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Falar de Putin por causa da Ucrânia aguçou-me a curiosidade para saber que eventuais ligações e influências, diretas ou indiretas, terá tido Trump com e de Vladimir Putin na invasão daquele país.

Pesquizei uma série de títulos e artigos publicados em órgão de comunicação estrangeiros nos últimos dois anos que ligassem aqueles dois presidentes por palavras e diligências diplomáticas. Artigos e notícias interessantes chamaram-me a atenção. Quem se der ao trabalho de os ler que tire as suas conclusões.

Notar que não segui a ordem cronológica das publicações.

The Guardian

23 de fevereiro de 2022

Trump elogia o 'génio' Putin por transferir tropas para o leste da Ucrânia. O ex-presidente diz que o líder russo tomou a decisão 'muito inteligente' de reconhecer os dois territórios do leste da Ucrânia como independentes

Donald Trump disse que Vladimir Putin é “muito experiente” e fez um movimento “génio” ao declarar duas regiões do leste da Ucrânia como estados independentes e transferir forças armadas russas para lá.

Trump disse que viu a escalada da crise ucraniana na TV “e que disse: 'Isso é genial'. Putin declara uma grande parte da Ucrânia ... Putin declara-a independente. Ah, isso é maravilhoso.”

O ex-presidente dos Estados Unidos disse que o presidente russo fez um “movimento inteligente” ao enviar “a força de paz mais forte que já vi” para a área.

Trump, um admirador de longa data de Putin que sofreu impeachment por alegações de que ele ameaçou reter ajuda à Ucrânia a menos que isso pudesse prejudicar a reputação de Joe Biden, elogiou as medidas do presidente russo ao mesmo tempo em que afirmou que elas não teriam acontecido se ele ainda fosse Presidente.

"Aqui está um sujeito que é muito experiente... eu conheço-o muito bem", disse Trump sobre Putin enquanto conversava com o The Clay Travis & Buck Sexton Show . "Muito, muito bem. Aliás, isso nunca teria acontecido connosco. Se eu estivesse no cargo, não era mesmo pensável. Isso nunca teria acontecido.

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 PassBlue

Independent UN Coverage

14 de setembro de 2020

Depois de quase quatro anos do presidente Trump na responsabilidade da presidência, ainda não temos uma resposta concreta sobre o porquê do presidente adiar repetidamente questões importantes a tratar com Vladimir Putin. Esta é uma questão central que enfrentamos como país (EUA), especialmente as consequências para as políticas americanas sobre as sanções ucranianas, sobre a questão da intromissão russa nas eleições presidenciais de 2016, sobre a confiabilidade das nossas agências de inteligência dos Estados Unidos, recentemente também contratempos sobre possíveis recompensas russas pela morte de soldados americanos no Afeganistão e, finalmente, nas eleições presidenciais dos EUA.

À medida que esses escândalos alastram e recuam até à próxima crise, o nosso foco em resolver esse mistério também parece estar a diminuir. Não devemos deixar de estar atentos ao que está por trás da desconcertante relação de Trump com Putin — a nossa segurança nacional depende disso.

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The Guardian

15 de julho de 2021

Documentos do Kremlin parecem mostrar o plano de Putin para colocar Trump na Casa Branca

Documentos sugerem que a Rússia lançou um esforço secreto de várias agências para interferir na democracia dos EUA.

Vladimir Putin autorizou pessoalmente uma operação secreta da agência de espionagem para apoiar um Donald Trump "mentalmente instável" nas eleições presidenciais dos EUA em 2016 durante uma sessão fechada do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, de acordo com o que dizem documentos avaliados como sendo do Kremlin.

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Diário de Notícias

12 de junho de 2021

 Putin diz que Trump "é extraordinário" e espera Biden menos impulsivo

De acordo com Putin, Donald Trump é um homem "talentoso" e "original". "Mesmo agora, creio que o ex-Presidente Trump é um indivíduo extraordinário, senão não teria sido Presidente", disse. "E não veio do stablishment americano", acrescentou.

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Haaretz

19 de fevereiro de 2022

Tucker Carlson, Josh Hawley e Donald Trump: O Time dos Sonhos de Putin, mas o pior pesadelo da América

Um trio repulsivo e depravado, Josh Hawley, Tucker Carlson e Donald Trump, são parceiros ativos nos esforços de Putin para incendiar o Ocidente na Ucrânia – e para minar os próprios Estados Unidos.

No meio da pior ameaça à segurança enfrentada pelo Ocidente desde a Crise dos Mísseis Cubanos, num esforço para enfraquecer o Ocidente e minar a liderança dos EUA é inteiramente obra de Putin. Hawley é um dos membros mais proeminentes da legião trumpista dizendo as palavras que o Kremlin quer que eles digam e que não defendam os EUA, mas a Rússia.

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The Washington Post

9 de dezembro de 2021

Putin tensão em direção à invasão da Ucrânia, encorajada por Trump

O caminho do presidente russo Vladimir Putin para ameaçar uma invasão da Ucrânia é marcado por ações imprudentes. Neste movimento em direção ao desafio às normas internacionais, Putin tem sido sutilmente encorajado pelo ex-presidente Donald Trump, um companheiro de viagem em imprudência.

Não precisamos de nenhuma análise conspiratória das ligações de Trump com a Rússia para fazer este caso. Só precisamos ver os fatos. Trump tem sido simpático a Putin em declarações públicas há quase uma década. Quanto à Ucrânia, Trump ficou tão descuidado com a sua segurança que condiz com a ajuda militar dos EUA a favores políticos no famoso telefonema de 2019 (ver em baixo) que resultou em seu primeiro impeachment.

(26 de setembro de 2019 - O presidente Trump instou repetidamente o presidente ucraniano a investigar Joe Biden, um de seus principais rivais políticos, e se ofereceu para recrutar o procurador-geral dos EUA nesse esforço, enquanto balançava a possibilidade de convidar o líder estrangeiro para a Casa Branca, de acordo com uma transcrição aproximada de a chamada divulgada quarta-feira.

Se Putin marchar para a Ucrânia, uma consequência deve ser um grave dano para o futuro político de Trump. No entanto, provavelmente não vai funcionar dessa forma. Os partidários de Trump parecem prontos para perdoá-lo qualquer coisa, incluindo líderes de torcida para ditadores. Mas antes que seja tarde demais, devemos examinar como Putin rompeu os guardrails com a aquiescência silenciosa de Trump ou aprovação total.)

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ROLL CALL

17 de fevereiro de 2022

 Trump está a dar um brinde a Biden enquanto a Rússia ameaça a Ucrânia

“Com ele, todas as estradas levam a Putin”, disse Pelosi sobre Trump em junho.

Donald Trump principalmente deu ao presidente Joe Biden uma aprovação de namoro da Rússia com a invasão da Ucrânia e possivelmente a instalação de um governo fantoche em Kiev.

Parece que segundo alguns estrategistas políticos Trump parece estar a mostrar todos os sinais de montar uma candidatura à Casa Branca em 2024 - para dar cabo do seu inimigo em 2024.

A última declaração de Trump sobre as tensões na Ucrânia foi em 24 de janeiro: "O que está a acontecer com a Rússia e a Ucrânia nunca teria acontecido sob a Administração Trump. Nem mesmo uma possibilidade!”

Desde então, o ex-presidente tem-se concentrado um pouco no endossamento para o ciclo eleitoral de 2022 - mas principalmente no seguinte, nas suas palavras, "Rússia, Rússia, Rússia".

Trump concentrou-se recentemente em algumas questões da sua escolha: a eleição de 2020, várias investigações federais e estaduais da sua organização empresarial e filhos arrecadando milhões de dólares para fins pouco claros. No entanto, ele tem razões muito específicas para ficar calado sobre a Ucrânia: a sua deferência ainda inexplicável com Putin e como a modernização militar de Moscou não foi controlada durante o seu mandato.

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 Politico Magazine

Março/abril 2017

Qual é a verdadeira história de Donald Trump e da Rússia? A resposta ainda não está clara, e os democratas no Congresso querem chegar ao fundo da questão com uma investigação. Mas não há dúvida de que existe uma teia de ligações - algumas públicas, algumas privadas, algumas claras, algumas obscuras - entre Trump, os seus apoiantes internos e o presidente russo Vladimir Putin.

Os esquemas seguintes ilustram dezenas dessas ligações, incluindo reuniões entre funcionários russos e membros da campanha e da administração de Trump; laços da sua filha com os amigos de Putin; a visita de Trump em 2013 a Moscou para o concurso Miss Universo; e a sua curta aventura de artes marciais mistas com um dos atletas favoritos de Putin. As linhas sólidas marcam factos estabelecidos, enquanto as linhas de ligação ponteadas representam conexões especulativas ou não comprovadas.

