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O retorno dos coelhos

por Manuel_AR, em 09.10.21

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O eterno retorno era uma doutrina dos estoicos retomada, em particular pelo filósofo alemão, Nietzsche segundo a qual há um eterno recomeço, isto é, uma série de acontecimentos idênticos aos precedentes. O estoicismo foi criado por Zenão de Cício, na cidade de Atenas, cerca de 300 a.C.. Os estoicos defendem a austeridade na virtude, o desprezo por todos os tipos de sentimentos externos, como a paixão e os desejos extremos e foi recuperado pelo cristianismo que afirmava e afirma que só "através da aceitação do destino e da renúncia às paixões, pelo que o homem deverá destacar-se pela indiferença face à dor e pela firmeza de ânimo perante os males e as agruras da vida”. Enfim, mais ou menos a apologia da austeridade aos níveis das agruras pessoais e bens materiais.

Não vou aqui dissertar sobre temas filosóficos, mas isto vem a propósito do que tem vindo a ser noticiado e comentado após a calma das emoções geradas pelos resultados das eleições autárquica. Interpretações que têm emanado dos comentadores políticos e fazedores de opinião, quais oráculos do tipo Pítias, sobre o futuro político, quer em relação ao partido dito perdedor, quer em relação ao partido dito ganhador oriundos da comunicação social.

Com é sabido, Carlos Moedas ganhou Lisboa, mas teve ao seu lado durante a campanha elementos que estiveram também em tempo ao lado de Passos Coelho. Moedas foi, e ainda é, um animado adepto saudosista das políticas de Passos, assim como os que o ajudaram na campanha como é o caso de Sofia Galvão, Miguel Morgado, João Marques de Almeida, António Leitão Amaro não são dedicados "passistas”.

Moedas integrou o XIX Governo Constitucional e que fez parte do Executivo durante a maior parte do seu período de vigência. Era considerado o braço-direito do anterior primeiro-ministro, facto que o colocou em destaque nas relações entre o governo português e os responsáveis da troika. Mais recentemente, a 30 de julho, Carlos Moedas, numa entrevista ao semanário NOVO, afirmou que “gostava de ver outra vez Passos Coelho num lugar de destaque". Segundo o semanário a frase é suficientemente ampla para nela caberem várias hipóteses, mas a “admiração” é indisfarçável.

Este enquadramento serve como justificação para o título do artigo e para alerta de que o retorno da direita passista ao poder pode vir a ser mais real do que virtual, caso Rui Rio não se candidate novamente à liderança do PSD ou se se candidatar não ganhar. Se assim for é certo que o poder do PSD fica novamente na mão dos neoliberais de Passos Coelho numa campanha a fazerem-se passar por sociais-democratas. Aliás, hoje o semanário Expresso publica um artigo de opinião do senhor de má memória que dá pelo nome de Cavaco Silva que o comprova: Cavaco diz que Governo de Costa “não foi capaz” de aproveitar as condições herdadas de Passos, (!?) e critica também os adversários do Governo, denunciando uma “oposição política débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente”.

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Começo por mencionar as minhas impressões sobre os comentários que se teceram e tecem em catadupa nos órgãos de comunicação social sobre o primeiro-ministro António Costa, o Governo, o PSD e Rui Rio durante a campanha eleitoral para as autárquicas e após as eleições.

António Costa desde que esteve na presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e, tendo em conta as notícias que, entretanto, foram surgindo nos órgãos de comunicação e a que alguns socialistas chamam casos e casinhos, fica-se com a ideia de que o Governo, e sobretudo alguns ministros, entraram em roda livre, mesmo depois de junho quando do seu regresso. A coisa que já vinha de antes parece que piorou. Os casos que iam surgindo como sendo de casos e casinhos sucederam outros que o são de facto. Não é certo que algumas perdas nas autárquicas não tenham contribuído também para esses factos.

Chegado até aqui penso que António Costa deve começar a ter algum cuidado e prestar mais atenção e observar mais tudo quanto o rodeia. Ouvir neste caso não significa executar o que outros acham que deveria fazer, mas descobrir estratégias para o futuro próximo. Analisemos agora, com algum cuidado, os mais recentes comentários sobre António Costa e o seu Governo e também os comentários sobre a sucessão, ou não, de Rui Rio no PSD levantados após as eleições autárquicas. 

Quanto a António Costa e sem qualquer ordem cronológica detenho-me em algumas das afirmações que são sistematicamente repetidas nos comentários mais ou menos proféticos como a insistência na fragilidade do Governo após as eleições; remodelação do governo a ser feita após aprovação do orçamento (a única que poderá ter algum fundamento); perda de autoridade do primeiro-ministro; fadiga em relação ao Governo; o Governo está muito mais fraco após as eleições; a inversão da tendência política em Portugal; a semana tal foi um desastre para o Governo.

A somar a estes sinais amargos, as semanas a seguir às autárquicas foram um desastre para o Governo. Pedro Nuno Santos verbalizou — da forma mais bruta possível — tudo o que o opõe ao ministro das Finanças, a quem culpa pelo afastamento do presidente da CP. O descontentamento com João Leão será alargado a outros ministérios, como escreve o Expresso, mas a declaração do ministro das infraestruturas abriu a caixa de Pandora. Dificilmente os dois poderão coexistir num próximo Governo e vai ser interessante ver como se desfaz este novelo. Para somar à semana desgraçada, o ministro da Defesa decidiu aproveitar politicamente o fim do mandato do vice-almirante, louvado quase unanimemente pelo sucesso das vacinas, para despachar o Chefe de Estado-Maior da Armada e colocar Gouveia e Melo no posto.

Daqui as primeiras mexidas consequentes saídas da primeira reunião da direção socialista neste sábado que elegeu os dirigentes que integrarão a comissão política, o secretariado e a comissão permanente do PS

Quanto ao PSD e a Rui Rio parecer ser evidente a exploração jornalística de um dito “combate” dentro do PSD, que é o de “se concentrar naquele que é o combate maior que terá pela frente, que é o de se constituir como verdadeira alternativa ao Governo do Partido Socialista” como afirmou numa entrevista de Montenegro falando das rivalidades internas no partido, afastando-se estrategicamente dessas guerras. Faz-se de bom da fita, por agora, para depois atacar os despojos. Rio não está em condições de ser "alternativa sólida" ao PS. Acrescentou ainda que não pretende pôr-se já a caminho porque acha que o PSD ainda não está na hora de ganhar eleições e porque não acredita que o PSD sendo com Rui Rio ou sendo com Paulo Rangel não tem tempo de recuperar e renascer das perdas eleitorais.

Infeliz, à sua maneira, também está o PSD. A vitória de Lisboa e de Coimbra e o aumento total de câmaras deram a Rui Rio um sopro de vida, mas o combate interno intensifica-se — enquanto o PS sonha que Rio se mantenha no cargo. Com o PSD em convulsão, se Paulo Rangel conseguir ganhar as diretas a situação política muda: o curriculum de Rangel faz prever um PSD mais combativo, numa altura em que o PS ainda se encontra no cimo da colina, mas vai escorregando.

