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A desgarrada de Carlos Moedas para Lisboa

por Manuel_AR, em 26.04.21

 

Carlos Moedas_Lisboa (4).png

Começou o "ciclo preparatório" para as eleições autárquicas numa espécie de desgarrada. A Operação Marquês e o alvo Ivo Rosa parece terem iniciado a contenda entre os pretendem ganhar as autárquicas o PS e Rui Rio que vai ter a cabeça a prémio se não as ganhar e ainda a extrema-direita que aposta com tudo o tem à sua mão: o populismo e libertinagem discursiva.  

Surgiu um caso com a PJ a fazer buscas na Câmara de Lisboa por suspeitas de corrupção no departamento de Urbanismo, notícia avançada pelo Observador, claro, nem podia deixar de ser, e confirmada pelo PÚBLICO “junto de fonte da Polícia Judiciária, que acrescentou que as buscas estão relacionadas com suspeitas de corrupção e crimes conexos.”.

Tempo oportuno que se segue ao tempo Sócrates da Operação Marquês. A direita anda ávida de poder também meter a mão no pote porque há muito tempo que tem perdido a oportunidade e a coisa parece estar agreste. Se perder as próximas eleições fica mais uma série de anos em dieta forçada.

Se havia suspeitas de corrupção na Câmara de Lisboa no que respeita aos processos na mira da polícia que se referem à Torre de Picoas, Hospital da Luz, Segunda Circular e o projeto para os terrenos da antiga Feira Popular, entre outros, porque só agora houve suspeitas e denúncias tiradas das gavetas onde estavam a aguardar desde julho de 2017?

Dizem por aí alguns que há o tempo de justiça e o tempo da política. Não há maior falácia! Estes dois tempos são, conforme as conveniências da política partidária, sincrónicos. Muitos dirão: isso são puras coincidências! A questão que eu coloco é a de saber se em política houve ou haverá alguma vez coincidências! Nós o povinho é que andamos enganados, pelo menos alguns. Pois, estou mesmo a ver aos que lhes convém que sejam coincidências a dizer: este tem a mania da teoria da conspiração. Interessa-lhes isso porque a coincidência serve os seus propósitos.

O que levantam hoje vozes, quais arautos que berram contra a corrupção e a favor da punição na praça pública, são os mesmo que quando a direita está no poleiro do poder silenciam, com ajuda dos media seus lacaios, os seus impolutos adeptos que fazem negócios a que chamam práticas normais da aplicação política para bem da nação. Se há algum caso que venha à tona, num ápice deixa de ser notícia e evaporiza-se até que o seu impacto deixe de ter efeitos nefastos. A insistência na repetição dos factos suaviza-se, esvai-se como se se tratasse de notícia de segunda ou terceira escolha.  

Hoje o caso que veio ao de cima é uma espécie de moeda de troca. Carlos Moedas, em março do corrente ano, disse que foi chamado à comissão do Novo Banco por ser candidato a Lisboa.

A represália veio de seguida e num comunicado em relação às buscas da Polícia Judiciária à Câmara de Lisboa Carlos Moedas, defendeu esta terça-feira em comunicado que “Não são apenas os comportamentos do ex-primeiro-ministro José Sócrates que corroem o funcionamento da democracia. A suspeita em volta da atuação política na CML [Câmara Municipal de Lisboa] também corrói e, a confirmar-se, revela uma forma de governar a cidade que considero absolutamente inaceitável”. Antes do apuramento da culpa faz logo o julgamento e a condenação.

Para quem afirmou em entrevista ao polígrafo da SIC, quando foi confrontado com afirmações sobre a intervenção dele no caso BES e GES, respondeu que a sua forma de fazer política é diferente e que “eu não vou fazer política assim”. Estamos a ver! Por outro lado, a partir desta entrevista Moedas fez publicar no Youtube a mesma entrevista truncada e com inserções de planos e afirmações que não pertenciam à entrevista.

Carlos Moedas, com o seu discurso pausado na argumentação e de voz calma, pretende dar ao eleitorado uma imagem de seriedade, de politicamente correto, de comportamento em política manifestado pela diferença que, afinal, está a começar a desmoronar-se. E isto é apenas o início, porque Carlos Moedas não tem um projeto para Lisboa, tem um projeto demagógico e irrealista e, consequentemente, inexequível a pelo menos a curto prazo.

 

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publicado às 16:17

No 25 de Abril, a celebração da liberdade passa por estas 25 sugestões | 25  de Abril | PÚBLICO

Imagem do jornal Público

Alguns panfletos da Revolução do 25 de Abril de 1974

 

Comemorando o 25 de Abril de 1974 aqui ficam alguns panfletos que circularam durante este período e que

 Podem ser consultados aqui

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publicado às 16:16

Troika dez anos depois (4).png

O pedido de ajuda internacional a Portugal que há dez ano deu lugar à intervenção da” troika” foi recordado através de vários artigos publicados na imprensa na primeira semana de abril (em 6 de abril 2021).

Para a direita, na altura no poder com a coligação PSD/CDS, a vinda foi abençoada pois seria essa a oportunidade de pôr em prática o plano neoliberal do PSD e do CDS porque facilitava a aplicação do projeto neoliberal de Passos Coelho e dos seus capangas que há muito traziam na manga. Para outros que não os desse lado, foi a tormenta que lhes abalou o bolso e a dignidade, para outros ainda foram o PS e José Sócrates os grandes causadores que trouxeram a “troika” a Portugal com os aplausos da direita pois era a oportunidade que lhes faltava.

Sobre aquele tempo de má memória escrevem-se agora várias narrativas. Apenas tive oportunidade de ler alguns artigos a que me irei referir.

Comecemos por Paulo Rangel, o reviravoltas de opiniões consoante lhe dita o seu interesse. Colocando de lado a argumentação e as suas retóricas constitucionalistas a que se refere num artigo vamos de facto ao que interessa.

