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Dois pontos do artigo de Teresa de Sousa

por Manuel_AR, em 31.05.21

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In jornal Público 29 de maio de 2021

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“A vida humana não tem prazo de validade, mas o mais indigno foram os estereótipos com que a questão foi sendo tratada, incluindo na comunicação social. Os “velhos” – quer dizer, os que têm mais de 65 ou 70 anos – foram e são olhados como equivalentes a “inúteis”. Reformados, fechados nas suas casas, tendo como única ocupação olhar para os televisores e matar o tempo que lhes sobra. Nada disto é verdadeiro. A maioria das pessoas com 65 ou mais anos tem hoje uma vida activa, que inclui, muitas vezes, um trabalho exactamente igual aos outros nos mais variados sectores. A sua vida é tão activa como a de uma pessoa de 30 ou 40 anos. Vão ao supermercado, arrumam a casa, ajudam as famílias, vão ao cinema e ao teatro, lêem livros, frequentam os restaurantes. E trabalham. Mas, nessa altura, era “prioritário” vacinar um rapaz saudável de 30 anos, professor ou bombeiro, cheio de saúde.

Como interpretar isto? Ainda tenho dificuldade em perceber, a não ser recorrendo à ironia: resolver o problema da sustentabilidade do regime de pensões.”

 

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“Só uma nota final ao cuidado dos responsáveis. Já toda a gente reparou que, nas ruas de Lisboa, há hoje dois tipos de pessoas: os portugueses, todos de máscara, e os estrangeiros quase todos sem máscara. Nem no rosto nem na mão. Talvez no bolso, não sei. Cruzo-me com imensos. Nunca vi um agente da PSP chamar a atenção para o facto. Percebo que os turistas nos fazem falta. Mas talvez fosse conveniente – no aeroporto, nos hotéis, nos restaurantes ou a própria PSP – informá-los delicadamente de que a máscara na rua continua a ser obrigatória. Quando os cientistas nos explicam todos os dias o significado das variantes e como o vírus se vai adaptando aos graus de imunidade que encontra pela frente, talvez não fosse má ideia.”

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publicado às 19:24

Sporting a mais segurança a menos

por Manuel_AR, em 15.05.21

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Mas que o evento sportinguista foi uma argolada do presidente Medina e do ministro Cabrita que poderá custar votos ao PS, lá isso foi!

Durante ano e meio contivemos a avidez de passeios, viagens, cultos religiosos, cultura, gastronomia por entre outros apetites humanos para que, em algumas horas o esforço se tenha desvanecido com a desbunda do festejo sportinguista (foi este o clube o mesmo seria com outro qualquer) com o risco de pagarmos mais tarde com a saúde pública causa potenciam da dita “manifestação” requerida pela claque sportinguista e autorizada pelas autoridades.

Manifestação? Mas que manifestação estava implícita no pedido!? Não! A palavra manifestação serviu apenas para “fintar” as autoridades com base numa interpretação falaciosa de um artigo da Constituição da República.

Segundo o Notícias ao Minuto, Bruno Pereira, do sindicato da PSP, “deu também conta que a festa junto ao estádio do Sporting foi feita depois de um pedido de autorização ao abrigo do direito à manifestação feito pela Juve Leo à Câmara de Lisboa. Segundo o vice-presidente do sindicato que representa os oficiais da PSP, o pedido de autorização inclui a indicação de que seriam montados uma infraestrutura com painéis audiovisuais e um disco jóquei.”. "Sobre isso a PSP também tomou uma posição quando auscultada pela câmara, dando nota de que esses elementos poderiam ser claramente potenciadores de uma concentração ainda maior do que aquela que já era previsível", afirmou, salientando que a PSP recomendou que não fosse instalado o écran gigante.” Isto é, a Câmara esteve a tramar-se para as recomendações da PSP. Vamos lá saber porquê? Tempo de campanha eleitoral autárquica para atrair votos de adeptos do sporting com potenciais custos para a saúde pública.

Nesta senda, e mais uma vez, surge um ministro, o da Administração Interna e a Câmara de Lisboa com o seu presidente Medina que diz haver um mail com o parecer da PSP que se terá perdido!!(?)

A culpa não estará no Sporting nem na claque Juve Leo mas nas autoridades, porque o que se passou era previsível. Só por desleixo ou incompetência é que as autoridades policiais e o Ministério da Administração Interna não soubessem o que estava em causa. Se não o sabiam então é por incompetência e se sabiam então foi por demissão das suas responsabilidades.

A Câmara de Lisboa tem a tutela sobre a Polícia Municipal e, em vez de promover os festejos de forma responsável e contida, promoveu o contrário com ecrãs fora do estádio e um cortejo de autocarros. É um desprezo completo por todos os portugueses e pelo que têm vindo a fazer, apesar de alguma violência exercida sobre as suas liberdades, embora que assumida. É uma demonstração de que há atividades e pessoas que estão acima da lei.