A proposição de que basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade, uma das regras básicas da propaganda política, pode aplicar-se também num propósito de formulações hipotéticas, opiniões e suposições que sucessivamente se repetem mesmo que não sejam mentiras. Se se repetir uma ideia que não sendo mentira pode ser potencialmente uma verdade, ou seja, algo não verificado ainda, a sua repetição passada pelos “fazedores” da opinião pública pode ser vista como sendo uma verdade, embora não o seja ainda. É a chamada a ilusão da verdade.

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publicado às 18:28

Pela Avenida Almirante Reis ida e volta

por Manuel_AR, em 02.10.21

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Tenho por hábito fazer caminhadas pelas ruas da área central da cidade Lisboa, hábito entretanto interrompido voluntariamente devido ao confinamento que me limitou ao espaço limítrofe da minha residência.

Hoje iniciei a minha dependência de exercício físico moderado que também me desperta os sentidos para a observação de lugares e pessoas que de movem pelos espaços da minha caminhada.

O trajeto definido para hoje foi a descida de toda a Av. Almirante Reis tendo como objetivo Martim Moniz, Largo de São Domingos, Rossio com regresso pelos mesmo trajeto.

Durante este meu périplo tive a oportunidade para estar atento a mudanças que se terão dado desde há quase dois anos. A atividade e o fluxo ininterrupto de pessoas pareceram-me terem recuperado para os de antes da pandemia.

As ciclovias descendente e ascendente lá estavam, lindas, pintadas a verdezinho, como Medina as sonhou, o que prova que Lisboa é uma cidade com sustentabilidade ambiental dada apenas pelo verde das ciclovias que agora Moedas quer eliminar.

Ambulâncias desciam a avenida com as sirenes a gritar para os veículos automóveis se encostarem à direita da via cujo espaço era diminuto o que as obrigou a invadir o espaço das ciclovias para poderem rapidamente progredir em direção ao ponto de socorro, suponho, do Hospital de São José.

Durante todo o meu trajeto de descida da Avenida tive oportunidade de contar os velocípedes que a desceram ou subiram por aquelas verdes ciclovias. Pasmem-se: quatro. Sim, quatro que subiam e não dei por algo que descesse. Podem perguntar durante quanto tempo. Foi o tempo que, ao meu passo de passeio, demorei a descer aquela via, ou seja, cerca de meia hora até ao Martim Moniz.  Em trinta minutos subiram aquela artéria quatro utilizadores de bicicletas, em oito horas de trabalho passariam teoricamente sessenta.

Talvez Fernando Medina me dissesse que não tenho visão de futuro porque daqui a 100 anos passarão a ser muitas mais. Temos é que acabar com os automóveis na cidade para ela ficar mais verde, exaltaria. Temos que pôr todos a andar de bicicleta, mesmo quem não saiba nem possa pedalar, crianças, homens, mulheres, idosos e idosas, doentes para irem a uma consulta hospitalar. Pois então! É assim que uma cidade fica menos poluída. Não é como esse Moedas que pretende trazer ainda mais automóveis para dentro da cidade com a promoção de preços baixos para estacionamento.

Apenas por curiosidade, Lisboa, nos censos de 2020, tem uma população dos 15-64 anos de 280124 pessoas e com 65 e mais anos apresenta 143990 pessoas, mais de metade da considerada em idade ativa (Fonte INE).   

Mas voltemos ao meu circuito. Ao chegar à Praça de Figueira deparei-me com um cenário próximo do pré-covid-19, turistas estrangeiros por todo o lado que espreitavam as ementas colocadas à porta dos restaurantes populares e baratuchos, pois os que agora para aqui viajam aparentam ser de classe média baixa e, sobretudo, mais jovens. O centro de Lisboa voltou a ser um “espaço turistificado”, desordenado. Entenda-se por turistificação, segundo alguns geógrafos, uma paisagem que pode apresentar-se destruída em decorrência do uso turístico ou da especulação imobiliária, e, para outros, especialmente os que não conheceram a paisagem antes pode ter outro valor, que gere atratividade e mereça destaque.

A articulação entre Câmara e o Governo, pode direcionar o planeamento da cidade dando prioridade a novas procuras do espaço urbano de sobrevalorizando o atendimento turístico, deixando para segundo plano os interesses da população local.

Terá sido Medina o responsável? De qualquer modo bem-vindos a Lisboa da covid (ou ex-covid?), do turismo e das bicicletas e do salve-se quem puder. Sim, das bicicletas! Como assim?

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Da Praça da Figueira dirigi-me para o largo de S. Domingos onde a Igreja do mesmo nome, arquitetura religiosa barroca, muito visitada depois do violento incêndio que quase a dizimou a 13 de agosto de 1959, mas onde ainda se podem ver as colunas corroídas pelo calor que as calcinou.

Acedi ao largo através do percurso pedestre que liga a Praça da Figueira ao referido largo pela Rua Dom Antão Vaz de Almada. Qual o meu espanto e perplexidade quando me deparo com um grupo excursionistas de mais de uma dúzia de bicicletas que transportavam estrageiros que ocupavam a maior parte do espaço pedonal e que se dirigiam em direção à referida Praça atrás de outro velocípede pedalado por um sujeito de calção e capacete que me pareceu ser o guia. Pedalavam equilibrando-se nas duas rodas sem qualquer respeito pelos peões que naquele momento se deslocavam no passeio que deveria ser apenas a eles destinado, mas que eram obrigados a desviarem-se. Pensei: bem visto ó Medina! Mas olha que eu, mesmo assim, votei em ti.

Não, Fernando Medina não perdeu por causa das bicicletas e das trotinetas em desmando pela cidade, mas ajudaram. A sustentabilidade das cidades não se faz com as bicicletas e com as trotinetas e com ciclovias pintadas de verde não, não vão salvar a cidade nem o planeta. Evitar e reduzir automóveis nas cidades é uma coisa, substituí-los por outros preferencialmente e sem critério, de costas viradas para a maioria dos cidadãos, é outra.

Era a hora de regressar seguindo o itinerário no sentido inverso, desta vez em direção a norte pelo passeio da direita, felizmente que ainda os há, mesmo que bicicletas driblando perigando peões que se passeiam pelo piso da calçada portuguesa.

O troço de Martim Moniz pela Avenida antigamente denominada Avenida D. Amélia que após a revolução republicana de 1910 mudou para a denominação atual até ao denominado Bairro das Colónias é acompanhada pela muda de gentes que se deslocam para cima e para baixo com predominância das provenientes da Ásia que se começam a sobrepor-se aos africanos que nas últimas décadas dominavam e que deverão ter escolhido novos lugares.

Estes asiáticos – chineses, paquistaneses, indianos, bangladeshianos, nepaleses - são imigrantes que vieram substituir a mão-de-obra que nega trabalho em algumas áreas e no pequeno comércio variado que dá ao português muita preocupação e pouco rendimento. Contrariamente aos que grupos racistas e nacionalistas da extrema-direita nacionalistas e neonazis que dizem que esses vieram tirar o trabalho aos autóctones, numa inversão propositada do problema. A falta de mão de obra em alguns serviços, deve-se aos autóctones que não querem trabalhar nesses serviços.  