O que Rangel defende é a constitucionalidade da aprovação no parlamento dos apoios sociais por uma maioria negativa entre a direita e parte da esquerda a qual gerou polémica por ser contrária aos pontos de vista do Primeiro-Ministro que contrariou o do Presidente da República. O que se estranha é que a direita, juntamente com a esquerda mais radical, tenha aprovado apoios sociais quando ela, a direita, por princípio, está sempre contra este tipo de apoios.

Rangel acusa o primeiro-ministro António Costa de ter políticas calvinistas, isto é, de não abrir os cordões à bolsa para pagar apoios sociais. Há um apagão de memória assumido por parte de quem, no passado, apoiava medidas e políticas calvinistas em questões de apoios sociais e cortes em salários e pensões. Sem qualquer pudor, aquele douto jurista / advogado / deputado europeu do PSD/ antigo apoiante incondicional de Passos Coelho / agora apoiante incondicional de Rui Rio, vem defender, legitimar e enaltecer a coligação negativa, situação que ele acha absolutamente defensável.

Leia-se o que ele escreveu com a epígrafe “Apoios sociais: o “calvinismo constitucional” de Costa”: “O que não se afigura normal e provocou este pico de tensão política é a dramatização que encenou o primeiro-ministro, focada no ataque ao Presidente Marcelo. É, por isso, muito infeliz e claramente enviesado o uso e abuso da expressão “coligação negativa”. No caso dos apoios sociais, ela é até uma coligação “pela positiva”, já que não rejeita ou impede nada.

É a justificação do injustificável com a cuspidela de víbora acicatando as relações institucionais, mas daquele senhor tudo se espera até inverosímil.

Façamos agora uma retrospetiva do que também foi escrito e dito pela imprensa na efeméride da troika. Há para todos os gostos.

Teixeira do Santos, para mim um dos responsáveis da vinda da troika afirmou que "Portugal, de 2011 até agora, foi consistente e mostrou rigor nas contas públicas" e que "Os mercados já não olharão para nós como há 10 anos".

Outros escreveram que “Portugal continua a apresentar debilidades estruturais que o deixam à mercê da irracionalidade dos mercados ou de uma mudança de política monetária”.

“Portugal pediu ajuda internacional há precisamente dez anos. Numa década, o país aplicou medidas de austeridade e tentou livrar-se delas a seguir. Mas há marcas da troika que ficaram”.

Com o título de Troika: “Isto é só um intervalo” escreveu-se que “Portugal continua a apresentar debilidades estruturais que o deixam à mercê da irracionalidade dos mercados ou de uma mudança de política monetária”.

“Há dez anos, o Governo socialista pedia ajuda financeira externa, mas o programa foi aplicado pela coligação PSD/CDS. Decisões impopulares como aumentos de impostos ou a redução da TSU deixaram marcas no centro-direita”.

“Deixar o país condicionado à receita preferida das entidades financiadoras é um atestado de menoridade à nossa soberania democrática. Apesar de todas as divergências que nos separam, temos de ser nós a arrumar a casa. Sob pena de outros o fazerem por nós”.

Quem o lado liberal defende escreveu com o título “Criatividade política e rebaldaria orçamental” que “Em termos constitucionais, sim, é a oficialização da rebaldaria orçamental – só que essa rebaldaria já existe, em termos políticos, desde 2015. É por isso que o presidente está errado, estando, ao mesmo tempo, certo”. Claro que sabemos a quem o articulista se refere ao referir desde 2015.

E assim se comemorou a vinda da troika que José Sócrates, com o beneplácito do então ministro das finanças Teixeira dos Santos, proporcionou para vanglória da direita.

 

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publicado às 18:52

Os Cinco Sentidos

por Manuel_AR, em 21.04.21

Cinco sentidos.png

Imagem RTP – Cinco sentidos

Encontrei as folhas que abaixo transcrevo no meio de uns livros da minha estante. São originais inéditos que ficaram por aqui desde a altura em que Maria Isabel Moura vinha de Espinho até Lisboa para finalizar as suas escritas. Com a devida autorização da autora resolvi divulgar e tornar públicas aquelas folhas.

São cinco folhas dedicadas aos cinco sentidos, um exercício de escrita naïf pleno de criatividade expressiva. São diálogos simples, mas com uma força que revela a complexidade dos sentidos que  nos leva à imaginação do dano que nos causaria a sua perda.

Seguem-se mais quatro folhas, uma espécie de continuidade dos cinco sentidos na perspetiva duma aplicação ritualizada.

Maria Isabel Moura nasceu na Covilhã, em 1955. Cresceu e interessou-se pela leitura na aldeia dos Trinta, no distrito da Guarda, em plena Serra da Estrela. Fez os seus estudos no Colégio do Ramalhão  instalado no antigo Palácio do Ramalhão, em Sintra,  com a sua serra e neblinas,  palácio onde reis e rainhas arrastaram saias, paixões, sofrimentos, loucuras e exílios. Colaborou com Jornal do Fundão e o seu trabalho sempre foi com Matos Costa, ilustrador constante das suas obras e companheiro de vida.

Em Espinho, junto ao mar, viveu anos e anos respirando a maresia e o bulício do verão que os turistas causavam ao sossego da cidade. Frequentava Lisboa onde, com avidez, procurava a intelectualidade dos amigos. Reside atualmente em Guimarães, cidade onde continua a sonhar.  

Isabel Moura-foto1 (2).png

 

 

Isabel Moura (1).png

 

Da mesma autora já foram publicados os seguintes títulos:

Vinte maneiras diferentes de contar a mesma história

Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 1998;

Isabel Moura-1.png

 

Vou dar pontapés na Lua, contos infantis, Edições Afrontamento, 2004.

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 3º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.

Isabel Moura-2 (1).png

 

 

Todo o começo é involuntário, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Editorial Teorema, 2001;

 

Isabel Moura-3.png

 

 

 

OS CINCO SENTIDOS

A VISÃO

- Que cor é aquela?

- Não me lembro do nome. Não é azul… é outra coisa...

- Espera! Espera aí! Papoilas são vermelhas, malmequeres brancos e amarelos… Violeta! Aquela cor é violeta. Como as flores.