Sobre o que aconteceu tenho que concordar com Francisco Mendes da Silva do CDS-PP quando escreveu no Público que “o maior problema continua a ser a leveza excessiva com que o Governo brinca com a autoridade do Estado. Quando impõe medidas duras de confinamento e fecho da economia, que põem em causa a liberdade e o sustento das pessoas, o Estado deve ter a sua autoridade moral intacta. Caso contrário, é natural que as pessoas deixem de acreditar na necessidade das medidas de saúde pública. Depois do que aconteceu esta semana, o Governo não se pode admirar que os sectores mais afectados pela pandemia, da restauração aos eventos, estejam já a exigir o fim das restrições”. E, mais adiante acrescenta que “o Governo aprecia muito pouco ter de lidar com as contrariedades. Quando algo importante corre visivelmente mal, o instinto do Governo nunca é o de assumir a responsabilidade do Estado e de reafirmar a sua autoridade. É sempre o de sacudir a água do capote. Desta vez, a culpa foi descarregada sobre a PSP, que já tem um processo de averiguações com que se entreter, apesar de ter sido a única instituição a alertar para o perigo do que estava a ser preparado”.

A manifestação sportinguista é um ponto com que o dito ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, tem andado a brincar às escondidas, mas que Sousa Tavares destapa quando escreve num artigo de opinião que saiu no semanário Expresso desta semana:

“Há ministro? Não, há Cabrita. Eduardo Cabrita tornou-se uma anedota ambulante, um personagem que nem os autores do “Yes, Minister” teriam conseguido imaginar, tão grandiloquentemente vácuo ao ponto de meter dó. Tudo nele é a encarnação da inutilidade do poder, como aqueles objectos cujo volume se esgota quase todo no papel de embrulho. Adivinha-se que ensaia ao espelho poses e sentenças que toma por sentido de Estado e que julga que governar é despejar dinheiro sobre qualquer problema para se ver livre dele. É assim que está convencido de que apaga incêndios, mantém activo o SIRESP, faz esquecer o assassínio de Ihor Homeniuk ou elege presidentes. Em cada oportunidade, também não se dispensou de se chegar à frente nas fotografias e insinuar que estava na linha da frente da vigilância da nossa segurança colectiva durante a pandemia. Mas bastou uma noite — a noite do Sporting campeão — para que a tão anunciada operação montada pelas forças de segurança sob sua tutela e em planeamento concertado, diziam, com o Sporting e a DGS descambasse no espectáculo de absoluta anarquia que Lisboa viveu durante 12 horas. Andámos nós tantos meses, mais de um ano, a observar tantas regras de segurança, sem poder ir a espectáculos, ao futebol, a passear nos jardins, aqui e acolá, ainda proibidos de estarmos juntos mais de seis, de estar nos restaurantes até depois das 22h30, e dezenas de milhares de pessoas fazem o que querem da cidade, sem quaisquer medidas de segurança e sem que se veja sombra de plano algum para o precaver! E, perguntado sobre isto no Parlamento, o que diz o primeiro-ministro? Primeiro que tudo, “parabéns ao Sporting!” (dá votos e é politicamente correcto). Depois, que não vai “atirar pedras a ninguém”. E depois que o ministro Cabrita já fez um despacho para que lhe expliquem qual era o plano de segurança e por que razão ele não funcionou. Ou seja, afinal, o ministro não sabia de plano algum e fazendo um despacho a posteriori a perguntar qual era livra-se de responsabilidades! Faça a si mesmo um favor, sr. ministro: despache-se! Sousa Tavares que escreve de acordo com a antiga ortografia

Se Cabrita como se tem dito é amigo de António Costa, mais uma razão para se exigirem responsabilidades. Ser amigo e exercer funções como as que Cabrita ou outro qualquer elemento do Governo exerça é razão mais do que suficiente para o exercício da competência. Não é apenas o merecimento da confiança de um primeiro-ministro que lha confere.  

Por outro lado, não será a demissão do ministro Eduardo Cabrita que irá contribuir para a resolução dos inúmeros problemas com que o Governo terá de se confrontar até às próximas legislativas. Um ministro bode expiatório fará sempre falta e poderá ser um fator distrator para a oposição fazer figura, deixando de lado outros problemas mais importantes.

Mas que o evento sportinguista foi uma argolada do presidente Medina e do ministro Cabrita que poderá custar votos ao PS, lá isso foi!

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publicado às 19:11

O trio de Odemira e do sudoeste alentejano

por Manuel_AR, em 08.05.21

 

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Não, não lhes vou falar do Trio Odemirada que surgiu em 1955, primeiro a dois que depois passou a trio com a entrada de um terceiro elemento que, em 2019, celebrou os 60 anos de carreira. Vou falar de um trio, este não musical, que se instalou em Odemira em que os seus elementos são protagonistas e coniventes pelo que se passa no sudoeste alentejano.

No concelho de Odemira os referidos protagonistas dos acontecimentos chegaram à ribalta, não fosse a covid-19. Mas deixemo-nos de graças porque a coisa é agreste lá para aquelas bandas.