Já próximo da Praça do Chile e passando pela Rua Morais Soares pareceu-me que tinha ultrapassado fronteiras encontrando-me nos espaços de Katmandu e de Daca a estes imensos brasileiros.

Ao regressar a casa chegou-me à memória Margarida Martins agora ex-Presidente da Junta de Freguesia resultante da agregação das antigas freguesias de São Jorge de Arroios e Pena e com a quase totalidade do território da antiga freguesia dos Anjos que terá observado, não me lembro em que circunstâncias nem em que lugar, que Arroios era a freguesia mais multicultural de Lisboa.

A propósito, em fevereiro de 2019, o Jornal de Notícias escrevia que “Passear pelo Largo do Intendente, ou Avenida Almirante Reis ilustra esta realidade. As esplanadas e os restaurantes são autênticas Torres de Babel, com clientes de todo o mundo sentados, lado a lado. A isto junta-se a diversidade de lojas, de templos religiosos e aromas que, por si só, nos transportam para outras paragens do Mundo.

Orgulhosa desta diversidade, Margarida Martins, a presidente da Junta de Freguesia de Arroios, atribui esta fraternidade à aposta na integração logo a partir dos bancos da creche. "Na maioria dos casos, há 24 nacionalidades de meninos que crescem juntos. Habituam-se a ver-se como iguais, convivendo com as diferenças, onde a língua portuguesa é sempre o elo de ligação", explicava.

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publicado às 18:15

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Deixemos para estudos posteriores e estratégias futuras a análise dos resultados das eleições autárquicas 2021. Carlos Moedas, bem ou mal, por muito ou por pouco, o certo é que ganhou.

O que se deve agora discutir é o que disse e prometeu durante a campanha e sobre as balelas com contradições imensas que foi dizendo .

Numa entrevisto dada ao jornal público de hoje o ex-vice-presidente da bancada parlamentar do PSD António Leitão Amaro, um dos conselheiros de Carlos Moedas na campanha de Lisboa, diz que o candidato social-democrata é “o primeiro e o último responsável” pela vitória. Foi claramente uma vitória de Carlos Moedas por duas razões: primeiro, o Carlos Moedas cresceu e venceu, na expressão dele, contra tudo e todos porque apresentou esta alternativa reformista que deu esperança às pessoas. Ele soube, e foi o único, de uma forma assertiva e intransigente, mostrar os fracassos, os erros e os falhanços da governação socialista.

Estas afirmações de Leitão Amaro são facciosas e mostram a tentativa que provavelmente frustrada, para fazer uma lavagem às poucas competências que o novo autarca Moedas tem para a função e que vai ter de contrariar.

Como primeira abordagem o programa Novos Tempos enferma de enormes contradições que vão colidir entre programação e a concretização. Como tal a votação em Carlos Moedas foi mais clubista-partidária do que resultante efetiva do programa para a cidade. Alguns pontos do programa a serem concretizados poderão dar lugar à criação de mais cargos e encargos municipais, criação de novas clientelas e compadrios partidários, veja-se página Lisboa Participada do programa.

De facto, quem lê o programa de Carlos Moedas sem qualquer intuito analítico e atitude crítica fica aturdido com tanta coisa aparentemente boa e fica surpreendido pela positiva. É uma espécie de presente em que o papel de embrulho é apelativo, mas cujo conteúdo, se não for consumido de imediato, corre o risco de ficar adulterado em muito pouco tempo. Só uma enorme quantidade de conservantes o irão manter atualizado, o que me parece ser, para Moedas, empresa difícil de concretizar.

Logo no início da campanha de Carlos Moedas insurgi-me neste mesmo blogue contra as medidas de Medina em relação às ciclovias não pela ideia em si mesma, mas em relação à forma, às difientes falta de regras e procedimentos que as deveriam gerir que conduziu a uma circulação anárquica dentro e fora das mesmas, prejudicando e colocando em perigo peões e automobilistas. Mas uma coisa não pode levar a outra totalmente oposta por falta de regulamentação e controle. Limitar a circulação automóvel e incentivar o uso de ciclovias no centro da cidade parece não ser o projeto de Moedas para Lisboa e daí a contradição do seu programa no que se refere à sustentabilidade e circulação que vai em sentido contrario à sutemtabilidade que a europa está a seguir.   Vejamos o capítulo Restituir a Rua aos Lisboetas na página treze e seguintes do referido programa.  

O programa parece contradizer o que é a tendência nas grandes cidades europeias e da ideia de sustentabilidade, que é restrição da circulação automóvel nas grandes cidades, Medina parece propor medidas de promoção de mais circulação automóvel. O slogan "restituir a rua aos lisboetas" significa na verdade, restituí-la aos carros dos lisboetas quando refere “Restituir a rua aos lisboetas com o assegurar parques multifuncionais de estacionamento” para residentes em todos os bairros (falta esclarecimento do conceito) e “otimizar a oferta de estacionamento automóvel à superfície está a ir no sentido contrário.

As medidas do presidente eleito para o automóvel e os automobilistas, porque teve nas suas listas Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de Portugal, tiveram que satisfazer os seus desejos automobilísticos e os dos seus elitistas sócios.

Como escreveu Fernanda Câncio no Diário de Notícias, “passamos de um autarca que queria limitar a circulação automóvel no centro para outro que anunciou descontos no estacionamento em toda a capital e vilipendiou as ciclovias enquanto diz querer "uma cidade mais sustentável" - é talvez isso que "as pessoas querem", slogans sem dor. Mas então talvez seja de aprender a não respirar.”

 O capítulo “Lisboa, uma cidade próxima de todos” de Medina parece aliciante para os desprevenidos, mas, tal como todo o programa a execução a prazo não é possível, necessitará de vários mandatos e muitos dos que nele votaram já cá não estarão para puderem ver a sua eventual realização e, para outros as espectativas verificar-se-ão frustradas.

 

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publicado às 19:42

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Pode também ler este "post" em A Fruta mais Ácida.

A campanha para as eleições autárquicas terminou, hoje é dia de reflexão. Foi uma campanha sem interesse, muitas das vezes sem nexo e não dirigida ao interesse dos cidadãos em relação ao poder local. Partidos e os seus candidatos aprontaram estratégias para propagandas diversas para captar potenciais eleitores. Influenciar o povo para votar é o principal objetivo de cada um dos partidos. São estratégias de marketing. Vender o seu programa (qual programa?) prendeu-se com a capacidade, ou incapacidade, que cada um teve para conseguir influenciar o público. São os empreendedores da política que utilizam técnicas idênticas aos influencers que medram pelas redes sociais e pelos blogues fazendo da estupidez dos outros o seu modo de vida. Sobre estupidez já escrevi aqui.