- Já pensaste como seria o mundo se a gente não visse as cores?

- Não. Nunca…

- E...

 - E é como aquelas fotografias antigas, em que é tudo castanho, não dá para ver se é Verão ou Inverno…

- Já sei! É como uma fotografia que eu vi: o vestido era de Verão, mas atrás estava uma árvore de Natal!

- Pois é isso mesmo. Tem que se ter muita atenção, adivinhar tudo…

- Que trabalheira que isso dava. . .

- Sabes, há gente assim. Até tem um nome e tudo: daltónico.

- Dal... tó… ni... co…

- Pois, é como ser cego nas cores. É tudo igual!

- E isso pega-se? Pode-se apanhar?

- Acho que não… o meu tio é...

- E tu chegas-te ao pé dele, não tens medo?

- Conheço-o desde que. nasci... até me sentava no colo dele quando era pequenino... acho que não se pega.

-  E ele faz muitas asneiras? Quero dizer, come a tarte em vez do empadão, coisas assim?

- Não!... Mas agora que falas nisso... já sei porque é que ele de vez em quando, veste esquisito. Julguei que era porque gostava. Até tem uns sapatos vermelhos!

- Uns vermelhos?!! Eu sempre quis ter uns sapatos vermelhos, mas a mãe não me deixa... E se eu lhe dizer que tenho isso, achas que ela mos dá?

- Se calhar...

- Então diz outra vez a palavra! Para eu não me esquecer.

 

O TACTO

- Eu conheço esta voz...     

- Eu também. É a do Leão.    

- O senhor Luís prendeu-o outra vez... porque será que ele

faz isso? ele é um bom cão. É bom no abraço…

- Não sei...    

- E meter as mãos com os dedos todos «abertos no pelo do

pescoço… é tão macio!   

- E esfregar a cara na parte detrás das orelhas!  

- Ah, isso não sei, nunca fiz.       

- É como quando se toca no musgo, devagarinho, com a ponta

dos dedos. Ou em veludo!     

- Eu gosto de tocar em cetim. É… é…doce! 

- A tia Clara tem uma blusa de cetim…, mas os beijos dela

picam!              

- E o tio Jaime arranha. Arranha como as árvores. 

- Porque será?      

- Acho que é porque tem muitos ossos. Acho que tem mais ossos 

que o resto das pessoas…     

- Se calhar é isso…  às vezes até tenho vontade de trepar 

por ele acima, como fazemos no castanheiro.  

- Sabes, outro dia o castanheiro quase que conseguiu abraçar-me de volta!

- E como é que ele fez isso?     

- Com a ajuda do vento. Esteve quase, quase. 

- Deve ser bom ser—se abraçado por uma árvore…   

- Pois, mas temos de lhe pedir agora, depois já não dá.   

- Porque será que quando se cresce essas coisas já não

acontecem?   acho que não se tem tempo para esperar.  

- Não sei... acho que não se tem tempo para esperar.       

 

A   AUDIÇÃO

- Que é isso?

- Isso o quê? 

- O que estás a cantar. 

- É a cantiga daquele pássaro. O preto, de bico amarelo,

aquele ali, naquele ramo.

- Não é nada! Isso é uma música do rádio!

- Não é não! Não é não. é a do passarinho.

- E os pássaros ouvem rádio?

- Não sei..., mas sei que se fosse eu a fazer as músicas do rádio as fazia assim.  

- Assim como? 

- Como nós estamos. Estendia-me no chão e ficava a ouvir.

- A ouvir os passarinhos? 

- Tudo! A ouvir o mundo. 

- Engraçado. . . aquele pardal acho que está a cantar com o teu

pássaro. 

- E o grilo com o vento. 

- E o vento com as árvores.

- Só falta pôr as palavras…, mas eu não tenho as palavras,

só a música. 

- E temos de pôr palavras redondas como o pássaro de bico

amarela, pontiagudas como o grilo, suaves como o vento...

- E tu, sabes essas palavras?

- Eu não..., mas o meu tio é poeta, ele sabe!

- E achas que ele se quer vir aqui deitar connosco?

 

O OLFACTO

  - Hummm!! Que cheirinho a violetas! Vamos procurá-las?

-  Porquê? Estamos tao bem assim…   

- Porque gosto de violetas. Quero fazer um raminho para levar para casa.

- Está bem…      

- Onde vais? O cheiro vem dali...    

- Desculpa... eu não sinto o cheiro.   

- Estás constipado?      

- Não… eu   sinto o cheiro de nada... não sei o que é isso.     

- Nada de nada?        

- Nada...         

- E quando o almoço é frango assado?   

- Já disse que não!      

 - Não te zangues. Mas que engraçado, é como se tu fosses cego do nariz!     

- Não é engraçado, não acho que seja!  

- Olha: eu vou-te ensinar os cheiros. As flores são doces, como gelados. o vinagre pica... frango assado é.… não, não sei explicar!     

- Tenta, tenta outra vez! Quero entender!  

- É muito difícil... olha, para veres como é difícil, vamos fingir que eu sou cega e explica-me as cores!

- Fácil: o vermelho é quente. O azul é suave, mesmo o azul-escuro da noite é…        

- Não sei o que é a noite.      

— Esqueci-me.… e então como é que eu explico?  

- Não sei... é muito difícil...    

- Olha, as violetas!      

- Já sei!  Vou andar com algodão no nariz para ele ficar cego também… só um bocadinho, para ver como é….          

            

O PALADAR

- Hiii!!!  Que chocolate grande tu tens aí no bolso!

- Ah, pois é! Já me tinha esquecido. Queres?

- Todo?!! Todo, todo, todo, todinho para mim?!! E tu? - Eu não quero. Eu não gosto de chocolate.

- Não gosto de chocolate, nem de bolos, nem de gelados... não gosto de coisas doces.

- Nem de gelados?

- Não acredito!  Toda a gente gosta de gelados!   

- Só de gelado de limão.

- Puahh!! Que porcaria. Ê azedo! 