Não há nada inerentemente condenável na maioria dos laços ilustrados abaixo. Mas eles revelam a vasta e misteriosamente complexa teia por trás de uma história que irritou a jovem presidência de Trump desde o seu início, e, é certo, que abalará a Casa Branca nos meses seguintes.

Vejam-se os seguintes esquemas.

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  1. Trump e Putin, via Funcionários da Administração

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  1. Trump e Putin, via Michael Flynn

 

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  1. Trump e Putin, via Conselheiros de Campanha

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  1. Trump e Putin, via Paul Manafort

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  1. Trump e Putin, via Business Ties

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  1. Trump e Putin, via Felix Sater

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  1. Trump e Putin, via Membros da Família Trump

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Fonte: PoliticoMagazine

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CNN Politics

22 de setembro de 2020

 

Trump diz que gosta de Putin. A Central Intelligence Agency (inteligência dos EUA) diz que a Rússia está a atacar a democracia americana.

Apesar das repetidas advertências de funcionários da inteligência e do próprio diretor do FBI de que a Rússia está a realizar um ataque descarado à democracia americana, o presidente Donald Trump resumiu as suas opiniões num comício em termos muito simples: “Eu gosto de Putin, ele gosta de mim”.

Trump tem expressado consistentemente uma afinidade pessoal com seu homólogo russo, Vladimir Putin, desde que assumiu o cargo há quase quatro anos nos EUA. Mas o facto de que os seus últimos comentários vêm à medida que as agências de inteligência dos EUA estão soando o alarme sobre a interferência contínua de Moscou na eleição de 2020 oferece um lembrete gritante de que Trump não tem problemas com a intromissão estrangeira se isso possa ajudá-lo politicamente.

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INSIDER

24 de janeiro de 2022

 Trump diz que a crise Ucrânia-Rússia nunca teria ocorrido sob seu comando, mas ele reteve ajuda militar de Kiev e especialistas dizem que ele encorajou Putin

O ex-presidente Donald Trump disse na segunda-feira que a escalada da crise Rússia-Ucrânia nunca teria acontecido sob sua vigilância, ignorando o facto de que ele foi apanhado por um escândalo que envolvia a retenção de ajuda militar a Kiev, enquanto o pressionava a investigar os seus rivais políticos.

“O que está a acontecer com a Rússia e a Ucrânia nunca teria acontecido sob o governo Trump. Nem mesmo uma possibilidade”, disse Trump.

Trump foi apanhado em 2019 em parte porque pressionou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a investigar Joe Biden, então um de seus principais rivais políticos, enquanto congelava cerca de US$ 400 milhões em ajuda militar vital à ex-república soviética.

O governo de Trump colocou oficialmente um controle sobre a ajuda cerca de 90 minutos após o ignóbil telefonema de 25 de julho de Trump com Zelensky, no qual ele instou o líder ucraniano a iniciar um inquérito sobre Biden e seu filho Hunter Biden sobre alegações infundadas de corrupção. A ajuda militar foi disponibilizada para a Ucrânia meses depois de Trump ser informado de que uma queixa de denunciante foi apresentada em relação ao telefonema de 25 de julho.

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NPR.ORG

17 de julho de 2018

 

Cimeira de Helsinquia de Trump com Putin deixa ao mundo a pergunta: Porquê?

Dada a atitude com que o presidente Trump saudou todas as notícias da interferência russa na eleição de 2016, seu desempenho em Helsinque na segunda-feira não deveria ter sido nenhuma surpresa.

No entanto, houve surpresa - até mesmo choque - quando o presidente dos Estados Unidos subiu ao palco ao lado do presidente russo Vladimir Putin e aceitou as negações do ex-oficial da KGB sobre essa interferência.

Trump foi perguntado diretamente em qual ele acreditava: na sua própria comunidade de serviços secretos ou em Putin. Em algumas palavras, Trump deu a resposta: Putin. (Via tweet, Trump mais tarde procuraria esclarecer a sua resposta.).

O senador John McCain, republicano do Arizona, chamou a isso "um dos desempenhos mais vergonhosos de um presidente americano de que há memória".

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USA TODAY NEWS

21 de fevereiro de 2022

 Putin “tossiu” propositalmente. Trump disse que agiria duro perante as camaras da comunicação social, revela livro da Casa Branca.

O ex-presidente Donald Trump disse ao presidente russo Vladimir Putin durante uma reunião em 2019 que só agiria duro com ele "para as camaras" e, enquanto isso, Putin aparentemente tentou detonar a germofobia de Trump tossindo propositalmente, de acordo com um novo livro de bastidores da Casa Branca de Trump.

O livro da ex-secretária de Imprensa da Casa Branca Stephanie Grisham, "I'll Take Your Questions Now", obtido antes da publicação pelo The Washington Post, revela uma relação muito mais matizada entre Trump e Putin do que relatórios anteriores que fora produzidos.

Segundo Grisham, Putin usou truques para tentar acionar e intimidar Trump durante a sua reunião na cúpula do G20 em Osaka, no Japão. Trump, por outro lado, era muito menos severo fora das camaras do que apresentou ao público e aos media americanos.

 

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VOX

29 de janeiro de 2019

Trump encontrou-se com Putin sem funcionários ou notações presentes – novamente.

Trump supostamente continua a encontrar uma maneira de se reunir com o líder russo particularmente.

Quando se é um presidente dos EUA, provavelmente não é uma boa ideia encontrar-se com um líder estrangeiro que se intrometeu nas eleições do seu país sem uma forma de registar o que está a ser discutido. Mas isso é exatamente o que o presidente Donald Trump aparentemente fez - novamente.

De acordo com o Financial Times, Trump falou com o presidente russo Vladimir Putin durante a cúpula do G20 em novembro passado na Argentina sem a presença oficial dos EUA para poder tomar notas do que tratou. A primeira-dama Melania Trump estava ao lado do presidente durante a conversa, mas nenhum funcionário esteve presente.

A Casa Branca já havia reconhecido que ambos os líderes se reuniram para uma conversa "informal", mas não revelou que Trump não tinha nenhum membro oficial de sua equipe presente. Putin tinha alguém, porém: o seu tradutor, embora não esteja claro que essa pessoa escrevesse alguma coisa.

Não é a primeira vez que Trump faz isso. Durante a reunião do G20 na Alemanha, em julho de 2017, ele levantou-se da sua cadeira durante um jantar para se sentar ao lado de Putin, que tinha o seu tradutor para ajudar. Essa reunião, que a Casa Branca não revelou inicialmente, teve lugar poucas horas depois de Trump ter “comprado” a negação de Putin de que a Rússia não interveio nas eleições presidenciais de 2016.

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INDEPENDENTE

12 de fevereiro de 2022

 Trump diz que Putin foi encorajado pela caótica retirada dos EUA do Afeganistão.

O ex-presidente Donald Trump ponderou sobre a escalada das tensões entre a Rússia e a Ucrânia, sugerindo que a caótica retirada dos EUA do Afeganistão encorajou o presidente russo Vladimir Putin.

Falando na Fox and Friends Weekend no sábado, Trump afirmou que ninguém tinha sido mais duro com a Rússia do que ele, mas ao mesmo tempo disse que ele e o sr. Putin "se davam muito bem".

"Estamos em uma posição muito ruim agora", disse Trump.

"Acho que [o deputado Putin] ficou muito mais ambicioso. Eu acho que ele queria negociar por um período de tempo, quando ele assistiu Afeganistão, quando ele assistiu à incrivelmente à prejudicial retirada, onde [a América] tirou os militares primeiro e deixou 85 bilhões de dólares em equipamentos para trás para o Talibã usar. E, claro, as mortes.

"Quando eles assistiram todos eles, eu acho que eles foram encorajados. É chocante porque nunca deveria ter acontecido, nunca teria acontecido."

Falando do senhor deputado Putin, o senhor deputado Trump acrescentou: "Eu conhecia-o muito bem. Parei o oleoduto dele, sancionei-o mais do que todos os outros os sancionaram. Nunca ninguém foi mais duro com a Rússia, mas eu dei-me muito bem com Putin, nós nos respeitamos."

Os seus comentários vieram quando o presidente dos EUA Joe Biden realizou um telefonema de uma hora com o sr. Putin para discutir a Ucrânia, numa aparente tentativa de evitar conflitos militares no leste europeu.