A captação de votos através da influência aos potencias eleitores determinou o remoque para, mais uma vez, escrever sobre essa gente a que chamam influencers.

No meu blogue A Fruta mais Ácida tenho dedicado mais espaço sobretudo aos influencers que propagandeiam ideias para quem queira comprar. Há também as aberrações de alguns que se julgam engraçadinhos por fazerem stand up contando umas piadas rascas em canais televisivos e em teatros esgotados por desejosos de piadas de mau gosto ou sem piada. Quando há um que ri logo outros o acompanham opara não destoarem. Um canal de televisão privado resolveu promover um desses a residente no programa das tardes de domingo e, ainda, transformá-lo em ator de uma telenovela enquanto muitos atores conceituados se encontram há muito em dificuldades por falta de trabalho.

Influencers, influenciadores em bom português, é um nome vago para indivíduos que vivem de canais digitais colocando em plataformas conteúdos muitas vezes patrocinados. A cada mensagem e em cada selfie supostamente sincera colocam as suas vidas em exibição. Eles são estrelas da internet e precisam de protagonismo para ganhar a vida com a vida vazia e a pobreza de espírito de outros.

Podemos então definir influencer como alguém que tem a habilidade de influenciar um determinado grupo de pessoas mostrando o seu estilo de vida, opiniões e hábitos muitas(os) e delas(es) baseiando-se para tal na riqueza expondo-se através de imagens das suas casas, das compras que fazem, dos meios que frequentam e no estatuto social. Utilizam as redes digitais ditas sociais e o Youtube, neste caso chamam-se pomposamente youtubers, como meios para alcançarem o seu alvo e têm efeito em muitas centenas e até milhares de seguidores.

Os influencers das redes socias são os propagandistas do século XXI, uma casta originada pelas redes que atrai incautos para gastar o seu dinheiro em compras, por vezes desnecessárias, para se identificarem com o seu influenciador. É um novo estatuto ser seguidor de pessoas que não conhecemos de lado nenhum, mas de quem gostam de ver na TV.  Os influencers são sujeitas e sujeitos, (coloquei as sujeitas em primeiro lugar para não me acusarem de ser machista, ou, caso contrário, de demasiado feminista), que olham para o mercado e percebem que podem criar riqueza a explorar o défice cognitivo dos influenciados.

O influencer mobiliza indivíduas(os) apelando para emoções e paixões mostrando um certo intimismo ensombrando as capacidades cognitivas da potencial “vítima”, para a atrair para a aquisição de objetos materiais e para serem seus seguidores. As suas receitas mágicas e as suas opiniões pessoais ao estilo do “eu já vi e aconselho porque comprei e tenho na minha casa”, são a suas armas preferidas. Ou ainda: “eu já comprei esta roupa que fica lindamente com a minha maquiagem da marca “X””. Muitos aproveitaram a covid-19 para fazer negócio colocaram fotos usando máscaras e usaram a hashtag do coronavírus durante o surto. É um oportunismo e uma jogada descarada.

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Os visuais tornaram-se uma fórmula para copiar, o tom muitas vezes irritante, cheio de banalidades e trivialidades, como aconteceu com uma tal pipoca, influencer digital que tem um blogue e que foi chamada para comentar numa coisa a que chamaram gala os acontecimentos do programa rasca conhecido pelo nome de Big Brother e até teve direito a vestido de gala.

Se a vida é complicada para o mundo em geral, imagine-se o que é, por exemplo, para uma mulher que ainda não chegou aos trinta e já tem de lidar diariamente com problemas tão profundos como saber que sapatos calçar. Sapatos, romance e outras teorias de vida.

Estes influenciadores(as) colocam títulos aliciadores enganando deliberadamente a audiência porque sabem que é necessário atraí-lo independentemente da qualidade do artigo que aconselham. Eles não vendem, aconselham, sugerem seja lifestyle e moda, beleza, coleção de joias juntamente com uma marca, viagens milionárias, ou o quer que seja, e, muito importante, acompanhadas(os) pelos seus maridinhos ou esposas – os divórcios deles e sobretudo delas também são muito chamativos – mais os seus filhotes para que o impacto seja maior, para tal basta colocar os vídeos e imagens para aliciar o pagode que seguir o seu Instagram o outra qualquer rede social. E lá caem mais uns “likes” e uns euros na bolsa pagos pela propaganda aconselhada.

Não posso esquecer os comentadores de influencers que os publicitam descrevendo o quanto são interessantes colocando frases como:

“A ou (o) X apresenta no Instagram os seus outfits, (maneira muito chique de dizer roupa), dos programas televisivos, o seu dia a dia e ainda as suas sugestões para looks mais arrojados. Apesar de ter bastante experiência como blogger moda e instagramer, o seu estilo e forma de apresentar roupas e acessórios nos seus posts continua a fazer com que os seus seguidores se apaixonem como no primeiro dia! Se quiser comprar a roupa da blogger, poderá fazê-lo na marca Z. Tem peças giríssimas com descontos imperdíveis! “Como podem ver são coisas estúpidas e tolas, mas inteligentes, para atrair tolos. Utilizo aqui palavras em inglês para dar a ideia de também estou in!

Se eu, sujeito influencer, no meu blog dou visibilidade à minha vida privada de forma ficcionada dizendo às pessoas como sou feliz com o meu consorte, falo dos meus filhos lindíssimos, na minha casa para a qual comprei um móvel giríssimo, e para mim um perfume, um detergente que “eu uso cá em casa”, ou uma roupa, ou uma viagem incrível que fiz ao “país paraíso” onde me diverti imenso com a minha família, etc., etc., as pessoas vão a correr consumir seja o que for que coloquei no meu blog, ou anunciei na rádio, ou na televisão. Mas, atenção, a culpa não é minha, é das pessoas que acreditaram nas soluções incríveis que lhes propagandeei e que eram boas para a minha casa, para mim e para a minha família e quiseram viver as mesmas experiências do que eu.

Os influencers prestam um serviço inestimável à sociedade e o Estado não pode impedir estes empreendedores que fazem pela vidinha e que encontram maneiras de obter vantagens financeiras e rentabilizar a estupidez alheia.

Poderão pensar que sou contra a iniciativa privada e o empreendedorismo. Nada disso. Pelo contrário. Estou é em desacordo com o simulacro de empreendedorismo que se aproveita da estupidez alheia. Se, por um lado, a indústria dos media é extremamente regulada, por outro, há uma indústria informal que tem cada vez mais influência, mas que não tem qualquer tipo de regulação.

Não podemos subestimar o papel dos otários que contribuem para o bolso dos influencers. Há negócios que dependem dos otários. Se não os houvesse quem lhes colocaria os “likes” nos “posts” e quem iria a correr a comprar online ou nas lojas os artigos que os influencers anunciam como os mais incríveis da moda e que iria contribuir para entrar os dinheirinhos nos seus bolsos. Ser influencer é um sonho de qualquer um, porque não tem que investir em stocks, nem em salários dos seus colaboradores, nem em nada, a não ser no tempo que está agarrado a colocar as novidades e a mostrar que está in para o que basta encontrar estúpidos que os sigam. Quanto mais seguidores e “likes” mais probabilidades há de captar anúncios para o site.