- É nada! Faz piquinhos na língua como os pickles.

- E tu gostas de pickles?!  Que horror!  

- De pickles,    de empadão de carne, de presunto, de croquetes,  

de sardinhas, de caracóis. . .   

- De caracóis?! E as pessoas comem isso?! Puahhh!! Que porcaria! castanha de chocolate! Até ao nariz!

-É… e tu estás toda castanha de chocolate! Até ao nariz! Do nariz ao umbigo!

- Minha avó diz que gostos não se discutem… nunca tinha entendido... E gostas mesmo de caracóis? 

- E tu, de chocolate?   

- Ah, ah, ah!           

- Ah, ah, ah!           

- Olha, aquela nuvem parece um gelado, um gelado de morango    coberto de natas.   

- Que nada! É um empadão de carne.   

- Um bolo de chocolate! 

- Um frango estornicado!

- Corre, vamos para casa que vai chover!

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AMORAS

- Trouxeste o teu saco?      

- Não... esqueci-me…    

- E agora? Como vamos fazer?     

- Não sei...  tens alguma ideia?     

- Eu não…           

- Podemos metê-las no chapéu!    

- E depois? quando chegarmos a casa como vai ser?

- Posso dizer que o perdi…   

- Não podes não, as mães sabem sempre que mentimos.   

- Então empresta-me o teu saco!      

- Não posso… também me esqueci    .  

- Ah, ah, ah!!          

- De que te ris?        

- Como é que tu gostas de comer amoras?  

- Pretas, pretas.  Maduras!      

- Não é isso... onde é que tu gostas de comer amoras? 

- Aqui.  Logo que as apanho.     

- Eu também... em casa parece que não sabem tao bem... parece que deixam de ser doces...

- Nem são tao sumarentas... acho que -dei iam de- ter o sol dentro...

- É por isso que me estou a rir. Acho, que sem querer, nos esquecemos de propósito...

 

AS CORES

 

 

- De todas as cores do mundo, de qual gostas mais?

- Não sei...  nunca pensei nisso...

- Então pensa.

- Agora, agorinha mesmo, é do azul... só que não sei de qual azul... Uma vez pus-me a contar quantos azuis há no céu...

- E?

- Perdi a conta. Quanto mais se olha mais azuis há.   

- Engraçado, é mesmo... acho que há infindões! É como os verdes, também nunca mais acabam.

- E tu? De que cor gostas mais?      

- Do vermelho! Tenho uma camisola vermelha de que gosto muito, mas é muito quente, só se pode usar no Inverno... 

- Eu tinha uma amarela, mas já não me serve... e a mãe não me deixa usá-la...

- Porque será que as mães nunca entendem nada? A mim nunca me deixa vestir como eu quero, tem que ser como ela gosta.   

- Porquê?

- Diz que eu não sei nada, diz que me visto a parecer um arco-íris.

- E ela não gosta do arco-íris?      

- Não sei, nunca lhe perguntei. Mas acho que não. 

- Ah, eu se pudesse, se a mãe deixasse, tinha sempre um comigo!         

- Eu também. Trazia um vestido, pintava um nas paredes do quarto...       

- Forrava os livros da escola e dava um à avó, ela veste sempre com cores tão tristes!        

 

ARCO-IRIS

 

- Olha! Olha além no céu! Um arco-íris!

- Onde? Onde? Ah! Que bonito!

- Dizem que no fim do arco-íris há um pote cheio de ouro. - Ouro, ouro, a sério? Como o dos fios?

- Sim. Mas está todo em moedas, que há um pote cheio de moedas de ouro.

- Era engraçado se nós o encontrássemos… O que é que tu fazias com um pote cheio de ouro?

- Não sei... nunca pensei nisso... acho que comprava montes e montes de chocolates.

- Gelados!

- Rebuçados!

- E podemos ir á loja com moedas de ouro?

- Não sei... acho que não. Primeiro tínhamos de ir ao Banco trocar o ouro por dinheiro de ir às compras.

- E nós, podemos ir ao Banco fazer isso?

- Eu punha um bigode para parecer crescido!

- E um chapéu. É melhor pôr também um chapéu.

- E um sobretudo comprido, para parecermos mais altos.

- E uns óculos de ver… e se o balcão for muito alto, como é que vamos fazer?

- Levamos um banquinho escondido debaixo do sobretudo.

- E se fossemos ver se é verdade? Vamos procurar o fim do arco-íris?

- Já não vale a pena... está a desaparecer... uma vez, faz muito tempo, vi um arco-íris a sair de uma poça de água...

- E nada, não tinha nada na poça, só lama...

- Ah! De certeza que era o começo do arco-íris, não era o fim!

 

DANÇA

- Sabes dançar?                                     

- Não, acho que não.                                

- Eu gostaria de saber. Gostava muito de saber dançar como

vimos ontem na televisão...                        

- Como o Ballet?                                    

- Sim, gostaria muito de saber dançar Ballet.       

- Eu também, às vezes acho que sim, mas depois vejo os

pássaros a dançar no céu…                          

- E as árvores? Já viste como elas bailam com o vento, em dias de tempestade?!

- E os cisnes, os cisnes no lago do senhor Antero.   

- O mar e a areia...                                

- O vento e as espigas de trigo.                    

- O rio com as pedras! Quando vejo o rio a dançar sei que nunca conseguirei...

- Mas eu gostava de tentar, eu queria aprender.    

- Achas que se aprendermos a nadar que depois é mais fácil dançar?                                              

- Talvez...   dançar na água é capaz de ser mais fácil!  

- Ou aprendermos a voar. No ar parece tão fácil!    

- Ou então...                                       

- Então o quê?                                      

- Fincarmos os pés bem fundo no chão e pedirmos ao vento para nos ensinar a bailar.                                

 

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publicado às 18:59

Operação Marquês.png

A busca irracional pela responsabilização por um problema mesmo que incorretamente pode ser também utilizada como manobra política ou influenciadora para angariar adeptos em nome de um objetivo. O exemplo mais claro são as perseguições a pessoas e a povos apontados como os principais culpados pelos problemas mesmo que estes não lhes sejam imputados, isto é, a procura duma espécie de bodes expiatórios.