Os Estados Unidos "permanecem preparados para se envolver em diplomacia", disse Biden a Putin, mas invadir a Ucrânia "produziria sofrimento humano generalizado e diminuiria a posição da Rússia".

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DW Deutsche Welle

17 de março de 2021

Putin autorizou ações pró-Trump na eleição, afirma relatório.

A Rússia tentou influenciar o litígio presidencial de 2020 por meio da difusão de alegações infundadas sobre Biden, diz um relatório que também aponta esforços do Irão para prejudicar s candidatura de Trump.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, autorizou ações para interferir na eleição presidencial de novembro de 2020 nos Estados Unidos, afirma um relatório dos serviços secretos americanos divulgado nesta terça-feira (16/03).

A ingerência deu-se por meio da difusão de alegações enganosas e infundadas sobre o candidato democrata à presidência, Joe Biden, numa tentativa de favorecer a candidatura do então presidente Donald Trump, que concorria à reeleição.

O Kremlin respondeu que as acusações não têm fundamento e que o relatório não oferece factos nem provas. Funcionários do governo americano disseram, sob anonimato, que o governo dos EUA deverá impor novas sanções à Rússia por causa das ações.

Biden afirmou que Putin enfrentará consequências pelas suas ações. "Ele pagará um preço", afirmou o presidente americano em entrevista transmitida pela emissora ABC News nesta quarta feira, sem especificar quais seriam as medidas.

Segundo o relatório, pessoas ligadas à Rússia espalharam as alegações contra Biden e tentaram assim influenciar os aliados de Trump. O documento não menciona nomes, mas é sabido que o advogado Rudy Giuliani, um aliado de longa data de Trump, encontrou-se várias vezes com o parlamentar ucraniano Andrii Derkach, que em 2020 divulgou gravações editadas para tentar prejudicar Biden.

Pessoas ligadas aos serviços secretos russos também espalharam histórias contra Biden na imprensa americana, afirma o relatório. Porém, desta vez hackers russos não tentaram insistentemente entrar na infraestrutura eleitoral, por exemplo na contagem de votos.

 

 

 

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publicado às 16:53

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Nunca escrevi sobre política internacional a não ser no tempos de Trump, mas a perigosidade do conflito e os jogos de guerra com ameaças de Biden e Putin a isso me estimularam, por isso aqui vai.

“Putin dividido entre a guerra total e o longo jogo de nervos” é o título de um artigo publicado hoje no jornal Público sobre a crise na Ucrânia que me fez recordar os tempos da Guerra fria.

As tensões entre os EUA e a Rússia, reatadas pela questão ucraniana, despertaram-me a atenção para o tempo da URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e da Guerra Fria travada principalmente nas frentes políticas, económicas e de propaganda que durou até 1991.

Quando a URSS se desmoronou com o movimento da Perestroika muitas das repúblicas que se encontravam sobre o seu domínio foram libertadas da influência soviética e os regimes comunistas nesses países entraram em colapso no final de 1989, levando ao poder governos democraticamente eleitos tendo o que conduziu à retirada gradual das tropas soviéticas desses países.

Em meados de 1980 o programa Perestroika procurava levar a União Soviética à igualdade económica com países capitalistas como Alemanha, Japão e Estados Unidos entre outros. Em 1988 foi criado na ainda URSS um novo parlamento, o Congresso Soviético dos Deputados do Povo, pela primeira vez através de eleições para esses órgãos com uma escolha de candidatos que, pela primeira, vez incluía não-comunistas, mas o Partido Comunista continuava a dominar o sistema. Gorbachev foi o iniciador mais importante de uma série de eventos no final de 1989 e 1990 que transformaram o tecido político da Europa e marcaram o início do fim da Guerra Fria.

Em novembro de 1989 deu-se a queda do muro de Berlim e no verão de 1990, deu-se a reunificação da Alemanha do Leste com a Alemanha Ocidental. Foi acordado então que a nação unificada se tornaria um membro da NATO - Organização do Tratado do Atlântico Norte, inimiga de longa data da União Soviética.

A Guerra Fria começou após a rendição da Alemanha nazi em 1945, quando a ex-União Soviética começou a estabelecer governos comunistas nos países da Europa Oriental, com o pretexto de se proteger contra uma possível ameaça renovada da Alemanha, e de que a dominação soviética no leste da Europa pudesse ser permanente. A Guerra Fria foi materializou-se entre 1947 e 1948, derivada da ajuda dos EUA na guerra e deixou alguns países ocidentais sob influência americana. Por outro lado, os soviéticos estabeleceram regimes abertamente comunistas no leste da Europa.

No entanto, na altura, fazia-se muito pouco uso de armas em campos de batalha durante a Guerra Fria por foi travada principalmente em frentes políticas, económicas e de propaganda e durou até 1991 como anteriormente referi.

Nesta segunda década do século XXI com as redes de computadores e meios de comunicação mais eficazes, mais ativos e acessíveis tudo se complicou e, para além da chamada guerra eletrónica com a pirataria informática, as movimentações no terreno de material bélico a guerra podem tomar proporções mais gravosas do que apenas da propaganda.

Putin descreveu na altura a desintegração soviética como uma catástrofe que roubou a Rússia do seu lugar de direito entre as grandes potências mundiais e a colocou à mercê de um Ocidente predatório. Ele passou os seus 22 anos no poder reconstruindo os militares russos e reafirmando sua influência geopolítica.

Um imprevisível líder russo acumulando tropas e tanques na fronteira de um país vizinho que gostaria estivesse debaixo da sua influência política e geoestratégica ameaça uma conflagração este-oeste. O que parecia ser mais um episódio perigoso idêntico ao de uma era passada está agora no centro dos assuntos globais.

Depois do colapso da União Soviética a NATO expandiu-se para o leste, acolhendo a maioria das nações europeias que antes estavam na esfera comunista. As repúblicas bálticas da Lituânia, Letónia e Estónia, que eram partes da União Soviética, juntaram-se à NATO, assim como a Polónia, a Roménia e outros. Como resultado a NATO que foi criada para combater impedir o expansionismo soviético do pós-guerra, com a adesão de países do leste europeu à organização, aproximou-se para centenas de quilómetros de Moscou, e diretamente na fronteira com a Rússia.

Putin chama à expansão da NATO ameaçadora, e a perspetiva de a Ucrânia passar a fazer parte desta organização é uma ameaça real ao seu país. À medida que a Rússia se tornou mais assertiva e militarmente mais forte, as suas queixas sobre a NATO tornaram-se mais estridentes. Ele invocou repetidamente o espectro de mísseis balísticos americanos e forças de combate na Ucrânia, embora autoridades dos EUA, ucranianos e da NATO insistam que não há nenhum. Para além disto Putin também insiste em que a Ucrânia é parte integrante da Rússia, cultural e historicamente.

A coisa está de facto agreste. As informações que se dispõem não possibilitam saber exatamente onde está a verdade, embora saibamos que Putin tem razão quanto à cada vez maior proximidade da NATO a Moscovo e que, para alguns, é uma organização bélica agressiva conforme se faz constar pela propaganda da Rússia, dos seus aliados e simpatizantes. No entanto também podemos considerar que a NATO é uma organização defensiva e que os países de leste que a ela aderiram foi por vontade própria e são soberanos e independentes, ao contrário de quando estavam na alçada da extinta União Soviética da qual Putin parece ser um saudosista.

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publicado às 16:08

Tempestade Perfeita

por Manuel_AR, em 17.02.22

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“Tempestade Perfeita” um livro de Daniela Santiago a não perder.

A jornalista Daniela Santiago consegue ter a capacidade de observação e de saber ouvir e depois.  

Estou a reler, desta vez, alguns capítulos.

É um livro por onde desfilam algumas das personagens que descredibilizam a democracia, marcando-a pela negativa. Este livro dá a conhecer os que se aproveitam, como diz na contracapa, “das fraquezas da sociedade carente de valores, sedenta de políticos carismáticos e de justiça mais eficaz, para construir um discurso demagógico alavancado pela discórdia, pelas notícias falsas e por conspirações”. Dá-nos pistas para anteciparmos a onde nos poderão levar partidos como o “Chega” que têm ídolos e conselheiros defensores e negacionistas de ditaduras.

A alguns dará a conhecer os populistas e a ascensão das extremas-direita, e, a outros, a ficarem raivosos por se sentirem retratados.

Tenho para mim que no jornalismo a isenção é uma prática difícil. Mesmo na descrição de factos não é fácil conseguir evitar sinais de opinião favorável ou desfavorável sobre o observável.

