados no caldeirão dos governos neoliberais “troiquianos” de Passos Coelho, e são ambos “passistas” o que quer também dizer que são do passado.

Escrevia Pacheco Pereira no Público acerca dos candidatos que “avaliações da sua preparação para a competição com o PS, em que um aparece mais confrontacional e o outro menos agressivo, mas mais sólido.” E acrescentava que “há o problema das biografias que impedem os dois candidatos de irem mais longe: ambos são descritos como “passistas” e não são capazes de analisar o papel do Governo Passos-Portas-troika na crise estrutural do PSD. Isso significaria porem-se em causa e terem que defrontar o sebastianismo de Passos, que permanece como uma sombra sobre quem queira discutir o que se passou. Na verdade, sejamos justos, há uma parte relevante na crise que é herança de Passos, mas a decadência do partido vai muito mais atrás, até Cavaco Silva.”.

Montenegro é saudosista do passado. Na sua campanha para a liderança não se situa no projeto que tem para o partido e para Portugal. Umas vezes ataca o Governo e, para tal, recupera a palavra “austeridade” dos tempos de Passos Coelho para a utilizar no ataque ao PS que acusa também de ter um orçamento de austeridade. Outras vezes procura frases populistas, demagógicas e pomposas como “O meu passado chama-se Passos, o passado de Costa chama-se Sócrates”. Isto é, faz associações torpes, pelo que se vê bem o caráter político deste potencial líder ao PSD e também candidato a futuro primeiro-ministro se vier um dia a ganhar eleições. Implicitamente, Luís Montenegro, está a considerar que a maioria dos portuguese são estúpidos porque, por associação que faz com o seu objeto de pensamento, nas últimas eleições, votaram em força no passado Sócrates. Quem poderá regressar ao passado são os militantes saudosistas da austeridade se votarem em Montenegro. Passos Coelho é o seu passado, foi quem acusava os portugueses de gastadores e de viverem acima das suas possibilidades, esses eram os maus portugueses, os outros, os que, de facto, gastavam luxuosamente e passaram incólumes eram os bons portugueses.

Foi nesse passado com que, como diz Montenegro se identifica, se formou o embrião do partido CHEGA e do qual ainda não disse claramente que se afastava.

Apesar de incluir no documento das suas propostas medidas sociais para atrair o público PSD ideologicamente mais social-democrata é na senda do passado que, com alguns ajustes, Montenegro seguirá se for eleito e chegar a ser primeiro-ministro.

Nas propostas de ambos os candidatos encontram-se armadilhas, sobretudo na de Luís Montenegro que são em alguns pontos uma espécie de copy paste de programas de partidos de esquerda como o do PS. Fizeram-se algumas alterações, mudou-se a linguagem acrescentando qualquer coisa para satisfazer a ala mais à direita… Sobre gestão da segurança social e das pensões, sobre o SNS nada fica esclarecido, deixam portas abertas para o que der e vier.

Deles pouco ou nada podemos esperar senão o renascimento de políticas da panela onde foram cozinhados. Todavia, se o primeiro vive dois mundos um deles à superfície e outro um micromundo imerso e inacessível. Desde que Luís Montenegro anunciou a sua candidatura à liderança do PSD, emergiu a ligação do ex-líder parlamentar social-democrata à conhecida maçonaria. Quando da sua oposição a Rui Rio para o derrubar Montenegro negou, mas ficou provado que pertenceu a uma loja (Mozart) que foi considerada muito ativa e poderosa, mas que foi desativada.

O segundo, Moreira da Silva, tanto quanto se saiba tem apenas um mundo à superfície é de competência técnica reconhecida, mas de pouca política e nunca se imiscuiu nas guerras internas do PSD ao contrário do seu adversário que pretendeu apear Rui Rio da liderança.

Há uma pedra no sapato do PSD criada por Rui Rio que assobiou para o lado aquando do acordo com o partido Chega nos Açores. Luís Montenegro parece não abandonar a ideia conforme o semanário Expresso no dia 5 de maio o candidato à liderança do PSD Luís Montenegro avisava que não seria “cúmplice da perpetuação do PS no poder” desculpa para não rejeitar diálogo com o partido Chega limitando-se a dizer que neste momento qualquer cenário de diálogo é "imaginário e extemporâneo”. Isto é, como quem diz, tudo é possível para chegar ao poder.

Quanto a Moreira da Silva no início de maio afirmou perentoriamente que não dá para o "peditório" do Chega para um movimento de convergência à direita, reafirmando que com o partido de André Ventura "nunca, jamais, em tempo algum". Apesar disso mantém a situação do Açores que acha ser um caso em que o PSD não tem tido problemas.