Parece-me que algumas pessoas endoideceram ou, então, estão debaixo de um stress agudo. Não me refiro apenas a gente do povo porque neste incluo também médicos, juízes negacionistas que se opões às medidas sanitárias e fazem acusações infundadas. Esta gente são um caso de estudo de doenças mentais. Não são opiniões, nem me venham com as tretas de serem contra o pensamento único, ao negarem que em Portugal as mortes por covid-19 foram manipuladas como explicam o que acontece ao nível planetário.  Isto é simplesmente demência.

Muito se grita por liberdade, especialmente a seita dos negacionistas, estão de facto a tornarem-se numa seita durante a epidemia da covid-19. Ser influenciado por influencers, desculpem-me a redundância linguística, é, em muitos casos, termos a liberdade de sermos estúpidos o que merece proteção porque não temos escolhas próprias e precisamos de catar locais onde eles se hospedam virtualmente.

No meu entender qualquer influencer tem a arte de “domar” estúpidos, isto é, exercer domínio sobre os impulsos ou instintos de outro(s) e, para isso, temos de ter todos algo de estúpido. Há quem tenha milhões de seguidores nas redes sociais. Poderá perguntar-se: será que milhões serão todos estúpidos? À resposta a esta pergunta eu respondo que sim comparando com muitos mais milhões que não são seguidores de nenhum influencer. Eu não me incluo nestes, mas no dos estúpidos, porque sigo alguns. Há, contudo, uma diferença, esses(as) que sigo não me influenciam com as suas tretas.  

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publicado às 17:05

Um refrão sobre o povo da nossa terra

por Manuel_AR, em 18.09.21

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Este texto foi escrito em 2016, já lá vão exatamente cinco anos. Reli-o e continuo a considerá-lo atual pelo que resolvi publicá-lo novamente após uma curta revisão e inseri algumas atualizações até porque é tempo de eleições autárquicas em que o nosso povo é mais envolvido e motivado para ir às urnas para eleger o seu poder local. 

No entanto, devo alertar para generalizações que não se deverão fazer. A generalização sendo uma operação mental que consiste em comparar as qualidades comuns a uma classe de indivíduos, desprezando as suas diferenças e reunindo essas qualidades comuns numa só ideia, corre-se o risco de transformar premissas em extensões arbitrárias de valores e de avaliações menos corretas podendo incorrer-se numa falácia. As generalizações podem, imprudentemente, levar a retirar uma conclusão geral da análise de uma situação particular ou de situações particulares que não são representativas de todos os casos possíveis.

Dizer, por exemplo, que os portugueses têm uma determinada característica estaria a incluir também portugueses que poderão não a ter. Exemplo: Pedro é político e boa pessoa. Por isso, todos os políticos são boas pessoas. Também quando se diz que os portugueses são invejosos não quer dizer que os portugueses X, Y e Z o sejam.

Quando me refiro à gente do meu país ou da minha terra, eu e o leitor, poderemos, ou não, estar incluídos nos atributos referidos. Se for o caso, cada um que calce o que lhe sirva. Muitos escritores o fizeram sem apelo nem agravo atribuindo-lhes características que nem todos tinham.

Resta esclarecer, para que puristas de género não me venham acusar de “machista”, que as palavras que escrevi quando foram do género masculino referem-se também ao feminino, evitando os parênteses à frente para (o/os) e o (a/as). Neste contexto, os portugueses e a gente do meu país são todos independentemente do género.

Para finalizar que me desculpem também os adeptos de futebol pela crítica que faço aos comentários que muitas vezes se vêm e ouvem nas televisões, as críticas não se dirigem a eles, mas sim aos que as pronunciam estupidificando os espectadores.

Posto isto, relembro o refrão “Ó gente da minha terra” de um fado interpretado por Mariza entre outros cantores. Contrariamente ao que consta por aí não foi ela que o escreveu. O mérito deve-se à excecional interpretação. Esta canção tem música de Tiago Machado e poema de Amália Rodrigues e o refrão versa assim:

Ó gente da minha terra

Agora é que eu percebi,

Esta tristeza que trago

Foi de vós que recebi.

Inicio este “post” com esta quadra porque recordei autores como Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro e outros tantos escritores e políticos que nas suas obras, cada um à sua maneira, traçaram perfis dos portugueses.

O povo português é muito acolhedor, sociável e hospitaleiro e recebe bem tudo quanto é estrangeiro e nos visita. Mostra, a seu modo, a sua subserviência disfarçada de hospitalidade. Genericamente é um povo que ajuda o seu próximo quando necessário, é solidário quando se trata de defesa dos interesses da sua comunidade em que se integra. Falsamente pacífico, introvertido apesar de alegre, preocupa-se mais com a vida dos outros do que em expor a sua. Há várias citações sobre os portugueses, algumas delas antagónicas.

Vejamos algumas dentre as várias personalidades do mundo da literatura e da política. Começo pelo Padre António Vieira, filósofo, escritor e orador português do século VIII que, numa das suas cartas escreveu: “Dizem que temos valor, mas que nos falta dinheiro e união; e todos nos prognosticam os fados que naturalmente se seguem destas infelizes premissas.”. Tem-se confirmado isto, os políticos que o digam.

Em 1997 António Lobo Antunes escrevia: “Eu gosto desta terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto.” Enfim, uma forma de nos olhar.

A gente do meu país tem uma incapacidade de autocrítica, tudo o que se faz de mal a culpa é sempre dos outros. Teve e tem a mania das grandezas. Fazer-se mais do que aquilo que é, é um dos seus atributos. Mostra aos outros aquilo que, na maior parte das vezes, não é.  A passividade e a falta de dinamismo são doenças sociais e crónicas que lhes foram inoculadas pela ditadura de Salazar que leva a nossa gente a ficar à espera que os problemas desapareçam. O "pai" Salazar e o clericalismo católico resolviam tudo menos a pobreza e a miséria, que a ambos interessava e estava patente nos seus discursos. "Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.". Pronunciava Salazar num discurso em 1936. "Ensinai aos vossos filhos o trabalho, ensinai às vossas filhas a modéstia, ensinai a todos a virtude da economia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei ao menos deles cristãos."

A não ser na altura dos descobrimentos, salvo algumas exceções, a originalidade da gente do meu país é parca, imita o que vem de fora, às vezes nem sempre o melhor. Não valoriza aquilo que tem de bom. Busca no estrangeiro o que há de pior e que passa a chamar de novo conceito. Não procura o que o pode distinguir pela diferença.

Felizmente que já pós a revolução do 25 de Abril muitos portugueses e portuguesas distinguiram-se lá fora. Aliás, os portugueses que emigraram eram considerados muito bons trabalhadores. Mas, cá dentro o trabalho é bom para os outros.talvez resquícios do colonialismo. O aumento de direitos, regalias e de salários  estão na ordem do dia e, sempre que possível, a redução dos deveres.