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publicado às 18:54

Fazer gala da violência e muito mais

por Manuel_AR, em 15.02.22

Escrevi no Facebook: "E se eu especular dizendo que tudo o que se viu foi muito bem orquestrado para depois ser aproveitado para subir audiências, como escreveu Fernanda Câncio?

Este artigo de opinião vale mesmo a pena ser lido.

 

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Fernanda Câncio

in Diário de Notícias 15 Fevereiro 2022

Fazer gala da violência

Para esplendor da audimetria, a TVI decidiu fazer render uma acusação de violência doméstica sobre uma mulher confrontando, ao vivo e a cores, acusado e vítima. E, claro, teve nessa degradação o que queria - o programa mais visto do dia. Isto na era do "politicamente correto", do metoo e da "cancel culture". Olha se fosse na das cavernas.

"Alguma vez tiveste medo?"

A pergunta é de Cristina Ferreira, a diretora de programas da TVI e apresentadora da "gala" deste domingo do programa Big Brother, a uma concorrente. Em causa a sua relação com outro concorrente que fora nesse mesmo dia alvo de uma queixa pelo crime de violência doméstica contra ela - um crime público, o que significa que qualquer um que não apenas a vítima o pode denunciar às autoridades.

No caso, a denúncia foi apresentada pelo organismo público encarregado de promover a igualdade de género - a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género - , num duplo simbolismo: o de frisar o dever de reporte de um crime com esta tipificação, responsável por grande parte dos homicídios cometidos em Portugal, e de este ter sido publicamente e publicitadamente cometido, já que foi através das imagens da interação dos dois concorrentes, divulgadas pela TVI, que dele se tomou conhecimento.

Cristina Ferreira, que várias vezes invocou, no passado recente, o feminismo a propósito de críticas e ataques de que tem sido alvo, frisando que muitos deles ocorrem por ser mulher - o que é verdade -, e que no programa garantiu até acaloradamente "lutar contra a violência doméstica", entendeu encenar, na dita gala, um tribunal, confrontando agressor e vítima com as imagens das suas interações, para a seguir lhes perguntar o que achavam do que viam. A inquirição foi precedida por um discurso inicial da apresentadora/diretora no qual anunciou que considera ter face aos concorrentes "um dever de imparcialidade e de não julgamento de qualquer tipo de comportamento". Esse dever, explicou, deriva da situação de exposição em que aquelas pessoas vivem, ao admitirem ser filmadas 24 sobre 24 horas.

Caberia perguntar se esse "dever de não julgamento" se aplicaria também a crimes, se em causa não estivesse precisamente a acusação de um crime - o que nos leva a concluir que sim, ela quer que concluamos que se aplica. Sucede que é difícil acreditar que Cristina Ferreira, que ali está na quádrupla condição de apresentadora, diretora, administradora e acionista do canal, se afirmasse imparcial e se eximisse de julgamentos caso um concorrente degolasse outro. Pelo que se calhar temos de admitir que ou não leva assim tão a sério o crime de violência doméstica ou acha que no caso não há crime nenhum. O que significa que, longe de ser imparcial e de não julgar, já julgou e decidiu, juíza na causa própria que é o seu programa no seu canal.

Só ter assim decidido explica que considerasse aceitável submeter às perguntas a que submeteu, e perante tão vasta audiência, uma mulher que pessoas muito mais habilitadas que ela (Cristina Ferreira) a reconhecer o crime em causa consideram estar a ser vítima de violência doméstica. Isto se se quiser partir do princípio - é aquele de que quero partir - de que Cristina Ferreira não está tão e apenas somente ralada com as audiências que mesmo admitindo ter ali uma vítima a quereria submeter, sob o álibi da "liberdade total" no contexto de um programa em que está 24 horas fechada com ele, à degradação de a colocar ainda mais sob o domínio do seu agressor ao afirmar publicamente que as suas manobras de controlo, a sua manipulação e agressividade física são manifestações de amor - submetendo-nos assim a todos à banalização e à desculpabilização do crime e à entronização do criminoso.

Não; acredito que simplesmente Cristina Ferreira não saiba o que é a violência doméstica, e, que como tantas outras pessoas, incluindo até, como é conhecido, juízes, ache que se não houver ossos partidos, hematomas e hemorragias, e se a vítima disser que está tudo bem, está tudo bem e não há crime algum. Que não saiba, como tão bem explicou o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em alguns acórdãos recentes, que a violência doméstica é tortura porque visa a humilhação, o rebaixamento e o controlo absoluto da vítima, transformando-a em objeto à sua disposição.

Aliás, a apresentadora/diretora fez questão de afirmar, para justificar o facto de o acusado de violência doméstica não ter sido, como era exigido pela CIG e por tantos outros, retirado do programa, que todos os concorrentes estão a ser "avaliados diariamente" por uma equipa de médicos. Com esta afirmação, que repetiu por duas vezes, Cristina Ferreira quis certificar que não houve crime, que nenhum mal estava ali a ser causado à concorrente em causa, e que é tudo macaquinhos no sótão e "ódio" - usou esta palavra - de quem denunciou.

Para além de levantar assim uma questão deontológica interessantíssima à Ordem dos Médicos - quem raio são estes clínicos aos quais a produtora Endemol e o canal TVI imputam a decisão sobre a manutenção ou não de um acusado de violência doméstica num programa - Cristina Ferreira tornou assim claras, clarividentes, várias coisas.

Uma é que tudo o que disse sobre não se arrogar "julgar" é mesmo uma grande treta. Tão grande a treta que quem como eu seguiu ontem - por uma vez na vida, por razões profissionais, e para nunca mais, tal o nó nas tripas - toda a emissão da "gala" até ao fim teve oportunidade de ouvir a voz que faz de "grande irmão", ou seja, de ente que tudo vê e ouve, assegurar aos concorrentes que restaram após a expulsão ritual do acusado "por vontade do público" (claro, era preciso "entregar a decisão aos portugueses" para fazer render o suspense) que a concorrente alegadamente vítima estaria "com certeza" disponível para testemunhar a favor do expulso no eventual inquérito criminal.

O que nos leva a outra das evidências: ao questionar a concorrente sobre se se considera vítima, Cristina Ferreira sabia o que ela ia responder - jamais correriam, ela e o canal, o risco de serem acusados em direto de propiciarem, com a sua inação, um crime continuado.

E, por fim, que, alinhando com o discurso habitual dos agressores - que se queixam sempre de serem uns inocentes incompreendidos alvo de vinganças ou conspirações - Cristina Ferreira quis transformar a denúncia de que o concorrente e portanto o programa foram alvo numa questão de "ódio". Só faltou dizer a quem. Mas basta dar uma volta pelas redes sociais e ver as respostas dadas a quem denunciou para perceber: claro que é "ódio aos homens", "falta de peso", "frustração de mal amadas" - os insultos de sempre às feministas. "De puta para baixo", diria a Cristina Ferreira que vende livros à que faz gala da violência doméstica. Alguma vez terão falado?

 

 

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publicado às 17:45

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in jornal Público, 8/02/2022

"Manual de promoção e normalização do Chega" é o título do artigo de opinião que Maria João Marques publicou no jornal Público por vezes mordaz. Tenho alguma discordância em alguns pontos do artigo pela estratégia menos radical aque acho se deveria seguir no combate a este partido, sobretudo após as eleições.Todavia respeito a opinião da Maria João e, por isso mesmo, o publico no blog. Vejo André Ventura do Chega como um D. Quixote a investir contra o que ele pensa ser um moinho de vento, que é um maléfico gigante, a democracia, que deve ser combatido e derrubado.

Não é surpresa para mim a reação de parte da direita face ao Chega, sobretudo agora que tem um grupo parlamentar numeroso na Assembleia da República. Não me surpreende porque as mesmas pessoas que se dedicam à senda de normalizar (ou mesmo defender) a extrema-direita estão somente a replicar, tal qual, a reação que tiveram com a eleição e presidência de Donald Trump. Recordo-me bem destes tempos: foi com profundo horror que assisti à satisfação com o fenómeno Trump de pessoas que considerava politicamente próximas e, enfim, decentes.

Sabemos bem que a presidência Trump descambou numa tentativa de golpe de estado (atabalhoada, violenta e incompetente, é certo) com o objetivo de subverter resultados de eleições. Mostrando que os ataques à democracia da extrema-direita não são mera fanfarronice, mas incompatibilidade real com a convivência democrática. Os normalizadores do Chega sabem-no igualmente, e ainda assim persistem em repetir os pecados da direita americana. Não os devemos considerar inocentes e distraídos agentes políticos.