Uma das linhas gerais da sua estratégicas da candidatura é refundar o partido, seja lá o que isso queira dizer, e cortar com qualquer ligação ao Chega. Contudo o jornal Público desvenda esse conceito de refundação nas palavras de Moreira da Silva: a ideia de “refundar o PSD” através da atualização das linhas programáticas e da modernização do partido, o ex-diretor para a Cooperação e Desenvolvimento da OCDE deixa a receita para a vitória. “Uma sequência vitoriosa em todos as eleições previstas para os próximos 4 anos pressupõe verdade e inconformismo no diagnóstico dos problemas; inovação e reformismo nas soluções políticas apresentadas; e integridade e credibilidade dos nossos protagonistas. Mas pressupõe também uma dimensão prévia – o espírito de unidade no partido, para o qual todos temos a obrigação de contribuir”, lê-se no texto do Público.

 Quanto a Luís Montenegro em 24 de abril escrevia Ana Sá Lopes que “Ao fugir desta maneira à pergunta claríssima, Montenegro confirma a dúvida. É mesmo ambíguo em relação ao Chega.” Sobre este assunto aconselho a leitura do artigo onde são citadas claramente as respostas de Luís Montenegro às perguntas sobre o Chega AQUI. Parece que a ambiguidade do PSD em relação ao Chega pode vir a ser politicamente vantajoso para o PS. Luís Montenegro diz querer transformar o PSD na "casa dos não socialistas" e captar votos à direita, ou seja, também ao Chega.

Ambos os candidatos parece que ainda não se convenceram de que nada será como dantes, a não ser que os eleitores que se “divorciaram” do PSD, e também do CDS, e optaram por casar com o Chega e com a Iniciativa Liberal podem não voltar atrás a não ser que a vida não lhes tenha corrido como pensaram quando votaram neles. Há muitas coisas em relação às quais não se tem a certeza porque nós pressupomos nos outros uma potencial disposição para se deixarem convencer que é semelhante à que “eles” pressupõem de nós.

O antagonismo político-partidário, óbvio e previsível, na política faz parte do combate pelo poder, mas nesta competição o que está em causa não é a discussão dos assuntos objetivos com interesse para o país, mas encenações de diferenças para se manter ou conquistar o poder.  

No caso da competição para a liderança do PSD temos o que já se sabe sobre as intenções manifestadas pelos dois candidatos, e o que não se sabe, o que só será revelado quando em exercício. Todavia, com Luís Montenegro teremos as ditas reformas neoliberais que recuperados do tempo de Passos Coelho. Quanto a Moreira da Silva criam-se expectativas se serem mais próximas da social-democracia.

Se fosse votante nesta área partidária e ideológica neste momento decisivo para o PSD, não teria dúvidas no candidato que escolheria para líder do partido e potencial primeiro-ministro: Jorge Moreira da Silva.

Afinal as cassetes ainda existem

13.05.22 | Manuel_AR

“A conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa”. (Palavras do líder do Partido Comunista da Federação Russa, numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscovo a 3 de abril de 2022)

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O grande perigo para a Europa e para o Mundo não vem da NATO, nem dos EUA, mas do presidente Vladimir Putin. A pergunta que se coloca é a de saber se a Suécia e a Finlândia teriam pedido com brevidade a entrada na NATO caso Putin não tivesse invadido a Ucrânia. Putin passou a ser um fator de instabilidade também para a União Europeia que, segundo ele, teria a pretensão de desagregar.

Agora um ditador candidato a “imperador” quer pressionar a Finlândia, país autónomo, soberano e independente, a não aderir à NATO e, por isso, ameaça tudo quanto mexe. Desde quando um país obriga outro a seguir os seus ditames com a justificação de se sentir ameaçado. Por aqui vê-se quem ameaça o Mundo e qual a sua estratégia para o enfraquecimento dos mecanismos de proteção e defesa dos países que os rodeiam.

Putin nunca viu com bons olhos que Helsínquia aderisse em 1995 e encontrasse na União Europeia o seu espaço estratégico preferencial. A questão da adesão à NATO nunca se tinha colocado apesar de ser essa a preferência de grande maioria dos finlandeses.

Vamos ver se a Turquia deixará, ou melhor, não se oporá!

Putin, em vez de fazer uma aproximação à Europa e ao ocidente optou por se dispersar com divagações pouco credíveis conforme é citado no Kremlin: "O nosso dever comum é impedir o renascimento do nazismo, (o sublinhado é meu), que trouxe tanto sofrimento aos povos de vários países. É necessário preservar e transmitir (...) a verdade sobre os acontecimentos da guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade e irmandade". Palavras vazias sem sentido e que contrariam as suas ações pois atua pior do aqueles que diz estar a combater.

No dia 8 de maio Vladimir Putin, por ocasião do 77º aniversário da “Vitória na Grande Guerra Patriótica”, enviou mensagens de congratulações para vários países onde declarava, repetindo qual cassete gravada, que "Hoje, o dever comum é evitar o renascimento do nazismo, que trouxe tanto sofrimento para as pessoas de diferentes países. É preciso preservar e passar aos descendentes a verdade sobre os acontecimentos dos anos de guerra, valores espirituais comuns e tradições de amizade fraterna".