A justiça que alguns candidatos a justiceiros pretendem que seja feita é por convicções, pelo que pensam, acham, ouvem e leem na comunicação social e baseada em opiniões mais ou menos desfavoráveis sobre os presumíveis culpados que lhes impingem e que, de imediato, passam a ser culpados e condenados antes de qualquer julgamento.

A Operação Marquês surgiu em simultâneo com a criação de um ambiente propício às emoções fáceis e até contraditórias e sem o distanciamento e a racionalidade necessários. A manipulação da opinião pública pode conduzir a julgamentos e a condenações por antecipação aos tribunais. Em caso de suspeição há a tentação de culpar, antes de prova de facto, o outro que não seja da minha simpatia ou do meu clube e, no caso contrário, a tentação de ilibá-lo, justificá-lo e desculpá-lo.  Nos casos de processos fraudulentos provenientes da direita observam-se atitudes mais condescendente quando de corrupção ou fraude se trate o que é também é evidente na comunicação social.

O caso da presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, Conceição Cabrita, suspeita de "um crime de corrupção passiva de titular de cargo político" e de "um crime de prevaricação de titular de cargo político" ficou proibida de manter "contactos diretos e indiretos com os demais arguidos", assim como com o deputado António Ribeiro Gameiro (PS). Este é apenas um caso em que a SIC ao dar a notícia mais do que uma vez mencionou Gameiro como sendo do PS omitindo a filiação partidária da autarca que é do PSD.

Voltando à Operação Marquês. Mais do que uma vez afirmei que tenho a convicção de que, no caso de José Sócrates, dado os indícios dos crimes em que supostamente terá estado envolvido até ao julgamento será suspeito de alguns crimes que lhe estão a ser imputados. Bem pode Sócrates clamar aos quatro ventos que é tudo mentira, que é tudo falso, que o quiseram “tramar”, que são tudo invenções, que é objeto de perseguição política que isso não o ilibará.  Todos os que se encontram envolvidos em investigações por suspeita de crime, seja ele qual for, quer durante os processos de inquérito, quer mesmo após condenação, e com provas de facto, são presumivelmente inocentes. Salvo raras exceções nunca admitem a culpa. Para eles é a sua verdade, assim como Sócrates também tem a sua verdade. Faz parte do processo de autodefesa.

Por outro lado, não é menos verdade que os órgãos de comunicação social por fugas de informação, aparentemente premeditadas, são responsáveis por condenações na opinião pública, mesmo antes dos julgamentos, contribuindo para a culpabilização dos potenciais ou eventuais arguidos com o objetivo de prenderem os leitores e forçarem a opinião pública, esquecendo-se o direito à presunção de inocência.

Basta regressarmos a novembro de 2014 e recordarmos o desembarque do avião que trouxera José Sócrates de Paris e encontrou a polícia à sua espera, bem como os meios de comunicação social que haviam sido avisados da sua chegada, era fácil a qualquer observador concluir que o espetáculo teria sido montado.

Assiste-se em direto a manifestações de ódio, umas evidentes, outras, mais contidas, especialmente nas televisões, com entrevistas e debates onde as opiniões são apenas num sentido, com inexistência de contraditório, numa espécie de jornalismo do tipo partido único.

Frustradas as expectativas de uma fogueira inquisitória e de condenação a que o juiz Ivo Rosa, segundo alguns, deveria pegar fogo, censuram-no agora por ter cumprido o dever que lhe compete fora da emoção e da parcialidade. E, mais uma vez, a SIC no mesmo dia da decisão no Jornal da Noite Ricardo e Costa e João Gomes Ferreira aparecem a criticar e a contestar as decisões do juiz. O que os move?  A ânsia de justiça ou um ódio por marcas que os atingiram no passado?

No meu entender o juiz Ivo Rosa, cumpriu a lei ao prescrever o que tal deveria ser.  Sobre ele abatem-se já os gritos histéricos de jornalistas e comentadores de serviço, sedentos de popularidade, clamando contra a prescrição do crime, por ter passado o limite do tempo de investigação, ao mesmo tempo que surgem manifestantes histéricos convocados por redes sociais a pedir a cabeça do juiz com emoções mais ou menos exaltadas. Daqui até se exigir os métodos da idade média aplicados á modernidade vai um passo. Tudo quanto foi o procedimento do ministério público ao longo dos anos em que dura a Operação Marquês foram as sucessivas fugas de informação que degradaram as investigações.

Não são novidade a estratégias historicamente conhecidas dos radicais de extrema-direita no aproveitamento de factos mais ou menos polémicos para através de propaganda falaciosa influenciar as massas para o seu objetivo, criar instabilidade, perseguições étnicas e culturais e estimular o descontentamento contra as instituições. Esta gente, com o discurso mimético, tende a omitir a quem os apoia que, caso chegassem ao poder, seriam os primeiros a cercear a liberdade de manifestação e de expressão de pensamento e a criar tribunais plenários em que a instituição policial era disfarçada de fórum justicialista. Uma farsa com a cumplicidade activa de juízes, para "legalizar" o mais puro arbítrio. As sentenças não seriam preparadas nem escritas pelos juízes: já vinham escritas das polícias tranformadas em investigadoras políticas. Os que lançam petições para demissões de juizes ou outras barbaridades do género estarão naquela linha.

Estão em presença dois poderes independentes que alguns pretendem confundir: o da justiça e o da política, por vezes sustentadas pela comunicação social com a prevalência da segunda. Na primeira está a justiça que deve ser feita face a atos praticados. Na segunda está a política e em que está em causa o homem que foi primeiro-ministro e que segundo a investigação entrou em esquemas de corrupção. Acrescento ainda uma terceira ordem que contém as duas anteriores e que são as vozes histéricas das redes sociais que pretendem que prevaleça na opinião pública que é a de ordem política, mas com um novo alvo agora direcionado para o juiz Ivo Rosa.