As tentativas de normalização e relativização do Chega são narrativas que vão em várias linhas, todas muito sonsas. Porque a direita que promove o Chega não quer assumir que o promove e que, na verdade, não se incomoda com nada que o partido propõe e representa. Quer manter a pertença à sociedade civilizada e polida enquanto age para abrir as portas ao mundo das cavernas.

A primeira narrativa de promoção, relativização e normalização do Chega é dirigida aos que se opõem com vigor ao Chega. Não é que o Chega seja coisa boa e de aroma floral e refrescante. Nada disso. É tudo péssimo. Uns grunhos do pior. Sucede que, infelizmente, os opositores do Chega são bem mais malvados. Maus, maus, mesmo retintamente maus são os socialistas e a esquerda no geral. Desses, sim, vem o verdadeiro perigo para a democracia. Mesmo a esquerda moderada, centrista, que governa com as contas públicas mais controladas da democracia é semelhante a Mao Zedong nos seus tempos de alucinação da Revolução Cultural. Pelo menos. Uns protocomunistas impenitentes, todos corruptos ou, no mínimo, cúmplices de corrupção. Perante isto, estas sensíveis almas veem-se obrigadas a ficar ao lado do Chega para combater o mal absoluto que é o socialismo. Não é que gostem, estão a ver? Lá agora. Mas o Chega é a inconveniência menor contra o perigo vermelho que vai destruir o nosso modo de vida.

Curiosamente (ou não), as críticas ferozes e virulentas que oferecem à esquerda nunca encontram simétrico em críticas (que não fazem) ao Chega. O partido é muito mau, claro, mas de forma difusa, nunca concretizada. A indignação que oferecem à aleivosa esquerda nunca é replicada para o Chega, que é, no máximo, admoestado afetuosamente como se de uma criança endiabrada se tratasse.

A segunda narrativa é novamente dirigida aos opositores daquele produto político tóxico. Péssimo, o Chega, estamos de acordo. Mas tenham paciência, fiquem lá calados, não protestem, porque qualquer contestação só serve para o Chega se vitimizar e beneficia-o. Portanto – querem fazer-nos acreditar estas luminárias da direita – temos de estar em silêncio para derrotar o Chega. Falar, protestar, denunciar, contrariar isso tudo só serve para lhes dar pontos.

O argumento é tão tonto que custa a acreditar como é feito por pessoas com ligações significantes aos partidos políticos de direita ou opinadores conhecidos que, supostamente, querem o seu nome respeitado. Pretende fazer crer que a forma eficaz de combater a extrema-direita é deixar o Chega propor as suas enormidades sem oposição. Tratar com extrema deferência e tolerância, e ademais de forma muito institucional, um partido que diz ser antissistema e almeja destruir o sistema. Porque, supostamente, tudo o que não seja facilitar a vida ao Chega rega-lhe e faz crescer o eleitorado. Combater o Chega é, garantem-nos, responder com silêncio às enormidades que crescentemente virão daquele partido. Deixar as suas propostas sem contraposição veemente.

Obviamente pretendem condicionar e calar quem se opõe ao Chega. E permitir a este partido não ser trucidado pela opinião pública, bem como deixar as calamidades que propõem passar como se de propostas normais se tratassem – afinal ninguém rasga as vestes com elas. Mas, pronto, fica melhor no CV fingir.

As mesmíssimas pessoas esclarecidas que agora argumentam para calar quem se opõe ao Chega diziam ser erros tremendos o ressurgimento do feminismo para responder aos ataques aos direitos das mulheres que Trump e aliados praticavam diariamente, o acicatar dos movimentos antirracistas perante a deflagrada retórica racista e por aí em diante com quaisquer contestatários. Nada de protestar contra eventuais tiradas ofensivas de Trump, porque ver os democratas, as mulheres e os negros de cabeça arrebitada e voz projetada espicaçava muito potenciais eleitores trumpistas que correriam a votar só para contrariar os contestatários. Viu-se.

A terceira narrativa de promoção, relativização e normalização do Chega vai na linha de dizer que temos de respeitar os eleitores do Chega e não devemos menorizar os seus deputados eleitos. Pobres dos eleitores do Chega, que estão cheios de zangas justificadas com a vida (sobretudo os das zonas endinheiradas de Cascais) e nós temos de respeitar muito estes estados de espírito. Claro que as mulheres, os imigrantes, os ciganos, os negros, os que recebem RSI, enfim, todos os alvos dos ataques torpes do Chega não merecem semelhante solidariedade e compreensão. Esses (regressemos aos parágrafos anteriores) devem ter paciência e permanecer calados. E oferecendo respeito a quem lhes quer suprimir os direitos, se faz favor. Do mesmo modo, a qualidade de todos os deputados pode ser posta em causa (desde logo pela extrema-direita), porém não se pode reputar de menos que intelectualmente brilhantes e tremendas boas pessoas os eleitos pelo Chega, entenderam?

O manual para normalizar a extrema-direita está em uso desde os tempos de Trump. A única novidade é termos cá pessoas dos partidos ditos de direita democrática tomando as dores do Chega, partido que nem sequer é o seu, para o defender dos mauzões da esquerda. A IL em peso tomou para si a causa da eleição de um vice-presidente da Assembleia da República do Chega. Pessoas do PSD (e do defunto CDS) igualmente. Bom, é uma tomada de posição ideológica, política, de escolha de lados. Fica anotado.

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publicado às 17:51

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Começo por citar uma passagem do livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu:

“Não permitas que o inimigo tome a dianteira… Qualquer negligência nesse sentido pode ter consequências nefastas. Em geral, só há desvantagem em ocupar o terreno depois do adversário”; “se os seus métodos de comando (do general) são inflexíveis, se examina as situações de acordo com esquemas prévios, se toma as suas resoluções de maneira mecânica, é indigno de comandar.”.

António Costa está a dar vantagem ao estar a ocupar o “terreno” antes do adversário. Está a dar a possibilidade para o adversário (o CHEGA) atacar por antecipação.

Não li a entrevista completa que Ângelo Correia deu à TSF-DN, pelo que apenas me refiro a uma frase que ele disse: "António Costa está a criar um mártir que se chama Chega".

Foi uma ideia que após o PS ter ganho as eleições me passou pela cabeça a seguir às palavras de António Costa quando disse que não iria   ouvir o CHEGA.  O primeiro-ministro, António Costa, começou a ouvir na quarta-feira vários setores da sociedade civil, estando prevista uma reunião com cada um dos partidos com representação parlamentar, à exceção do Chega.

Por outro lado, a comunicação social que se mostra porventura hipocritamente alarmada com a possibilidade de crescimento da extrema-direita, deu palco exagerado à questão da vice-presidência para a Assembleia da República caso que para as pessoas não tem muito interesse. Também sabemos que no Parlamento Europeu tem havido reações à extrema-direita. Como noticiou o jornal Público: “O “cordão sanitário” em torno dos representantes dos partidos de extrema-direita da UE voltou a funcionar na eleição da presidente e vice-presidentes do Parlamento Europeu e das comissões e subcomissões, a 18 de janeiro. Todos os candidatos do grupo Identidade e Democracia falharam a eleição por voto secreto.”.

Ângelo Correia deu o mote para que o CHEGA de vítima possa passar a reivindicar o título de mártir. Contudo, concordo em parte, com ele. António Costa tem que ter, como teve até aqui, a agilidade/estratégia política de, por vezes, saber engolir sapos vivos e fazer disso uma estratégia política sem abalar as suas convicções.

A democracia é frágil. É do conhecimento que, mesmo em democracias consolidadas e aparentemente robustas, é possível eleger governos de partidos que podem vir a ser uma espécie de associação extremista de direita e conseguir manter pelo populismo o apoio entusiástico de uma parte considerável das pessoas.A democracia deve estar atenta aos que investem contra ela por ser um empecilho aos seus desígnios e, quais D. Quixotes, veem nela um perigoso gigante a abater.

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Na política, por vezes, há que deixar que esses mostrem que são grandes D. Quixotes a lutar contra a democracia liberal representativa, a que chamam o sistema a derrubar que, para eles, é o seu principal inimigo.

Temos que encarar a realidade de que houve uma parcela significativa do povo que, conscientemente, ou não, votou num D. Quixote e nos seus Sanchos Pança e lhes colocou uma lança na mão.

Um político estratega que defenda a democracia não deve querer confrontar-se sozinho contra D. Quixotes para os quais, por uma espécie de doença mental, a democracia é, qual moinho, um obstáculo a derrubar. Contudo deve notar-se que não podemos deixar de estar atentos a essa doença porque o perigo existe e é alimentado pelos escândalos de corrupção, pelo clientelismo, pelas promessas não cumpridas, pela promiscuidade entre políticos, poder económico e jornalistas, pelo amiguismo que assombram as elites e passam impunes que geram o populismo que é sintoma da fraqueza democrática.  