Que valores são estes a que se refere vindos de quem agride, ameaça, causa sofrimento com falsas justificações através de uma retórica mentirosa como a de “impedir o renascimento do nazismo” quando os seus atos, práticas e discursos contradizem o que ele diz querer evitar?

A utilização de forma genérica, mas específica, das palavras nazismo e desnazificação aplicados ao caso da Ucrânia não surgem por acaso. Foram escolhidas porque ele sabe que a nível mundial, estas palavras estão ainda bem presentes nas memórias coletivas dos povos e têm uma carga muito negativa. Daí a insistência no apelo demagógico contra o renascimento do nazismo passando a mensagem de que ele é o libertador das nações oprimidas pelo nazismo.

Falar de desnazificação e acusar a NATO de ser a responsável pela agressão à Ucrânia é, pelo menos, risível. São estratégias de desvirtuar informação apontando a outros, erros, falhas, atitudes e intenções que não servem senão para ocultar as do agente emitente. Como em qualquer totalitarismo, na Rússia de Putin a desinformação, a mentira, a mentira por omissão e a deturpação de factos são a regras aplicadas ao povo.

Porém, podemos questionar em que diferem as atuações de Putin daqueles que ele diz querer libertar os povos.  Nazismo é um tipo de fascismo totalitário com forte natureza nacionalista, agravado por radicalismos racistas, étnicos e xenófobos. A Rússia do presidente Vladimir Putin é uma autocracia com uma forte componente totalitária que se estende à regulação de todos os aspetos da vida pública e privada da Rússia, conforme informações que vão chegando ao nosso conhecimento. A Rússia é governada, na prática, pelo poder de uma única pessoa política e de fação personalizado em Vladimir Putin cuja autoridade não tem limites. A Duma (câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia), não passa de um conjunto de deputados que são uma espécie de “Yes men”, até mesmo o Partido Comunista da Federação Russa, de que irei escrever mais adiante.

Como nos regimes totalitários e no nazismo Vladimir Putin tem implementado no seu país, repressão, perseguição a opositores, censura obstinada que proíbe publicação de informação que lhe seja desfavorável tornando-a inacessível às populações, etc.. Por outro lado, Putin tem apoiado financeiramente partidos xenófobos e racistas da extrema-direita na Europa. O que é isto afinal?

Lamentável é também haver em alguns países do ocidente partidos e pessoas que, dizendo-se democratas, apoiam ditaduras e um ditador que invade um país soberano. Neste alinhamento também se encontram os que dizem estar a favor do povo e da cultura russa, o que é indubitavelmente aceitável, mas são também esses os que defendem, tipo "copy paste", o pensamento presente nos argumentos discursivos de Vladimir Putin.

Tudo isto conduz-me, mais uma vez, aos argumentos do PCP em relação à invasão da Ucrânia. Em primeiro lugar, é preciso também que se entenda o pensamento do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa que “aplaude” a decisão de Putin sobre a “intervenção militar” na Ucrânia, basta ler os discursos de Gennady Zyuganov, líder daquele partido.

Recuemos então seis anos, 2016, e recordemos o que o líder do PCP disse no discurso de abertura do XX Congresso do PCP, em Almada, acerca da União Europeia e do Euro a quem não poupou críticas por serem, segundo ele, a “fonte dos maiores males dos portugueses”. Dizia então Jerónimo de Sousa, referindo-se a um discurso feiro no Parlamento Europeu sobre o Estado da União Europeia que, segundo ele, não se tratava de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia (UE). Nem "mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma". Disse que os comunistas não estão aqui para isso. Querem mesmo mudar o mundo e, quanto à UE, "articular ruturas que permitam construir uma outra Europa". Isso mesmo, mudar o mundo para que lado? O que pretenderia ele dizer na altura com a construção de uma nova Europa? Seria uma espécie de premonição do que se iria passar?

Mesmo com uma pequena margem de erro é o que, atualmente, o presidente Vladimir Putin e o seu partido Rússia Unida acolitado pelo Partido Comunista da Federação Russa, têm afirmado. Cada um que tire as ilações que entender.

Recentemente as palavras de Jerónimo de Sousa também não levantam dúvidas sobre o seu alinhamento com o seu congénere da Rússia, o PCFR,  e com Putin ao considerar que não houve uma invasão nem que há uma guerra na Ucrânia causada pela Rússia, mas sim “uma operação militar” embora acrescente que o PCP “condena”.

A subtileza passa a  evidência quando se refere a “operação militar” em vez de guerra (de facto, não houve formalmente uma declaração de guerra),  mas enfileira com a retórica de Putin apesar de, como disse, ser capitalista, única verdade.