A perceção que se tem é de que para a fazer esquecer da memória coletiva foi apagada a forma como nasceu e foi orientado o processo de instrução que andou pelas páginas e ecrãs dos meios de comunicação, como se de uma novela se tratasse transformando o processo numa bandalheira e numa promiscuidade sistemática e continuamente esburacado que serviam como fugas sucessivas de informações de que o processo de instrução padeceu desde o seu início e cuja origem jamais iremos conhecer.

Neste sentido recomendo um artigo que Garcia Pereira escreveu em que aponta a sua mira e que pode ler aqui com o título “Operação Marquês” – De quem é a culpa afinal? E cujo fundamento é, “Mas a questão essencial é esta – será que a responsabilidade desse inquietante e negativo resultado é de quem interpretou e aplicou a lei, ou é de quem, atuando como atuou, por ação ou omissão, o tornou inevitável?”

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publicado às 17:25

Operação Marques- juizes.png

Raramente tenho escrito sobre o caso José Sócrates e a Operação Marquês porque as opiniões sobre factos complexos da competência da justiça só devem ser dadas quando se tem pleno conhecimento das causas e dos factos. Este não é caso. Quem estiver disposto pode pesquisar neste blog onde me refiro a José Sócrates. 

O tiro à justiça apenas interessa aos populistas de extrema-direita que dizem não serem do sistema, que estão contra o sistema, mas que dele lá se vão alimentando e vê-se que tem dado alguns frutos.

 Embora com algumas cautelas, não tenho dúvidas de que José Sócrates e outros terão sido intervenientes ativos em movimentos de corrupção. A isto acrescento a má governação e os desmandos feitos com os dinheiros públicos com o beneplácito do então seu ministro das finanças Teixeira dos Santos que se manteve na função apesar de posteriormente ter justificado que teria avisado o primeiro-ministro da situação financeira do país. Pode ser, mas manteve-se até ao fim conivente com a situação.

Apesar da minha convicção não me posiciono num ponto de vista de instrumentalização política de caso judicial ou do sistema judicial através de um justicialismo veiculado pela opinião publicada e pelas opiniões de rua.

A pronúncia do juiz Ivo Rosa sobre a Operação Marquês veio animar a comunicação social que andava há mais de um ano a mastigar arrastadamente a covid-19 e a vacinação. Finalmente algo de novo e já esperado aconteceu, logo opiniões divergentes, ávidas por clamação, vieram para a cena pública.

Desde que o juiz Ivo Rosa tomou conta do processo, e por desde logo não se terem verificado fugas de informação, as emoções, entretanto forçadamente contidas, ressurgiram e ficaram ao rubro ofuscando a racionalidade que foi subjugada pelos desejos de vinganças contidos e não satisfeitos, fomentados por alguma imprensa que esperou pelo grande momento que confirmasse na integra as suas suposições e indícios, mas que, afinal, lhes criou alguma frustração. Aliás não seria de esperar outra coisa dado uma fase de instrução que se transformou numa inadmissível mimetização do julgamento, que passou a ser uma repetição de algo passado antes do 25 de abril.

Surgem agora os justiceiros, incentivados pela comunicação social ao longo do tempo, que veem a justiça como algo que deva cair na rua para julgamentos populares emocionalmente fabricados. Estes não pretendem uma “justiça justa”, pretendem uma revanche por factos que não são mais do que indícios e não terão sido confirmados, nem comprovados com matéria de prova. Durante meses a fio fizeram-nos acreditar na fidedignidade do que, afinal, dificilmente poderia ser comprovada.

Li em tempos, não me recordo onde, das dificuldades de obtenção de prova nos crimes de corrupção passiva e ativa. A justificação era dada pelo caráter oculto e indireto com que estes tipos de crimes são praticados, dada a sua prática em locais acessíveis apenas aos próprios agentes da corrupção e ao recurso a várias pessoas o que faz diluir a relação entre o corruptor e o corrompido. As vantagens pedidas e acordadas numa tendencial comunhão de interesses, faz com que as verdadeiras intenções dos agentes sejam dissimuladas, dificultando a prova do seu real e efetivo significado. Se há dificuldades na obtenção de prova a recolha dos indícios suficientes da prática dos crimes de corrupção passiva e ativa, não passam apenas de indícios. E pareceu-me ser aqui que Ivo Rosa se baseou.

Todavia, por pesquisas que efetuei importará aos juízes acautelarem as situações de eventual arbitrariedade no proferimento de sentenças, (este caso ainda não se tratou de uma sentença), nomeadamente, por via de um maior preciosismo e rigor no cumprimento da obrigação legal de fundamentação está prevista no artigo 374.º, 2 do CPP que concretiza:

“1 - A sentença começa por um relatório, que contém:

  1. a) As indicações tendentes à identificação do arguido;
  2. b) As indicações tendentes à identificação do assistente e das partes civis;
  3. c) A indicação do crime ou dos crimes imputados ao arguido, segundo a acusação, ou pronúncia, se a tiver havido;
  4. d) A indicação sumária das conclusões contidas na contestação, se tiver sido apresentada.

2 - Ao relatório segue-se a fundamentação, que consta da enumeração dos factos provados e não provados, bem como de uma exposição tanto quanto possível completa, ainda que concisa, dos motivos, de facto e de direito, que fundamentam a decisão, com indicação e exame crítico das provas que serviram para formar a convicção do tribunal.

Então, a pronúncia da decisão instrutória da Operação Marquês segundo o Juiz Ivo Rosa parece estar aqui contida neste artigo.

Não sendo conhecedor dos aspetos jurídico, contudo, fico perplexo, talvez por ignorância da minha, no que subsiste nos que consideram não terem sido aceites os três crimes de fraude fiscal, de que José Sócrates estava acusado, porque o juiz considerou “inexiste qualquer norma legal no nosso ordenamento jurídico que imponha a um cidadão a obrigação de declarar, em sede de IRS, os proventos obtidos com o cometimento de um crime”, e neste caso houve opiniões contraditórias e algumas que consideraram de imediato tratar-se de “um erro”.