Uma formação política que parecia insignificante transformou-se em dois anos na terceira força política em Portugal. Esta extrema-direita extremista parece estar a erguer-se sem dificuldade, com a coresponsabilidade da direita moderada que, à falta do poder e sem maioria, lá vai aceitando migalhas que, afinal, são restos do pão fabricado com a sua própria massa.

Os partidos democráticos da esquerda à direita parecem não estar a sentir o ar que se respira na Europa e que exala para o lado de cá. Os partidos da direita parecem preocupar-se mais com um partido democrático que dá pelo nome de “socialista” e mostram a incapacidade de travar uma mistura explosiva nascida da sua área. Como não querem ser a consequência lançam a causa para outros com disparates como este: “O PS já percebeu: é preciso que o partido de Ventura cresça muito mais, para ser inevitável à direita, com a consequente consolidação nos socialistas quer do voto flutuante do centro quer do voto útil da esquerda.”

Não podemos, nós, portugueses, ser a sobremesa dos partidos radicais da extrema-direita que aproveitam para crescer a partir de sentimentos dos cidadãos que respeitam os valores mais conservadores e tradicionais associados à crise económica como a perda da individualidade, a família, a nação, a religião, a identidade sexual e outros modelos impulsionados por outro tipo de radicais, os de esquerda.

A direita e a esquerda atacam-se mutuamente com expressões de fascistas, “venezuelização”, chavistas do país, comunistas, coletivização e outros disparates do género. A direita, que diz ser democrata ataca o Partido Socialista que tem demonstrado desde a revolução de abril ser um dos garantes da democracia, tenta mostrar que existe o perigo do coletivismo e da perda da liberdade e outros vitupérios, que em nada tem a ver com a realidade vivida, alinhado com os partidos mais radicais da extrema-direita à medida das circunstâncias convenientes.

A direita, nomeadamente o PSD que diz ser um pilar e um dos fundadores da democracia, para poder chegar ao poder na Região Autónoma dos Açores fez acordos de incidência parlamentar com o CHEGA. Ou seja, PSD, CDS, PPM e CHEGA, viabilizaram um executivo regional, mas de entre eles há quem se recuse a aparecer em público com elementos do partido a que se juntaram. Recorde-se que André Ventura disse que não iria governar com partidos do sistema, mas por cá, no continente, pretende por todos os meios estar presente no sistema que diz querer combater, rejeitar e mudar.

Ventura nunca se acanhou de dizer que pretendia destruir o sistema por dentro, de prometer fazer tremer o sistema para construir uma nova república. Era a já conhecida estratégia utilizada por outros da mesma estirpe na Europa, destruir o sistema por dentro. Vemos agora e a tempo que a intenção era apenas metafórica: na verdade o que quer mesmo é lugares no sistema.

A melhor forma de destruir este tipo de partidos é deixá-los estar presente para depois, dentro do sistema onde se conseguiram instalar, os desmontar, mas, para tal, é necessário que todos os partidos que se dizem democráticos de direita e de esquerda se unam nesse objetivo e que a direita democrática que dá pelo nome de PSD se deixe de ambiguidades.

De qualquer modo penso que foi um erro estratégico de António Costa excluir o CHEGA na receção dos partidos. Receber e ouvir o outro não significa aceitar, pactuar, seguir, negociar seja o que for. É assim a diplomacia interna. Receber alguém para ouvir o que tem a dizer, ainda que de antemão já saibamos o que vamos ouvir, não significa tomar chá nem dançar o tango.

Está a dar-se força ao dito partido para uma atitude de mal dizer, gritar contra a marginalização a que foi sujeito e outras frases feitas que tenham impacto em que André Ventura se especializou para que se faça eco na comunicação social.

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publicado às 16:25

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…”quem diz que os votos do Chega se devem somar aos do PSD e da IL assume que o racismo, a xenofobia, o apoio a retrocessos civilizacionais e a vontade de destruir princípios básicos do estado de direito faz parte do património político da direita portuguesa. Não faz.”

(Pedro Marque Lopes, in Facebook)

Comentários e opiniões sobre a maioria absoluta do Partido Socialista arrastam-se no resultado das eleições de 30 de janeiro. Recomendações, regressos ao passado do “socratismo” pré-troika, da troika e do pós-troika. Ele são os cavaquistas; ele são os da crença num movimento profético que surgirá em Portugal pela mão “passista”; ele são os traumatizados que viram em 2015 uma maioria relativa, mas sem maioria parlamentar, desaparecer por via de uma “geringonça” que conduziu ao desaparecimento político de Passos Coelho; ele são os que, ainda a medo e aos poucos, vão clarificando as suas opções ideológicas extremista de direita; ele são os que pretendem colar os jovens aos votos na Iniciativa Liberal; eles são os que acusam os mais velhos de terem contribuído para a maioria absoluta do PS. Há-os para todos os gostos e feitios.

As minhas previsões para a política dos próximos quatro anos vão ser anos do tipo “annus horribilis”. Não consulto oráculos, não faço profecias,  nem tomo o lugar de Pítia portuguesa, mas os próximos anos vão ser extremamente ruins.

O Partido Socialista irá confrontar-se com o circo propagandístico do partido extremista CHEGA na Assembleia da República, com as violentas oposições que virão da direita e da esquerda e pelos apaixonados, emotivos e facciosos jornalistas, natas dos artigos de opinião, comentadores em muitos jornais, rádios, televisões e por aí fora.

Não perdem tempo basta lermos, vermos e ouvirmos o que se publica e se profere, e o que ainda se publicará e divulgará na comunicação social. A espécie de “perseguição” ao Governo proveniente da maioria absoluta não seguirá dentro de momentos já está no ar.

Um outro contributo para o possível annus horribilis virá do PCP cujo seu líder, Jerónimo de Sousa, já voltou ao apelo à “luta de massas”, (leia-se luta de classes) a que, por acréscimo, irá certamente juntar-se o BE. É o contributo “democrático” destes partidos. Quando perdem lançam-se numa espécie de “contra a decisão do povo”. Não aceitam o escrutínio eleitoral. É a ditadura das massas. Não aceitam a democracia tal como ela é, não assumem a derrota e ameaçam. Aliás Jerónimo não assume erros na campanha, apenas “desvantagens”, e apela à “luta de massas”.

Haverá momentos em que as direitas que se dizem contra a esquerda radical e contra a “geringonça” irão alinhar com as duas extremas-esquerda para causarem pressão sobre o governo socialista liberal que recusa o dualismo irredutível, que sempre recusou, e prefere, a integração e o compromisso como a principal maneira de escapar tanto da armadilha extremista da direita neoliberal, quanto da coletivista.

A imprensa politicamente de direita como o Observador, o Nascer do Sol, o Novo e outros jornais, rádios e televisões já estão a postos, na atual situação pós-eleitoral com opiniões e comentários editoriais, com as escolhas das personalidades que entrevistam e que, com mais veemência, criticarão e criticam o “socialismo”, e a “ditadura do PS” e de António Costa. Até agora que até agora têm estado mais preocupados com o estado do PSD e com a perspetiva da saída de Rui Rio. Alguns até estarão muito mais satisfeitos com o desastre do PSD e com a queda certa de Rui Rio do que com a maioria absoluta do PS.

Mas temos ainda a imprensa que aconchega os partidos radicais de direita que estão contra os mais elementares direitos. Será a bem de todos os portugueses ou apenas de alguns? Veja-se esta pérola publicada no jornal Nascer do Sol:

Qual medo da covid-19, qual quê? Medo, sim, é de perder a pensão, o subsídio de desemprego ou outra prestação assistencial qualquer, o Serviço Nacional de Saúde gratuito, a escola e os livros escolares e computadores à borla, a segurança do lugar e do vencimentozinho na Função Pública, o Estado-providência e redistribuidor da riqueza que é incapaz de gerar. O resto que se dane”.

O autor da opinião fala do ‘papão’ da direita liberal que se criou. Não se engana é mesmo. E pergunta no título “Quem tem medo do liberalismo?” A resposta é fácil, muitos milhões de portugueses.

Não me interessa neste caso o contexto donde foi retirada a citação, mas é de facto isto que os portugueses de norte a sul poderão esperar de partidos orientados contra os princípios mais elementares de vivência numa sociedade democrática lançaria centenas de milhares de pessoas num gueto social e numa pobreza ainda maior do que aquela já temos.