Jerónimo de Sousa, no entanto, admite, contradizendo-se, que “Há uma guerra, isso é incontornável”, e esclarece que “é claro para o PCP que estamos perante uma Rússia capitalista” da qual “o PCP claramente se demarca”, “não tendo nada a ver” com Putin. Jerónimo de Sousa é muito hábil só que, por acaso, não deve ter lido os discursos de Putin e do secretário-geral do PCFR, ou, se os leu, fez-se de esquecido.

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Vamos lá ver então se eu entendo: “não houve uma invasão”; “houve uma operação militar”; “há uma guerra e isso é incontornável”.

Analisemos então qual a aproximação das narrativas do PCP com a intervenção do líder do PCFR - Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, em 3 de abril de 2022 numa reunião dos ativistas do partido realizada em Moscou sob o tema “Temos que resistir e vencer.”, onde o líder do Partido Comunista da Federação Russa recordou a solidariedade das forças patrióticas de esquerda do mundo. A ortodoxia no seu melhor.

Gennady Zyuganov tem a certeza de que o objetivo “é derrotar o nazismo e o fascismo, caso contrário, se espalhará por toda a Europa "e muitos jovens terão que usar sobretudos". Nazismos e fascismo são palavras coincidentes nos discursos de Putin e de Zyuganov. O chefe da fação comunista afirmou ainda na Duma do Estado da Federação Russa que "Se todos nós – a Duma, o Conselho da Federação e o Conselho de Segurança – apoiamos a operação especial, devemos explicar às pessoas o que estamos a perseguir, por que é que apoiamos ativamente os que defendem fielmente o mundo russo, a nossa língua, dignidade e Donbass, e a nossa amizade com a Ucrânia."

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Em 19 de abril já tinha afirmado algo sobre a “mentalização” pró militarista agressiva dos jovens russos ao dizer que "acreditava que nas escolas e nas universidades haveria muito trabalho para explicar a situação em que todos nós nos encontramos. Mas não vejo e não sinto isso nem nas atividades de ministros, professores, diretores de escolas ou figuras culturais", disse Gennady Zyuganov.

Zyuganov chega a lembrar as palavras do presidente Putin numa reunião com jornalistas estrangeiros em outubro de 2021 onde disse, (no contexto dos problemas socioeconómicos da humanidade que pioraram e que houve turbulências em escala global) que "O modelo existente de capitalismo na grande maioria dos países esgotou-se". Zyuganov acrescenta ainda que "Olhando para Biden, esta múmia ambulante, que ameaça todos, torna-se assustadora para a América". O líder do PCFR disse ter tirado uma conclusão ao observar que a Alemanha começou novamente a apoiar o nazismo, e a França está totalmente dançando ao som americano. O segredo foi revelado, é o ódio aos EUA. É assim que as coisas começam, agressões imaginárias, ódios, seja ao que for, como etnias, raças, nações, países que servem como bodes expiatórios para justificarem agressões e perseguições. É assim o nazismo!

Zyuganov afirmou ainda que “vamos ter de lidar com todos os desafios, porque, na sua maioria, os cidadãos do espaço pós-soviético já entenderam quem é o organizador da nova agressão. E toda a conversa dos políticos ocidentais sobre liberdade e democracia é pura conversa. "Estamos presentes no final do conto de fadas sobre o mercado, sobre o livre comércio, sobre a liberdade de expressão", continuou o líder comunista (os sublinhados são meus). Sobre política externa da Rússia Zyuganov observou ainda a importância da interação da Rússia com a China, Índia, Vietname, Irão, Paquistão e Turquia.

Terminou prometendo que “Faremos de tudo para trazer paz à Ucrânia fraternal. Faremos tudo para desenvolver a nossa união", e que "vem uma nova etapa no processo de integração. E tenho certeza de que o Partido Comunista e as forças patrióticas de esquerda estarão na vanguarda deste trabalho, preparando-se para o centenário da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas", concluiu o líder do Partido Comunista da Federação Russa. A mensagem de agressividade deste senhor líder de um partido que fala em paz, amizade e fraternidade está patente no seu discurso no “Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica”.

A razão por que inclui estas passagens do discurso de Zyuganov é por que, nas entre linhas, encontram-se pontos de vista aproximados aos de Putin que o PCP parece perfilhar fazendo-o através de narrativas travestidas que não evidenciam substância e cuja conversa é apenas o que está na superfície para convencerem e apelar a potenciais adeptos.

Mais recentemente numa intervenção num comício no dia 1º de Maio de 2022 o líder do PCFR, Gennady Zyuganov, afirmou que “agora na Ucrânia, a Rússia está a lutar principalmente por um mundo multipolar. “Estamos lutando pelo mundo russo, porque o mundo russo não está nos planos deles”.