Estão na moda há algum tempo os chamados novos conceitos, termo querido pelos que são escolhidos a dedo e que são chamados às televisões para perorarem sobre os seus negócios inovadores que, passados meses ou poucos anos, acabam por encerrar portas. Quase sempre estes inovadores não transportam a qualidade até quem se destina o produto ou serviço. Muito pelo contrário. Caso típico é o da restauração. Proliferam por aí restaurantezitos, os tais dos novos conceitos onde passaram a colocar toalhetes de papel ou de plástico “made in China” colocados sobre uma mesa de ripas de madeira, onde, por vezes, mal cabem o prato e os talheres que se dobram ao cortar o hambúrguer e onde as pessoas se sentam em pequenas cadeiras do mesmo tipo ripado ficando conforme os casos com parte do traseiro fora do assento. Mas o mais caricato é que alguns colocam no interior mesas altas com cadeiras que é preciso escalar para chegar à mesa para comer amostras de iguarias, a que chamam degustação, inventadas pelo chef.

Depois há a ementa. Sob a capa de gastronomia tradicional portuguesa mostram preços com poucas diferenças dos restaurantes clássicos decentes. Ementas enganadoras proliferam desde pataniscas de bacalhau com arroz de feijão que são farinha frita com o sabor do dito. Esparguete à bolonhesa com escassez de carne picada que se afoga no meio duma tomatada do tipo "Ketchup". Hambúrguer no prato com salada e batatas fritas identificadas pelo sabor como de proveniência das mais conceituadas indústrias de congelação alimentar, entre outras iguarias do género. Onde está o bom sabor tradicional da boa batata frita caseira que nas verdadeiras tascas se servia? Não está. É batata congelada frita ou pré-frita.

Os fãs dos novos "conceitos" gastronómicos destes insípidos locais a quem a critica faz publicidade. A esses locais “sem caráter” atribuem os seus inovadores proprietários nomes à antiga portuguesa que se iniciam por Tasca do…, ou da…, Taberna da…, ou do…, Mercado de…, ou da… Muitos deles pertencem a cadeias que proliferam pelas principais cidades do país. E lá vamos nós, a gente portuguesinha a correr para desfrutar do novo conceito do bem comer e bem servir. No entanto quem pensa diferente e emite outros juízos é de imediato apelidado de conservador de retrógrado que se recusa acompanhar o progresso, ou de um perfeito "cota" por não aderir aos tais novos "conceitos".

Mas não ficamos por aqui. Vamos agora à língua portuguesa. Recupero da minha memória Lauro António que tinha um programa de crítica de cinema na televisão. Para fazer a apresentação do excerto dum filme para divulgação apresentava a peça de lançamento que Herman José posteriormente parodiou numa das sua peças humorísticas dizendo a certa altura: “let´s look at a trailer”. Isto passou-se há umas dezenas de anos.

A riqueza da língua portuguesa é depauperada pelos “senhores da comunicação”, sobretudo da rádio, e por quem convidam, que usam e abusam de palavras inglesas para se exprimirem, produzindo com elas uma amálgama de frases das quais se perde o verdadeiro significado. O português não é uma língua falada por meia dúzia de pessoas, porra!

Se alguém quiser dar-se ao trabalho de analisar por exemplo de línguas como a francesa e a espanhola não encontrará palavras de origem anglo-saxónica no seu vocabulário mesmo em expressões científicas e técnicas. Para salvaguardar a sua língua procuram termos adequados para o mesmo conceito.

Sim, já sabemos que há uma linguagem científica que é internacional e que as comunicações em congressos e outros eventos, são feitos em inglês que é a língua oficial. A distinção é que, internamente, naqueles dois países procuram termos equivalente para o seu vocabulário.

Mas nós, a gente portuguesa, queremos parecer originais, dar nas vistas e temos a necessidade de internacionalização para se justificar a utilização da língua inglesa em Portugal. A internacionalização é lá para fora não é cá para dentro. Veja-se o caso de muitas universidades e outras instituições que, para se darem ares de internacionalização utilizam nas suas designações palavras inglesas: Nova School of Business and Economics; Católica Lisbon School of Business & Economics, entre outras.

Estamos a abdicar de um dos valores mais importante na nossa cultura, a língua. As televisões e os emissores de rádio dão uma ajuda para esta abdicação. A ânsia de ser “cool” é tal que usam e abusam de termos ingleses que muitos espetadores e ouvintes desses canais nem sabem o significado. São sumidades que falam para outras sumidades da modernidade bacoca.

Será que os linguistas portugueses não conseguirão encontrar termos adequados em português de palavras inglesas técnicas e específicas da linguagem científica? Estou em crer que sim. Mas, como somos portugueses gostamos de mostrar que estamos “in” e, de certo, modo mostrarmos a nossa subserviência, cedendo até na própria língua, perdendo aos poucos o pouco orgulho que ainda temos (exceção feita ao futebol). A nossa gente está a ser inconscientemente aculturada a vários níveis. A apropriação desses estrangeirismos está na moda, faz parte do parecer, e não do ser. Fica bem. Parece bem. É cool.

Vejamos apenas alguns termos que se encontram por aí na gíria da comunicação social: Stakeholder, Cool, Red Carpet, Roof, In, Out, Sunset, Skills, Frendly, Brunch, Players, Pack, Resort, Look, Fashion.

A partir destes termos amplamente utilizados podemos imaginar uma reportagem com uma locução como esta:

O sunset de hoje foi abrilhantado pela fashion e pelo look das personalidades na nossa vida social e artística que atravessaram a red carpet. O acontecimento cool foi posteriormente continuado com uma conferência sobre as possibilidades de negócio que tais eventos podem possibilitar e onde os players negociaram com outros stackeholders. Um dos intervenientes referiu as skills necessárias para o sucesso deste tipo de negócio.  O evento frendly foi organizado num conhecido Resort de luxo onde foi servido um brunch.

Cool, não acham?   

O fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro disse em 1975 “Portugal precisa de apoio internacional generalizado e merece-o. Esse apoio, venha de onde vier, tem de respeitar a nossa independência e uma rigorosa não ingerência nos nossos assuntos.” O que vemos hoje é o contrário, sancionado pelo governo dos quatro anos de Passos Coelho. O desrespeito pela nossa independência também passa pela língua. Muita gente da nossa terra sustentou esta tese com o argumento de que quem empresta até nos pode matar se quiser, ainda que se cumpra o contrato. E há ainda quem aplauda teses como estas. Tudo o que é estrangeiro, mesmo que seja péssimo, é bom para a nossa gente. Tem que respeitar o estrangeiro mesmo que a faça padecer e humilhar. Até quando se discutiam as sanções a Portugal muita da nossa gente letrada sintonizava com europeus da união dizendo que regras são regras e devem ser cumpridas.