É de facto isto o que os liberais radicais de direita pretendem quando falam em reformas do Estado. Acabar com a assistência; acabar com o ensino público e pôr os jovens a pagar propinas no privado; acabar com o SNS ou mantê-lo apenas para indigentes e passar a saúde para o privado; reduzir reformas e, se possível, acabar com elas; reduzir o Estado e os seus trabalhadores, para que os dinheiros públicos sejam desviados para investimentos privados lucrativos que, em vez de criarem riqueza como dizem, geram lucros para distribuir por acionistas. Note-se que sou a favor da iniciativa privada enquanto geradora de riqueza, mas não com a que eles não dizem, mas que está nas entrelinhas.

Deparamo-nos com alguns dos tais fazedores de opinião a darem tratamento elogioso aos novos partidos radicais de direita que entraram na Assembleia e que falam em nome de uma “juventude” que mobilizaram e do seu dinamismo e que terão, presumivelmente, com esses partidos uma “nova”, e mais eficaz, oposição. Esta argumentação é mais evidente com a IL.

A atitude dos da IL é mais galante, mais simpática, deixando esbaterem-se as “linhas vermelhas” programáticas. Em comparação o Chega não tem compostura nas relações sociais, é grosseiro, raiando a agressividade e a má educação.

Mas o problema que se coloca é a da IL vir a ser um engodo para os jovens por os fazer pensar que, por exemplo, na profissão docente ou noutra qualquer, será a IL a dar-lhes melhores perspetivas de futuro. O neoliberalismo poderá trazer vantagem a uma reduzidíssima elite de "ganhadores" das start-ups, enquanto todos os outros, os "perdedores", ficarão cada vez mais pobres. Porque é óbvio que nem todos poderão ser empresários de sucesso e se limitarão a ser trabalhadores por conta de outrem que ficarão sem instrumentos de regulamentação de trabalho.

Foi a ameaça de um Estado e de uma economia neoliberal que levaram o povo a concentrar o voto no PS e a dar-lhe a maioria absoluta e isso Cotrim Figueiredo e muitos outros não terão percebido.

O Chega não é o “fofinho” da direita, procura a senda do retorno ao passado encoberto por alguns ajustes. Defende um conjunto de medidas que vão no caminho do ensino do passado cujos “conteúdos” foram vivenciados pelos mais velhos, mas que poderá atrair os mais novos a quem o passado nada diz por terem sempre vivido em liberdade.

O professor do programa é Gabriel Mithá Ribeiro (podem ver o que ele tem a dizer sobre o ensino aqui). Claramente tem defendido a valorização da ordem, da autoridade e da hierarquia, da família e da nação, combate ao valor da “solidariedade” trazido pelo 25 de Abril que para ele é um movimento secundário face à “autorresponsabilidade”, reabilitação da história colonial portuguesa e negacionista do racismo na atualidade.

Afinal podemos ter um espírito aberto e ao mesmo tempo crítico sem, contudo, acreditarmos em tudo o que nos dizem. Podemos fazer perguntas às quais ainda não nos deram respostas objetivas.

O que propõem, ou melhor, o que prometem estes partidos que dizem ter soluções para bem do país e do povo? Falam em reformas em sentido lato; falam na reforma dos Estado sem dizer em quê e como; falam em mudar a vida das pessoas (em quê e a quais pessoas?); falam em baixa de impostos sem dizerem como e quando o farão.

Outras perguntas se podem ainda fazer: como pensam os eleitores que aqueles partidos irão contribuir para melhorar a sua vida e a do povo em geral? Por que razões defendem com tanta veemência esses partidos os seus apoiantes? Como pensam que ficaria Portugal sob o domínio desses mesmos partidos? Para o justificarem adjetivo “melhor”, sem mais nada, não serve.

Que vantagens obteriam com maiorias destes partidos? A resposta tirar o socialismo do poder não serve.  O derrube do PS e de António Costa que vantagens traria para o país e para eles próprios? Estará esta gente preocupada com o país e com as pessoas que nele trabalham e vivem? Os órgãos de comunicação social de direita e de quem com ela se identifica estarão de facto preocupados com a vida dos portugueses em geral ou com apenas a de alguns?

As perguntas parecem ser redundantes, mas é mesmo assim. Naqueles partidos as propostas também são redundantes.

 

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publicado às 18:33

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Começa a não haver paciência para a leitura de certos artigos de opinião escritos após eleições, alguns que até chegam a ser ridículos. O objetivo destas opiniões é exclusivamente a desvalorização das perdas do partido ou partidos da simpatia dos articulistas, mesmo para os que, como eu, tentam fazer um distanciamento.

Após umas eleições para a maior parte dos partidos que ficam com assento no Parlamento, é sempre a mesma coisa. Há almas que buscam e rebuscam números que justifiquem que, apesar de terem perdido ganharam, e que garantam que os que ganharam afinal perderam. Isto é, tentam o milagre de fazer ganhar quem perdeu e de fazer perder quem ganhou.

Esta neste caso João Miguel Tavares no artigo de opinião no jornal Público que não foge à regra. Recorre à matemática ao estilo do torturem os números que eles confessam e recorre à lógica da evidência que, não sendo da batata, mostra que nada acrescenta ao resultado final para resolução da equação.

São os mesmos que criticam os partidos que, frente às câmaras de TV, dizem que afinal não perderam porque ganharam aqui e ali, mas que fazem agora o mesmo pegando em frases que podemos considerar como hiperbólicas ditas no calor da vitória assim como tudo quanto é dito e escrito em tempo de noite de eleições e durante o respetivo rescaldo.

Reparem nestes parágrafos do artigo de opinião que João Miguel Tavares publica no jornal Público onde pretende rescrever os resultados eleitorais, e contrariar o óbvio, ou, talvez pretender sugerir que  se deve mudar a “contabilidade” de modo que, no futuro, seja dada a vitória aos partidos com que mais simpatiza. Veja-se este parágrafo que ele escreve:

“Há três grandes enganos sobre a noite eleitoral que convém desmontar. Engano número 1: António Costa ganhou em toda a linha. Não ganhou. O PS perdeu muitos votos para a direita, nomeadamente para Rui Rio.”. Recorre a uma demonstração aritmética por conveniência: "Ajuda muito que seja verdade, por isso...". Acrescenta que a votação no PSD subiu 120 mil votos. A votação no PS subiu 338 mil. Juntos, o Bloco, o PCP e o PAN perderam 448 mil votos, apesar do aumento da participação eleitoral…”. “… o PS teve à sua disposição 436 mil votos perdidos pela esquerda, mais uma parte significativa do crescimento na população eleitoral (imaginemos 40%, 56 mil votos). Isso dá perto de meio milhão de votos a entrar no PS pela esquerda. Mas a subida foi só de 338 mil. Logo, António Costa teve pelo menos 160 mil votos a saírem pelo centro-direita…” E por aí fora. Não vale sequer a pena perder tempo com isto, mas o que podemos deduzir daqui é onde o PS foi buscar os votos. A pergunta que podemos deixar no ar é onde foram o IL e o CHEGA buscar votos? Terá sido ao CDS e ao PSD? João Miguel que responda.

Como se isto tivesse agora importância. O PSD conseguiu mais votos? Ainda bem que goze com isso. Que o PS teve menos votos, então consolem-se com os votos que dizem o PS ter perdido.

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publicado às 18:20

A derrocada do CDS

por Manuel_AR, em 02.02.22

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Não sou politólogo nem especialista em análise nem em comentário político, observo e avalio o que me chega pelos órgãos de comunicação social e por via dos intérpretes partidários numa perspetiva umas vezes emotiva, outras mais racional com isenção e distanciamento, o que às vezes nem sempre é possível. As minhas interpretações não partem de investigações empíricas ou de vivências partidárias, são apenas opiniões.

O que hoje me levou a desenvolver estas minhas reflexões foi o desaparecimento do CDS do círculo da política parlamentar que, apesar de nunca ter sido eleitor e ter sido bastante crítico deste partido acho que foi uma perda para a democracia, assim como foi mau para a democracia o surgimento desse simulacro de partido que dá pelo nome de Chega e que, mesmo numa ótica de extrema-direita, é uma aberração. Com todo o respeito pelas artes circenses, este partido a fazer política é como um circo de feira das mais rascas. Mas a democracia pluralista tem destes fenómenos a que ela própria tem de dar resposta.

Centrando-me no CDS e interrogo-me sobre as causas que terão levado a que este partido tenha desaparecido do Parlamento e que, se não houver quem o “agarre”, possa estar prestes a desaparecer da democracia.