Sobre direito sou de fracos conhecimentos, como já afirmei anteriormente, parece-me um pouco ridículo que alguém que obtenha proventos por cometimento de um crime tenha que os declarar em sede de IRS. Se eu receber proventos de alguém que me corrompeu será que de corrida vou declarar esse valor para impostos!? Se, de facto, for provado que eu recebi esses proventos, então sim, eles devem ser sujeitos a imposto.

O que nos diz Rui Tavares no jornal Público é que:

“Mas aí entra o segundo elemento explicativo no texto de Sócrates à Folha [olha de São Paulo, Brasil] a referência repetida de que tudo isto se destinava a impedir uma candidatura sua à presidência. Um mero detalhe, mas curioso no sentido em que José Sócrates sempre se defendeu neste caso dizendo que as somas avultadas que recebia constantemente de um empresário eram apenas empréstimos e que a forma inusitada como as recebia (em “dinheiro vivo”, através de portadores, etc.) diziam apenas respeito à esfera da sua vida privada a que tinha direito como cidadão privado que já tinha abandonado a política. Ora, afinal o que José Sócrates nos diz (agora) é que estava apenas em pausa na sua atividade política, e ele próprio deve saber que viver assim à conta de um empresário o colocaria numa inaceitável posição de dependência como putativo Presidente da República”.

Quem está a tirar dividendos com isto tudo parece que é o Chega e André Ventura que estão a surfar à custa dos que se indignam com a justiça.

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publicado às 19:11

O que os outros dizem (1).png

Nem sempre gosto do que Daniel Oliveira escreve, é demasido radical  para o meu ideário chegando a ser impulsivo nas suas afirmações. Chega por vezes até a ser agressivo nos cometários que faz, nomeadamente no programa da SIC Notícias "Eixo do Mal" continuamente a interromper os seus colegas de programa onde é manifesto o o seu lado esquerdista.

Apesar disso aqui vai porque considerei o artigo oportuno, irónico e atual pela forma como Rui Rio tem andado a angariar candidatos para as autarquias, não lhe interessando como e quem, por vezes contrariando alguns dos seus pontos de vista anteriores. Veja-se, por exemplo, o caso do candidato à Câmara do Porto. 

Ventura e Garcia: teste de paternidade

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/03/2021)

e em A Estátua de Sal

Rui Rio tem um talento único para destruir o que de bom pensávamos dele. Julgávamos que não surfava na espuma dos dias, preservando-se para o longo prazo. Até que abriu uma conta no Twitter e percebemos que a sua circunspeção resultava de infoexclusão. Sabíamos que era corajoso perante o poder imenso do futebol. Até que convidou o maior acionista particular do Futebol Clube do Porto para se candidatar à terceira maior autarquia do país, onde esse clube tem o centro de estágios. Explicando que não havia problema, porque ao contrário do seu adversário não era conselheiro cultural do clube. Sabíamos que não era o rei da tática, mas tinha um rumo de que não se desviava ao primeiro susto. Até que, depois de passar meses a defender que o PSD estava ao centro, fez um acordo com a extrema-direita, nos Açores. O que parecia convicção era mera reação aos seus opositores internos. É isso que move Rui Rio: os seus opositores, sejam no partido, na imprensa ou no futebol.

O convite das estruturas locais para Suzana Garcia liderar a lista do PSD à Câmara Municipal da Amadora mostra que, neste momento, PSD e Chega andam a pescar nas mesmas águas. A pré-candidata teve lugar cativo num programa da manhã de Manuel Luís Goucha – não sei se alguma vez se cruzou com Mário Machado – e sabemos como pensa. Divide o mundo entre as pessoas de bem e as minorias protegidas pelo politicamente correto. Sem desprimor para os chauffeurs de praça, que há muito foram ultrapassados pelos entertainers que desaguam na política, imagino que a TVI lhe pagasse à bandeirada.

Falava-se desta advogada para liderar a lista do Chega em Lisboa. Não deve ter aceitado e Ventura teve de se contentar com um senhor que tem como principal marco da sua longa vida cívica o comentário a uma transmissão em direto de um velório de uma menina de três anos morta pela sua mãe. Na Amadora, Suzana Garcia enfrentaria o candidato do Chega, dirigente de um dos 17 sindicatos de polícia. Para a direita, um dos concelhos mais multiculturais do país é um caso criminal. Já em Oeiras, convivem bem com quem foi condenado e cumpriu pena. É uma questão de estatuto.

A direção do PSD está a avaliar a proposta pública de candidatura – não deixa de ser estranho que primeiro se conheça o candidato, depois a opinião do partido. Terá ficado espantada ao conhecer as posições políticas da advogada. Prefiro pensar que estão apenas a avaliar as reações públicas ao anúncio para saber se não metem a pata na poça de novo. É aborrecido, mas menos preocupante, que a direção do maior partido da oposição seja calculista e sonsa do que tenha vivido num buraco nos últimos anos e desconheça as posições de uma das figuras mais mediáticas do país. E que se tornou mediática por causa dessas posições. Bem sei que Suzana Garcia falava num espaço pouco visto pelas “elites de Lisboa”, como diria Rui Rio. Mas há limites para o alheamento em relação ao país. E o país também são os programas da manhã, que lamentavelmente fazem opinião.

Antes Rui Rio anunciava candidatos que não sabiam que já o eram, agora anunciam-se candidatos que Rui Rio não sabe quem são. E André Ventura, que percebe que Suzana Garcia lhe rouba votos, aproveitou mais um momento de descoordenação no PSD para, num tweet, elogiar Rio pela evolução que esta escolha revela. Uma forma de condicionar a direção do PSD, levando-a a recusar uma candidata que associa os social-democratas ao Chega. Mas mesmo recuando, o mal está feito num partido desnorteado.