O vandalismo que infelizmente existe em toda parte em Portugal tem mais requinte. Nisso també temos que imitar e sermos ainda melhores. Tens um carro novo? Eu risco-o de uma ponta a outra. Para que serve uma floresta? Apenas para dar sombra e se é do vizinho rival ainda melhor, incendeia-se. O ramo da tua árvore incomoda-me, faz sombra na minha horta, se não o cortas deito-te a árvore a baixo. Há relatos especialmente a norte de homicídios devido à utilização de águas de um riacho. Um puxava a água e não deixava o outro regar. Não há negociação. Mata-se e pronto. As reservas naturais são anti progresso, não deixam que se construa. Incendeia-se e mata-se o bicho.

Somos um país de gente insana que provoca incêndios premeditados nas nossas florestas, loucos, alcoólicos, drogados, desempregados, dizem-nos nas televisões e como crédulos que somos acreditamos. Não há rede organizada mas atos isolados o que confirma a insanidade das gentes. Somos autores de espetáculos gratuitos para as televisões que vibram com tanta notícia.

Danificar com rabiscos, a que chamam "grafitis", paredes de edifícios públicos e outros,  faz parte do grupo da gente do vandalismo. Excluo daqui as pinturas que são um expressão artística urbana desde que escolhido o local certo. Esses que as fazem são outra gente.

A chamada mania das grandezas é outra nota que define a nossa gente e a que os sucessivos governos vão dando expressão, quer em tempo de abundância, quer em tempo de restrições, o chamado tempo das "vacas magras". Se uns fazem nós também temos que fazer, assim pensa a gente das autarquias. Quando há dinheiro esbanja-se em coisas de utilidade discutível para a comunidade local, depois vive-se na penúria.

Um caso histórico e paradigmático do passado é o Convento de Mafra, construção iniciada por D. João V com o ouro que vinha do Brasil. Homem fervorosamente católico, não está com meias medidas, e, para cumprimento duma promessa, caso obtivesse sucessão do seu casamento com a rainha D. Maria Ana de Áustria manda construir um convento gigantesco. Alto e importante desígnio nacional. E, a gente da nossa terra, vivendo na miséria, aplaudia com o apoio clerical. Maior convento não haveria no mundo, diziam.

O sentimento que se tem pela prosperidade e pelo desejo de possuir o que outros possuem faz parte e é característico da gente da minha terra. Tu tens? Eu invejo. Tu compras? Eu também. Tu viajas? Eu também. Se possível melhor, mesmo que isso me custe os olhos da cara e me endivide.

A gente do interior, fechada sobre si e pouco comunicativa, quando algum afoito intrometido tenta conversa refugia-se no estado do tempo. É a conversa da treta sem sentido cujo diálogo é quase sempre o mesmo. Veja-se este exemplo:

- Bom dia D. Zulmira! Então está a regar a suas couves?

- Pois é. Tem que ser.

- O tempo não tem estado nada bom. Tem sido uma desgraça para as alfaces.

- Tenha fé senhora. Deus há de ajudar.

- Olhe, nem queira saber! Tinha lá um feijão verde "sameado" estragou-se-me todo. Com isto assim não sei onde vamos parar.

- Tudo isto é uma calamidade e o governo não faz nada…

A gente da agricultura apresenta sempre a mesma escusa. No inverno é frio e a chuva e no verão é o calor e a seca. Basta escutar nos locais do interior a conversa entre vizinhos e conhecidos. Virgílio Ferreira tinha razão quando disse que "Frente a uma situação difícil, o Português opta pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota. O grave disto é que o milagre não vem e a anedota descomprime de tudo. Ficamos assim à mercê do azar e nem restos de razão para mexer um dedo". 

Face a algo imprevisto ou revés não é raro ver por esse país a mobilização de multidões, motivadas pela religião, em procissões de agradecimento aos mais diversos santinhos e santinhas de qualquer coisa ou lugar, e há mais do que muitos, pelo bem com que os agraciou ou pelo mal ter passado, não importa como aconteceu. Agradece-se pelo que aconteceu, ou pelo que parou de acontecer ou roga-se para que não volte a acontecer e aconteça o que ainda pode acontecer. Depois regressa-se a casa.

É o efeito da religiosidade da gente que vive obcecada com o divino que tudo resolve e a quem tudo é devido. A gente da minha terra faz manifestações e revolta-se quando um pároco é substituído, mas permanece queda a tudo o resto, mesmo ao que possa prejudicar ou mudar a sua vida ou a da comunidade. Facilmente manipulada por outras gentes lá se vai manifestando, de vez em quando, contra algo que não está bem, sobretudo quando descontente com o partido que ganhou ou não gosta dum primeiro-ministro pelos mais disparatados motivos.

E aqui a gente da minha terra divide-se entre o norte e o sul do rio Tejo. A norte o conservadorismo bacoco gerado pela ignorância. É como se um certo tipo de gene tivesse marcado a gente por sessenta anos de mentalização de Salazar que deu os seus frutos e se tem propagado através das gerações. A sul a gente é mais afoita e sem medo e também conservadora mas em sentido oposto porque aí a religião conta menos. São os "mouros" como lhe chamam os do norte. Não se deixam conduzir por homilias com matizes de política disfarçada.

As gentes de Portugal não gostam de discutir o papel da religião dominante, deveria dizer antes clericalismo dominante aceitando acriticamente a sua moralidade hipócrita. Seguem a preceito o postulado de Salazar "Portugal nasceu à sombra da Igreja e a religião católica foi desde o começo o elemento formativo da alma da nação e o traço dominante do carácter do povo português".

Somos ainda uma gente de fé que peregrina e cumpre promessas por graças que lhe foram concedidas por santos milagreiros. Locais de peregrinação são casos paradigmáticos onde se vão cumprir promessas de graças julgadas concedidas e fazer pedidos para aquilo que os Homens não lhes podem dar.

Somos uma gente maioritariamente cristã e crédula a quem é prometido o céu e acredita nos pregadores dos ofícios religiosos quando lhe dizem que as desigualdades sociais não têm importância na nossa curta vida, são condições de provação que serão compensadas na vida eterna. Assim é alimentado o espírito das mentes ingénuas e boas das gentes deste Portugal.

Em fevereiro de 1878 Eça de Queiroz em Cartas a Joaquim Araújo escrevia que “(...) o povo em Portugal, nas províncias, não é católico - é padrista: que sabe ele da moral do cristianismo? da teologia? do ultramontanismo (partidário da autoridade absoluta do papa) ? Sabe do santo de barro que tem em casa, e do cura que está na igreja."

Em 2012 a revista Sábado publicou uma crónica "Nós, os Portugueses" onde caracterizava a gente portuguesa escrevendo a certa altura: "Como se pode caracterizar, ainda que de maneira genérica, o povo português? Somos atenciosos, cordiais, flexíveis, facilmente nos moldamos à cultura do interlocutor e dialogamos, sem reservas, sobre diversos temas de forma animada. Contudo, e ainda que possamos achar uma certa piada às graças sobre os atrasos sistemáticos, para encontros, ou sobre o não cumprimento de prazos, apreciamos que os nossos “brandos e bons costumes” sejam respeitados!".