Muitos analistas já estão a dissertar sobre as causas e apontam as mais sofisticadas razões para tal causa. Eu, tenho a minha dada pela observação ao longo do tempo. Há causas uma mais remotas   e outras mais recentes, é para estas que as interpretações, várias, apontam.

Para Cecília Meireles uma das causas que levou aos danos a que o partido ficou sujeito foi ter-se virado para dentro a discutir questões ideológicas em vez de discutir os problemas do país, o que, para ela, foi uma perda de tempo. Ela sendo militante do partido sabe as causas muito melhor do que eu. Todavia, olhando ao longo de algum tempo verifico que as causas podem remontar ao tempo da PaF quando o CDS fez uma coligação como PSD e acrescido pela trocas e baldrocas do líder do CDS-PP, Paulo Portas, ao revogar o irrevogável aquando  da sua inesperada demissão de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros abriu uma crise política em julho de 2013. Portas voltou atrás e ficou no Governo liderado pelo PSD como vice-primeiro-ministro.

Paulo Portas chegou ao Governo pela segunda vez após as legislativas de 5 de julho de 2011 após obter um dos melhores resultados para o CDS (11,7% e mais de 650 mil votos), que elegeu 24 deputados.

A gota de água para saída do líder do CDS do Governo foi na altura a escolha de Passos Coelho de Maria Luís Albuquerque para substituir Vítor Gaspar, que tinha apresentado a sua demissão. Paulo Portas queria um novo responsável na pasta das finanças.

Quatro dias após Paulo Portas ter apresentado ao então primeiro-ministro o seu pedido de demissão que seria “irrevogável” os líderes dos dois partidos que compunham a coligação chegaram a um acordo. Este incluía a manutenção de Portas no Governo, já não como ministro dos Negócios Estrangeiros, mas como vice-primeiro ministro. O irrevogável tornou-se não irrevogável.

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A ameaça de demissão por Paulo Portas provocou um mês de crise da qual o CDS não saiu ileso do episódio e teve numas sondagens o pior resultado. Nesse mesmo mês de julho, o CDS não conseguia mais do que 8,1% das intenções de voto, resultado negativo para o partido de Paulo Portas que nunca tinha registado um número tão baixo.

Após um mês de crise, provocada pela demissão de Paulo Portas do Governo, o CDS não terá saído incólume deste episódio e recebe dos portugueses o pior resultado desde o início do barómetro das sondagens.

As eleições legislativas de 2015 não deram à coligação PaF, (PSD com CDS), uma maioria absoluta e não foi mesmo conseguida com uma maioria parlamentar de direita tendo o PS e os partidos à sua esquerda conseguido a maioria de deputados. Na sequência da moção de rejeição apresentada pelo PS ao programa de governo da PaF foi aprovada, com votos a favor de todos os deputados de PS, PCP, BE, PEV e PAN (123). E votos contra de todos os deputados do PSD e do CDS (107). Não houve abstenções.

O CDS-PP liderado por Paulo Portas tinha concorrido em coligação com o PSD às legislativas de 4 de outubro de 2015, apesar da vitória, o PSD e o CDS-PP em conjunto tinham obtido 38,55% e perderam cerca de 722 mil votos relativamente às legislativas de 2011 quando concorreram separados. A coligação ficou com 104 deputados.

Em dezembro de 2015 Paulo Portas comunicou aos dirigentes partidários da comissão política do CDS que não ia recandidatar-se à liderança no próximo congresso que seria convocado em Conselho Nacional no dia 7 de janeiro de 2016.

Em janeiro de 2016 Assunção Cristas então vice-presidente do CDS-PP anunciou que seria candidata à liderança do partido no 26.º Congresso, que iria decidir a sucessão de Paulo Portas.

Assunção Cristas no XIX Governo, entre 2011 e 2013, tinha sido Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, e entre 2013 e 2015, Ministra da Agricultura e do Mar. Assunção Cristas foi responsável pela introdução, em 2013, de uma política que facilitou a plantação de eucaliptos em Portugal, acabando com muitas das restrições existentes anteriormente relativas ao eucalipto.

Em 2012 Assunção Cristas foi mentora da Lei do Arrendamento. Como jurista sabia bem das consequências desta norma que aplicada terá causada que milhares de inquilinos serem despejados ou obrigados a abandonar as suas casas pelo excessivo aumento das rendas que alguns consideraram uma lei iníqua e cruel por colocar senhorios em total supremacia sobre os inquilinos.

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Em dezembro de 2015 o líder do CDS-PP, Paulo Portas comunicou que não se recandidataria à liderança do partido. A 12 e 13 de março de 2016 realizou-se o 26º Congresso, em Gondomar, no qual Assunção Cristas assumiu a presidência do partido que tinha concorrido em lista única, tendo sido reeleita presidente do CDS-PP no 27.º Congresso a 10 e 11 de março de 2018.

Terá começado aqui no seguimento da  demissão  de Portas a queda do CDS que Cristas não conseguiu segurar atempadamente. Foi no entanto o início da queda do CDS já com Assunção Cristas. Paulo Portas sentiu que iria ficar agarrado ao seu “irrevogável” e terá previsto o que se iria passar com o CDS, antecipou, assim, uma saída estratégica a tempo de poder vir a ser responsabilizado pelo descalabro do partido.

Em fevereiro de 2019 Cristas apresenta uma moção de censura ao Governo e dispara contra a esquerda e contra o PSD por apoiar o PS no parlamento e vai dizendo que recebeu manifestações de apoio relativas à moção de censura que o partido apresentava ao Governo. Lembrava que foi "uma decisão tomada por unanimidade na Comissão Executiva da CDS”. Entretanto o deputado socialista Ascenso Simões sugeria que a moção de censura do CDS-PP ao Governo fora motivada pelo "fantasma" da privatização do Pavilhão Atlântico no anterior Governo (PSD-CDS), processo em que Assunção Cristas teve responsabilidades como ministra.

Nas eleições legislativas em 6 de outubro de 2019 o CDS-PP obteve um escasso resultado de 4,22%, 221.774 votos o que lhe atribuíram apenas 5 deputados comparando com 2011 quando concorreu isolado quando conseguiu 11,7% e 24 deputados, a perda foi enorme.

Confirmando esta perda, uma hora e pouco depois do fecho das urnas das eleições de outubro Cristas pediu a realização de um congresso extraordinário e disse não se iria recandidatar. Neste 28.º Congresso realizado a 26 e 27 de janeiro de 2020 Francisco Rodrigues dos Santos foi eleito para a presidência do partido.

Em outubro de 2021 durante a polémica contra o líder do CDS Rodrigues dos Santos e para a marcação dum congresso o ex-dirigente do CDS Paulo Portas afirmava que faria tudo o que pudesse para não se desfiliar do partido. Afirmou ainda que a situação era "grave" e que "o líder de um partido democrático não cancela eleições internas" referia-se a Rodrigues dos Santos.

Por razões óbvias, decorrentes do que afirmei anteriormente, a queda do CDS começou com a demissão de Paulo Portas e com Assunção Cristas a ocupar a liderança do partido. Paulo Portas terá previsto o que se iria passar e tomou a iniciativa de sair pela porta grande para não ser envolvido no desastre que antevia acontecer ao partido.

Em abril de 2019 é fundado o partido CHEGA de direita radical,  populista de direita que defende o liberalismo económico, o nacionalismo português, o conservadorismo nacional, conservadorismo social, o euroceticismo, o nativismo, é anti-imigração, anti ciganismo e o antifeminismo.

O surgimento deste partido que elegeu um deputado terá também sido uma causa próxima, senão a mais importante, da perda de votos do CDS e alguns do PSD, talvez devido à fuga para o novo partido dos que se encontravam acantonados naqueles partidos dos que com ele melhor se identificariam; o mesmo terá acontecido com a volatilidade de votos, sobretudo dos eleitores associados à incerteza e à imprevisibilidade que são mais sujeitos à manipulação e à demagogia.   

Tudo quanto se possa dizer para justificar o descalabro a que chegou o CDS nesta eleições não chega, há que investigar outras razões mais profundas e uma das possíveis respostas poderá estar não apenas no líder Francisco Rodrigues dos Santos, mas na volatibilidade do eleitorado para os novos partidos que entretanto surgiram e cuja linguagem fascizante atrai alguns e o IL cuja narrativa, embora clássica e ortodoxa de liberalismo que face à novidade terá atraído muitos jovens e gentes das classes mais altas que antes terão votado CDS ou PSD.  

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publicado às 18:54


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