Ao contrário do que já ouvi de alguns antigos dirigentes do PSD, como Miguel Morgado, o André Ventura que concorreu à Câmara de Loures não era diferente deste. Seria virgem nas barbaridades racistas, quando o convidaram. Mas as suas primeiras declarações públicas contra toda a etnia cigana foram antes das eleições autárquicas. A tempo de o CDS ter desfeito a coligação para se demarcar do que antes era considerado inaceitável pela direita democrática. A tempo de o PSD manter o candidato e de Passos Coelho fazer questão de ir ao comício de Loures para lhe dar apoio pessoal e direto.

O Ventura que Pedro Passos Coelho laçou era este e é este que está desestruturar a direita portuguesa. Da mesma forma, se Rui Rio der asas e legitimidade a Suzana Garcia – que, não por acaso, prefere ir pelo PSD a um concelho menos relevante do que à capital pelo Chega –, ela não revelará nada que não se saiba já. Ventura não é filho de pai incógnito, Garcia também não o será. Se o PSD lançar mais um político de extrema-direita, já não faz sentido falar de crise da direita. É um suicídio.

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publicado às 18:33

Navegar à bolina.png

Navegar à bolina é navegar ora numa ora noutra direção, obliquamente em relação à linha do vento, de forma que o deslocamento resultante coincida com o rumo pretendido. Faz parte da arte de velejar. Por que caminho é que seguimos? Será que sabemos para onde vamos? Os ventos estão de feição? Para se chegar a bom porto é preciso saber para onde os ventos nos levam.

Os partidos, organizam-se, reorganizam-se, reconstroem-se, mudam-se, contradizem-se, puxam pela criatividade, imaginam o inimaginável, quando sentem os ventos eleitorais a aproximarem-se. Esperam e aproveitam oportunidades para navegar à bolina, numa e noutra direção, de forma que o resultado coincida com o rumo/objetivo pretendido: a obtenção de mais votos. A corrida para a conquista de presidências e de maiorias para as câmaras já começou e a direita está na linha de frente das nomeações.

Com a preparação das candidaturas e das campanhas para as eleições autárquicas, especialmente na direita PSD, vemos que o candidato deste partido está a orientar as suas escolhas para a sua campanha em figuras que emergiram nas televisões durante a pandemia com análises sobre a evolução pandémica covid-19 e as medidas a tomar.

Vejam-se o caso do PSD com Carlos Moedas, cabeça de lista da coligação PSD/CDS-PP à Câmara de Lisboa, que escolheu para seu diretor de campanha o médico de Saúde Pública e epidemiologista Ricardo Mexia que tem tido visibilidade nos ecrãs de televisão como comentador durante a pandemia. Ricardo Mexia é desde 2016 Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública e integra o Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Apesar de Carlos Moedas parecer uma boa escolha para o PSD fica perante uma tentativa de uma coligação forçada que é de necessidade de facto não foi uma boa aposta visto que o candidato do PSD/CDS Carlos Moedas tem a marca do contributo que deixou no Governo de Passos Coelho de coligação PSD/CDS onde a lei das rendas foi e a privatização da Carris deixou marcas nas populações.

O candidato do PSD promete apresentar “um plano que prepare Lisboa para futuras pandemias e avança que o documento será elaborado pelo virologista Pedro Simas”, outro elemento que surgiu nos ecrãs duramente a pandemia. Veja-se como a candidatura de moedas parece ficar adulterada aos ser uma candidatura que se baseia na pandemia. Parece que a ciência está a começar a ser infetada pelo partidarismo e pela ideologia.

A isto Moedas ainda acrescenta o futebol: “Podemos ter uma cidade na liga de campeões da Europa”. Prevê-se que pandemia covid-19 e futebol serão apenas os dois grandes trunfos de Carlos Moedas.

No que se refere à extrema-direita o Chega foi procurar no catálogo de cromos dos tempos idos de apresentadores de programas de entretenimento e humor me canais de televisão Nuno Graciano que enveredou, há cerca de cinco anos, pela vida de empresário, com uma marca de queijo regional.

Em março de 2021 Graciano disse: “Fui presidente da associação de estudantes do meu liceu, fui presidente da associação académica da Universidade. Portanto, sempre estive ligado à política.” Segundo Fact  Check do jornal online Observador a frase é errada. E mais, afirmou esta terça-feira que "é cedo" para falar sobre o projeto político para o concelho, mas defendeu que a cidade tem "vários problemas muito graves" e precisa de um "abanão". Mas então, é cedo fazer um projeto, mas é rápido para ver problemas muito graves para a cidade? Que espécie de charlatão está aqui representado?

 A esquerda e a direita preocupam-se a procurar fragilidades nas embarcações dos adversários para se abalroarem. É uma competição onde vale tudo. Uma espécie de wrestling de veleiros. A esquerda procura a descobrir fragilidades nos candidatos da direita. Não terá sido por coincidência que Carlos Moedas, antigo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro do governo de Passos Coelho, vai ser ouvido a pedido do PS na comissão de inquérito do Novo Banco na terça-feira. Na segunda-feira, o debate do requerimento do PS para ouvir o antigo secretário de Estado do governo PSD/CDS-PP e agora candidato à Câmara de Lisboa foi marcado pela troca de argumentos e acusações, sobretudo entre sociais-democratas e socialistas. A audição de Carlos Moedas -- marcada para terça-feira, às 9.30 horas - é uma das três audições desta comissão de inquérito. Surge em cobertura de Carlos Moedas a ministra das finanças e Passo Coelho, Maria Luís Albuquerque a fazer de escudo a Moedas no inquérito ao Novo Banco.

Não importa a forma como se consiga. Com estas velas navegam também no permeio das declarações, decisões, contradições que apanham aqui e ali os senhores das opiniões publicadas e os comentadores das políticas do tipo pítia com guiões de novelas do tipo mexicano, mais ou menos enredadas, que se vão enrolando ou desenrolando consoante o final de gostariam que acontecesse. Lá vão aproveitando o rumo dos ventos com determinação. Uns, para alcançarem o poder, outros para ajudarem aqueles outros a alcançá-lo.

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publicado às 23:35


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