A propaganda de Putin tem conseguido ter eficácia junto dos seus agentes e adeptos no ocidente e tem como grande aliado o Partido Comunista de Federação Russa. Comparando tantas opiniões, até da esquerda, que se indignam contra a incapacidade de alguns em condenar uma agressão imperialista assinada por um regime autocrático, verifica-se de facto quem está a fazer uma “tentativa de impor, à escala do povo, um pensamento único”, na Rússia e também aqui em Portugal.

Há pessoas que parecem ser crédulas por vontade própria que se deixam contaminar por invenções demasiado extraordinárias para que sejam autênticas veiculadas pelos canais de propaganda de Putin, tais como a da necessidade de desnazificar a Ucrânia, os laboratórios onde se preparam armas químicas na proximidade da Rússia, o genocídio dos que falam russo. O que está a acontecer é que, na minha opinião, a invasão da Ucrânia, serviu para mascarar as fraquezas internas da Rússia por ele causadas. Quem nos pode garantir que os que escrevem contra o ocidente apoiando as retóricas de Putin é que estão na posse da verdade e que todas as outras são mentiras?

Se querem paz deem-me a rendição uma opinião de Pacheco Pereira

08.05.22 | Manuel_AR

Ou se ganha, ou se perde, e eu não quero perder o que se perde

Nem posso ouvir falar de “paz”, quando esta palavra significa apenas “rendam-se”, dêem a Putin o que ele quer para pavonear no desfile da vitória.

Foto
Churchill nas ruas bombardeadas de Londres DR

Este artigo começou por ser outra coisa, uma preocupada, urgente, incomodada reacção ao caminho perigoso que nos EUA tem levado o Partido Republicano a tornar-se um partido conservador extremista, bebendo fundo em tudo o que há de mais reaccionário, desigual, racista, antidemocrático e iliberal, subversivo da legalidade e insurreccional. A sua “modernização” é apenas a aceitação de candidatos do QAnon e outros grupos separatistas e supremacistas brancos, cada um mais reaccionário e imaginativo na conspiração do que outro. A gente pensa que eles já são isso tudo e aparece logo outro pior. Trump fê-lo e está a fazê-lo assim e os seus servos, que dependem da sua aprovação para ganhar as primárias republicanas, renovam todos os dias esse caminho antidemocrático e sem lei. E quanto ao Supremo Tribunal americano, cuja história está longe de ser famosa desde a guerra da secessão, que ele ajudou a provocar com a decisão em Dred Scott v. John F.A. Sandford, está hoje politizado pelos republicanos, que fizeram toda a série de manigâncias para garantir uma maioria de juízes, que de um modo geral mentiram sobre as suas intenções aquando das audições para a sua nomeação sobre as suas posições sobre a histórica decisão de Roe vs. Wade, que desde 1973 defende o direito das mulheres ao aborto.

Acresce que nem sequer nesta questão da Ucrânia os republicanos são mais seguros do que os democratas, um dos raros casos em que estes são mais consequentes e firmes, num Partido Democrata que consegue não ser isto em matéria nenhuma. Trump, o amigo e admirador de Putin (e provavelmente mais do que isso), e que atrasou o envio de armas para a Ucrânia, chantageando-os para arranjarem “lixo” sobre o filho de Biden, é a última pessoa em quem confiar na guerra da Ucrânia.

Ia isto tão “americano” até que escrevi a palavra Ucrânia, e deixou logo de ir por aí. É que nem posso ouvir falar de “paz”, quando esta palavra significa apenas “rendam-se”, dêem a Putin o que ele quer para pavonear no desfile da vitória. Fechem os olhos da cara para não ver a realidade brutal, que destrói, assassina, viola, mata e fere, agora mesmo na Ucrânia. É do domínio da força, da violência sem adversativa. Vem do “outro” lado, vem do inimigo. Hoje, como nos últimos dias, um civil é preso numa cidade ocupada, espancado, e encostado a uma parede ou no meio da rua, recebe um tiro de Kalashnikov no peito, e fica a morrer. Ou num apartamento de família, um míssil entra pelo prédio dentro, derruba a fachada, estilhaça os vidros, incendeia as roupas, destrói os locais das famílias, as memórias, os bairros e as suas relações. Se lá estiver gente dentro, morre ou fica com o corpo destruído.

Não, isto não se passa nos EUA, nem em bom rigor em nenhum sítio do mundo. Podemos ir à Síria, a Gaza, ao Sudão, ao Iémen, a todos os locais de guerras no mundo e nada se compara ao que acontece hoje na Ucrânia. É que não há encenação, desinformação, fake news, “nevoeiro de guerra”, nada que possa esconder, minimizar, justificar o que se passa. Abram os olhos da cara e fechem os olhos da obediência e da hipocrisia de gritar pela “paz”, porque nem sequer são os olhos da ideologia, porque aqui não há nenhuma.