É um trio da irresponsabilidade, da indiferença, do deixa andar, dos culpados, como queiram.

Os elementos do trio que protagonizam a desgraça são: em primeiro lugar os empresários agroindustriais que lançam para o ar o chavão “criamos riqueza”, seja lá o que eles entendam por isso, mas apenas quando lhes convém. São áreas extensíssimas de estufas que empregam mão de obra com facilidade de adaptação, por necessidade de sobrevivência, à exploração. São os trabalhadores usados para criar riqueza, resta saber para quem, (não, não sou contra a iniciativa privada, bem pelo contrário, mas há a ética, meus senhores, a ética!);

O segundo elemento do trio são os imigrantes que trabalham naqueles empreendimentos que vivem em condições de trabalho e de habitabilidade impensáveis e desumanas na segunda década do século XXI;

O terceiro elemento do trio é o Governo e os ministérios, instituições e organismos por ele tutelados que deveriam supervisionar, dentro das suas competências, e fiscalizar os dois anteriores elementos do trio.

Não fosse a gravidade da situação causada pela covid-19 os factos relacionados com imigração ilegal, tráfego humano, escravatura versão século XXI, condições de habitabilidade indignas para seres humanos e exploração salarial que vieram para a opinião pública continuariam bem guardados no segredo das gavetas. Só agora alguma comunicação social acordou para o pesadelo comentando, relatando e produzindo peças ditas de investigação para telespectador ver e, por vezes, até confundir. Segura o tema porque também é um “postigo” de comunicação por onde possa atacar o governo socialista. Afirmar que, daqui para a frente, a imagem do Zmar ficará degradada com o anátema de um covidário, é demagógico e, no mínimo, ridículo.

Miguel Sousa Tavares, já tinha denunciado esta situação num artigo de opinião publicado no semanário Expresso em fevereiro de 2021 onde escreveu: “… E, além disso, tudo contribui para as exportações, não interessando saber também se, nos olivais do Alqueva ou nas estufas do Mira, todos os trabalhadores são estrangeiros e a maior parte das empresas também, tirando partido de infraestruturas pagas pelos contribuintes portugueses, de água subsidiada pelos contribuintes portugueses e de subsídios ao investimento com dinheiro europeu do qual parte é nossa.

Mas seria de facto curioso fazer as contas e perceber quanto do saldo final dessas exportações representam lucros que ficam cá, impostos e contribuições sociais que se pagam aqui. Para que desta agricultura industrial não fique apenas o rasto de uma situação social que nos envergonha e um desastre ambiental e paisagístico como aquele que cada vez mais vai crescendo no Alentejo.”.

E, acrescenta que: “Qualquer ministro da Agricultura responsável estaria em pânico com o que se está a passar no Alentejo com as culturas superintensivas de olival e amendoal à conta da água do Alqueva e com as estufas do Sudoeste à conta da exaurida barragem de Santa Clara…”

Para finalizar pergunto eu:

Alguém acredita que a freguesia do concelho de Odemira, em cerca sanitária nos próximos meses, será um destino turístico preferencial como é justificado pelos gerentes do resort Zmar(?) que se opuseram e opõe à requisição civil para alojamento dos trabalhadores das empresas agrícola? Eu não!

Alguém acredita que haja uma depreciação económica do resort Zmar, projeto que está à beira da falência, afastará a possibilidade de um possível investidor tal como foi dramatizado pelos ditos proprietários do Zmar? Eu não!

Alguém acreditou que a requisição civil incidiria também na imaginada ocupação das casas de férias dos proprietários? Eu, não!

Alguém acredita que os donos de restaurantes, que vivem situações seguramente muito mais dramáticas do que os donos do projeto Zmar, na prática falido, também sofreram as consequências da prioridade à saúde pública para não falar de todos os que perderam o emprego nessa área? Eu, sim!

A explosão de posições públicas dadas pela comunicação social incidiu sobre o resort Zmar mas, sobretudo, pelo regime de semiescravidão em que trabalhadores imigrantes se encontram, que foi obsequiada ao longo de anos com o silêncio sobre a vergonha da exploração de seres humanos sem que lhes seja garantido o mínimo de direitos em troca do trabalho que contribui para a nossa economia.

Vergonha é a palavra tantas vezes proferida por André Ventura do Chega mesmo a despropósito, mas que agora viria a propósito aplicá-la faz vistinhas de circunstância eleitoral, ele e outros que se lhe juntam, como o IL e o CDS. Talvez para eles a exploração de imigrantes não seja uma vergonha para o país.

A responsabilidade não é do Estado, é de quem o gere e o geriu e que não apenas do atual governo. É, sobretudo, da direita que nos governaram nas últimas décadas.  A dignidades daquelas pessoas só foi vista como um problema quando pôs em perigo a nossa saúde. Bem pode agora a direita apontar o dedo ao Governo, que a tem em parte, mas também foram cúmplices no seu tempo de governação do que se passa agora. Porque isto é apenas a ponta do iceberg que a covid-19 tornou ainda mais visível.  

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publicado às 19:27


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