Eu sempre escrevi que não era a democracia versus a autocracia que estava em causa na Ucrânia, nem disse alguma vez – e lembrei-o desde início do conflito  que o Governo ucraniano, Zelensky à frente, é flor que se cheire. Mais: tenho reservas que se abandonem os critérios de entrada para a União Europeia para a Ucrânia, asneira que já se paga caro com outros países do centro e Leste da Europa, ou noutro sentido com a Turquia, e fui, presumo, o primeiro a falar na televisão do Batalhão Azov, e dos irmãos nazis e nacionalistas extremos da Rússia e da Ucrânia, tão parecidos que eles são. Mas, chegados aqui, a invasão da Ucrânia sem qualquer provocação imediata, sem qualquer objectivo que não seja a submissão, sem qualquer respeito pelos civis, pelo direito, pelas leis da guerra (que também existem), assente numa política de força e brutalidade, ameaça a minha liberdade. Sim, a minha liberdade. E a paz sem aspas.

Claro que no modo como andam os costumes, eu digo isto porque alguém me paga para dizer, ou porque não quero perder os meus “lugares” na comunicação social, ou porque no fundo sou um “fascista” vendido ao imperialismo americano, que não percebe as razões alheias. Alheias de quem? De Putin, do “povo russo”, dos ucranianos pró-russos (que os há), dos tchetchenos, da causa anti-imperialista e antibelicista dos amigos da “paz”? É preciso ter aquilo a que os portugueses chamam “lata” para andar a dizer isto, mas há quem o faça.

Por isso, estou todos os dias mais belicista. Essa força bruta tem de ser defrontada e duvido que haja outro modo de o fazer senão com a força. E não me venham com a história do “pensamento único”, porque ao pensamento que é verdadeiramente livre e não anda a mando de ninguém basta andar a mando do bom senso para perceber com meridiana clareza o que se está a passar. Putin é um criminoso e a política da Rússia que ele conduz é um exemplo de tudo aquilo que quem ame a liberdade, a vida das pessoas comuns, e tenha uma gota que seja do shakespeariano “milk of human kindness” recusa, e sabe que com isto não é possível nem “entender”, nem pactuar a não ser por covardia, nem negociar.

Isso mesmo, nem negociar.

O autor é colunista do PÚBLICO

Ainda sobre as posições do PCP e dos seus apoiantes sobre a invasão da Ucrânia

05.05.22 | Manuel_AR

Ucrânia e PCP.png

Antes de começar compete-me esclarecer que não sou anticomunista, embora com divergências ideológicas, e que tenho respeito por um partido que sempre lutou contra o fascismo e que, em Portugal, faz parte da democracia. Contudo, isto não me impede de discordar de muitos dos pontos de vista do PCP, quer quanto à política interna quer quanto às suas opções em política externa. O PCP apesar de várias críticas que lhe possam fazer, algumas com razão, é um partido necessário à democracia por ser um agregador de vontades e ideias de muitos trabalhadores e reformados e que é o oposto dos movimentos inorgânicos, formados com interesses pouco claros, que têm surgido à revelia das instituições e organizações sindicais que fazem parte de uma democracia.

Assim, feito o esclarecimento, farei as críticas que bem entender segundo o meu ponto de vista, mesmo que sujeito a insultos vindos dos que dizem não seguir o “pensamento único”, como critica o secretário-geral do PCP quanto aos “proclamados valores ocidentais”, que hostilizam e ‘queimam’ na praça pública quem se atreva a ir ao arrepio da cartilha ditada e imposta pelas autoridades do pensamento único”.

Fico, no entanto, com uma dúvida: quem afinal quer impor um pensamento único ao pretender esconder as evidências de uma invasão a que chamam eufemisticamente “intervenção militar especial” para não mencionarem a palavra guerra ou invasão?

É que, de acordo com especialistas de direito internacional, que eu não sou, uma intervenção militar refere-se à utilização das forças militares para controlo de alguma situação que seria de responsabilidade de outra autoridade ou força e que deve obrigatoriamente ser temporária e com uma área de atuação bem definida. Guerra é quando um país que tem a sua soberania (povo, governo e território) é atacado.

Penso que fica claro qual a posição veiculada pelo PCP pelas palavras da deputada Paula Santos líder do grupo parlamentar. Contudo, as notícias dos acontecimentos em que estão em causa a identificação refugiados ucranianos pela Câmara de Setúbal por uma associação russa levou-me a associações do PCP com o seu congénere representado na Duma, o Parlamento da Rússia.

As declarações do PCP sobre a invasão indignaram pessoas e todos os partidos com assento no Parlamento. Pontos de vista ambíguos, disfarçados de pedidos de paz e contra a guerra de forma genérica e plenas de vazio nos vários contextos do discurso dos comunistas. Acusam o invadido e quem o apoia de incentivarem à guerra e o invasor de ser um capitalista, mas que, apesar disso, é discretamente travestido de herói libertador (palavras são minha) da Ucrânia nazi, fascista, xenófoba apoiada pelo imperialismo do ocidente. Estas afirmações podem ser revistas em qualquer dos principais órgãos de comunicação. “O PCP não vai participar na sessão solene na Assembleia da República com a presença do Presidente da Ucrânia, na quinta-feira, por videoconferência, por considerar que Volodimyr Zelensky "personifica um poder xenófobo e belicista".

A ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia teve outro desenvolvimento que não o dado por Paula Santos. Quem assistiu às declarações dos partidos após a cerimónia, a líder parlamentar do PCP ao falar sobre o discurso do Presidente ucraniano Volodimir Zelensky, ao justificar a posição do seu partido de não ter marcado presença no Parlamento foi em primeiro lugar a de terem classificado como insultuosa a comparação feita por Zelensky entre a luta ucraniana e o 25 de Abril e a segundo lugar supostamente decorrente da primeira era justificada pela ilegalização do Partido Comunista ucraniano e com a suspensão de outros partidos políticos.

"O PCP não participará numa sessão da Assembleia da República concebida para dar palco à instigação da escalada da guerra, contrária à construção do caminho para a paz, com a participação de alguém como Volodimir Zelensky, que personifica um poder xenófobo e belicista, rodeado e sustentado por forças de cariz fascista e neonazi, incluindo de caráter paramilitar, de que o chamado Batalhão Azov é exemplo", sustentou a líder parlamentar comunista, Paula Santos, em conferência de imprensa, no parlamento.

Esclareçamos então a veracidade dos factos daquelas afirmações e sem tentativas de alterações e reescritas da história. Segundo refere o jornal Público de 22 de abril à data dos factos referidos, Volodimir Zelensky ainda não tinha iniciado a sua carreira política e, por isso, não teve qualquer influência direta na ilegalização, nem de qualquer força política que integrou nestes últimos três anos. Volodimir Zelensky só foi eleito chefe de Estado em abril de 2019, com o partido político “O Servo do Povo”.

Zelensky não esteve diretamente envolvido neste processo e foi responsável pela suspensão de atividade política de 11 outros partidos em março, após a introdução da lei marcial no país. Zelensky justificou esta decisão alegando que estas forças tinham ligações diretas com a Rússia e Vladimir Putin. Portanto, a deturpação de factos pelo PCP é evidente. Então, a ser como dizem, todos os países que apoiam a Ucrânia seriam considerados como xenófobos, fascistas, neonazis, e outros malévolos epítetos.

Em março Jerónimo de Sousa disse que "A opção de classe do PCP é oposta à das forças políticas que governam a Rússia capitalista e dos seus grupos económicos.”. Mas, também disse que “o PCP opõe-se à estratégia de escalada armamentista e da dominação imperialista que os Estados Unidos há muito puseram em marcha". Quer dizer, os Estados Unidos são imperialistas, coisa que, para o PCP, a Rússia (leia-se Putin) não o é. Por consequência, para o PCP, terá sido o ocidente unido que desempenhou o papel de grande causador que pôs em marcha a invasão da Ucrânia.

Putin é anti União Europeia e um dos seus intentos será o de acabar com ela o que não é novidade porque o ex Presidente dos EUA Donald Trump estava alinhado pelo mesmo projeto.

Em março 2018 escreveu João Marques Almeida no jornal ECO: “O regime russo tem uma ambição política: destruir a União Europeia” e apresentava dois argumentos para relativizar os que negam mesmo a existência de uma ameaça russa.

Neste mesmo artigo Marques Almeida escreveu ainda em 2018 data em que Trump estava no mandato que “Putin mantém a velha estratégia soviética de tentar dividir a Europa dos Estados Unidos. A natureza ideológica da União Soviética e o anti-comunismo estrutural do sistema político norte americano impediram os objectivos soviéticos. Mas hoje, na Casa Branca, encontra-se um Presidente demasiado ambíguo em relação a Moscovo. Ninguém conhece bem a natureza da relação entre Trump e Putin, ou sobre os negócios que terão feito no passado, mas os sinais são preocupantes. Com Trump, há o risco de os Estados Unidos deixarem de liderar a Aliança Atlântica contra a Rússia”.

Cada um que tire as ilações que entender.

 

Nota: As citações estão conforme o Acordo Ortográfico utilizado pela fonte.

Putin não é a Rússia e a Rússia não é Putin- Um artigo de Pacheco Pereira

02.05.22 | Manuel_AR

Opinião

Uma coisa é Putin, outra a Rússia

O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe.

Foto A Vladimirka, de Levitan, a estrada para o exílio na Sibéria DR

Eu tenho as melhores memórias da Rússia, melhor, eu devo muito à Rússia, e por isso me repugna confundir Putin com “os russos”, como agora se faz. Mais do que essas memórias, tenho uma grande admiração pelos russos e, quanto à cultura russa, ela “fez-me”, tanto como tudo o resto.

Conheci a Rússia ainda era URSS e depois logo a seguir, nos anos conturbados de transição, e no retorno a essa maldição russa, a autocracia, a ditadura. Lembro-me de um russo, membro da Duma, provavelmente do Partido Comunista, feliz por encontrar estrangeiros, convidar-me a ir a sua casa, muito modesta, num daqueles blocos de apartamentos dos subúrbios de Moscovo, iguais aos que os mísseis russos estão a destruir em Kiev. Abria os armários onde tinha a sua reserva de comidas “especiais”, aquelas que era difícil arranjar, por exemplo, uma espécie de fiambre, e oferecia-as ao “estrangeiro” por pura generosidade, porque nada tinha a ganhar com o que estava a fazer. Falámos do Hadji Murat, de Tolstoi, que ele tinha tido de estudar na escola, uma história do “império” que muito provavelmente tínhamos “lido” de forma muito diferente.

Foto Edifícios bombardeados em Kiev ROMAN PILIPEY/EPA

Saí pela porta daqueles prédios sinistros e hoje nem me lembro do nome do homem e da família que o acompanhava, mas sei o que significou a palavra hospitalidade. Havia uma proximidade muito parecida com a nossa, sem cerimónias nem protocolos, apenas companhia e conversa, entre dois mundos que estavam bastante longe na geografia e mesmo na história. O meu, por muito mau que fosse, com 48 anos de ditadura, o dele com a tragédia dos milhões de mortos às costas, alguns da sua família. Tragédia não é uma palavra leve, mas não se conhece nada da Rússia sem a perceber. E, no entanto, eu sabia que ele era da burocracia do poder soviético em extinção, e ele que eu era do “inimigo”. Mas, como já disse várias vezes, aquele foi um período excepcional em que as coisas podiam ter evoluído de forma diferente. Ou talvez não.

A Federação Russa de Putin estava a caminho, melhor, já lá estava. Conheci oligarcas, burocratas, militares, membros do PCUS, e não era difícil perceber que, à medida que se subia na escala do poder e do dinheiro, aumentava a brutalidade, na proporção directa do sofrimento histórico do povo russo em nome do qual exerciam o poder, e com essa indiferença pela violência quando os seus interesses estavam ameaçados. Indiferença que começava nos “seus”, em nome dos quais falavam.

Mas, na conversa anódina com o meu anfitrião russo, o território comum era o muito que aprendi sobre a Rússia e que veio dos livros, essa forma de saber cada vez mais desprezada pela ignorância atrevida das redes sociais e do mundo obsessivamente presencial dos dias de hoje. Foram estas memórias e a Rússia de Pushkin, Turgueniev, Tchekov, Tolstoi, Tsvetaeva, Akhmatova, Pasternak e Soljenitsin que me ajudaram a nunca me ter enganado sobre Putin. Em 2014, escrevi a propósito da sublevação da Praça Maidan que “a questão da Ucrânia chegou aqui, porque os europeus e os americanos foram irresponsáveis e atiçaram um conflito para que não tinham saída viável, e porque Putin é perigoso e não é de agora”.

Também não me enganei sobre Putin, nem sobre a elite dirigente da Ucrânia, sobre a qual convém não ter muitas ilusões, em particular não retratando esta guerra como uma guerra entre a democracia e a ditadura, mas sim como outra coisa: uma guerra entre um agressor e um agredido. O agressor não é o povo russo, é Putin e a sua corte militar e civil, mas o agredido é o povo ucraniano, seja quem for quem o governe. Esta diferença é aquela que, não sendo feita, faz com que quem a omite fique do lado do agressor. E nesta guerra ficar do lado do agressor é espezinhar a liberdade, a soberania, o direito, a humanidade e as pessoas. Não as pessoas “especiais”, mas as pessoas comuns.

Admito que a maioria dos russos apoie esta guerra e não é apenas porque a censura de Putin evita o conhecimento do que se passa e a dura repressão impede qualquer liberdade para o protesto. Proibir e prender, agredir e matar é uma coisa que quem tem o poder na Rússia sabe muito bem fazer desde sempre, da Okrana à Cheka, ao KGB e ao SVR, dos czares, passando por Estaline, até Putin. Mas o que também faz parte dessa tragédia russa é que alguma da sua cultura esteja exactamente nos antípodas dessa violência, e que descreva melhor do que ninguém a combinação da obediência e da rebeldia, que a história com h pequeno fez ao povo russo, aos “humildes”. Nestes dias é do conto de Tolstoi Aliocha, o Pote que me lembro, descrevendo a sua morte após cair de um telhado:

Surpreso com alguma coisa, estendeu a mão e morreu.”

O autor é colunista do PÚBLICO