A arrogância e superioridade da nossa gente, quando em contacto com povos de outras culturas africanas e orientais, é notório pelo tratamento “por tu” sem que haja qualquer justificação de proximidade. É uma espécie de mostra de superioridade face ao seu interlocutor de outra cultura ou de outra cor de pele. Mas, cuspir para o chão e deitar objetos no espaço por onde passa ou frequenta que atingem o auge em momentos de concentração popular são reveladores da sua "superioridade".

Há outra gente, que frequenta meios cujas revistas cor-de-rosa se encarregam de divulgar. A gente do meu país, especialmente  a das grandes cidades, não passa sem a sua dose de cultura. Telenovelas, "Reality Shows” tais como “Big Brother”, "Quinta das celebridades", "Love on Top" e outras rasquices televisivas semelhantes, fazem parte das suas preferências culturais. A estas ainda se incluem a leitura de revistas cor-de-rosa que pode ser comprovado pelo número das tiragens semanais e onde proliferam fotografias de colunáveis a que se atribuem nomes de boa origem inglesa como "socialites", que passou a ser incorporado na língua portuguesa, tal e qual, jet set e outras piroseiras, misturadas com outras gentes que deixam devassar a sua vida privada.

Milhares das nossas gentes frequentam redes sociais, especialmente o Instagram, onde se expõem de corpo e alma, sobretudo de corpo,  para recolherem muitos "likes"  de seguidores(as) que os levarão ao êxtase da visibilidade e exposição.

O voyeurismo da vida dos outros vende, aliena, leva ao consumismo por imitação. Gente anónima, que quer mostrtar que existe, mas sobretudo, atores de telenovela e outros como futebolistas, treinadores, apresentadores de TV, políticos, banqueiros, cozinheiros (a quem agora se passou a chamar "chefs"), empresários de renome, ilustres desconhecidos (as) catapultados (as) pelo atrelar a outros (as) já bem conhecidos (as), sem profissão e por aí adiante, são vasculhados e expõem-se, deixam revelar a sua vida, a sua intimidade familiar, fazem poses frente às câmaras para fotografias que sabem sairão nas próximas edições. Passam a ser referências, exemplos modistas para quem compra e lê essas revistas e vê programas televisivos do género.

Nada escapa ao vasculho. Uns põem-se a jeito, outros para se tornarem popularuchos porque, quem não aparece esquece como diz a nossa gente. Reis e rainhas, príncipes e princesas, condes e condessas todos são servidos de bandeja à gente ávida de escândalos e conhecimento do modo de vida de tais nobres figuras. A vida dessa outra gente é o que interessa. Casamentos, trajes, divórcios, nascimentos, batizados, aniversários, festas, discotecas são essenciais são o pão para a alma.

É o mundo que tem material para os cronistas da vida mundana cuja pobreza e vazio intelectual são evidentes para quem os vê e escuta, com o distanciamento necessário, em alguns programas televisivos. Essa gente comentadora é colocada à frente das câmaras para abordar temas sérios com uma frivolidade confrangedora. Não é por acaso que programas de qualidade duvidosa têm as audiências que têm. É o mundo da outra gente, que a nossa gente ajuda a viver. Os canais de televisão oferecem conteúdos que as gentes gostam de ver. Dá à gente o que ela quer. Cabe aqui a pergunta que é de saber quem surgiu primeiro, se o ovo ou a galinha, no sentido de saber se não terão sido criados certos “apetites” que depois são exigidos como ofertas. Dar a provar para gerar necessidade.

Fertiliza-lhes a imaginação, ajuda-os a sonhar com uma vida a que nunca terão acesso. Ficam-se pelo sonho. E sonhar é bom. Fazem-lhe esquecer e alienar-se do que é importante. Mas a realidade é inexorável, e volta sempre, mas não constatam que é nela, e por ela, que devem lutar

De norte a sul as gentes do meu país adoram futebol. Sofrem, vibram, participam de forma passiva uns, mais ativamente e furiosamente outros. Deslocam-se atrás do seu clube para onde quer que vá. São desportistas do passeio que transforma o espírito desportivo, que deveria ser pacífico, numa atividade grupal insana e de rivalidades permanentes. E, mais uma vez, as televisões ajudam com debates intermináveis onde os participantes gritam, ofendem-se mutuamente, insultam-se, mexem-se convulsivamente nas cadeiras, gesticulam. Sei lá? E isto tudo tem audiências. É o que importa afinal. Captar audiências à custa da confusão que desinforma, mais do que informa.

Os senhores da bola são gente que se dão ares de especialistas e que acha que o futebol também é uma ciência com estatuto e linguagem própria. Vê-se pelas declarações futebolísticas que são duma pobreza confrangedora. Usam uma linguagem composta por palavras que juntas nada dizem de objetivo. São os intelectuais da bola.

Vejamos alguns vídeos:  

 

 

Retira-se que:

Sim… foi um bom jogo… Para mim e para a equipa… Chegou-se a um resultado positivo… Que era a vitória. Vamos festejar esta vitória e pensar no próximo jogo. É sempre importante conseguir as vitórias…

 

Pois claro. digo eu!... O óbvio

 

 

Dedicatórias, vitórias do grupo da união e do trabalho… O jogo já é história, temos que pensar é no próximo…

Frase profunda do comentador

… compreensão que temos que fazer do adversário…

Alta psicologia.

Parabéns a todos…

Que mais se poderia dizer?

Não tenho nada a apontar aos meus jogadores. Fizemos tudo para superar os cinco jogadores… Por várias vezes superámos quatro, por várias vezes superámos três, nunca conseguimos ultrapassar os cinco, mas… foi profundamente ingrato…

 

 

Filosofia da melhor.

 

 …jogo tradicionalmente difícil e tornou-se na realidade difícil… porque  (?) uma boa equipa, uma equipa que nas últimas quatro jornadas teve três vitórias, uma equipa que se bate muito bem… nunca desiste e via à procura do resultado… mas acabou por ganhar na minha perspetiva a melhor equipa… tivemos as melhores oportunidades, podíamos ter feito um pouco mais cedo… era um campo que tínhamos que vencer e que era uma jornada importante…

Do mal, o menos, em futebol o que mais se poderá dizer? Nada… E o resto é o vazio…

O seguinte vídeo mostra de facto a elegância e a fluidez verbal da terminologia futebolística.

 

 

É disto que a gente do meu país, amante do futebol, gosta. Por isso o futebol merece um pouco mais de desenvolvimento. Tendo pretensões a mostra que há uma ciência futebolística, já que não o é pelo discurso pelo menos tenta pelos métodos. Assim, fazem estatísticas com dados ao segundo de golos marcados e por marcar, lances, remates à baliza por jogador, cartões amarelos e vermelhos dos jogos, lesões por jogador, resumos semanais, mensais e até anuais, comparações que não conduzem a resultado nenhum, nem contribuem para nada a não ser demonstrar o indemonstrável. E, na época seguinte, nada se avançou repete-se mais ou menos o que se disse na época anterior, até à exaustão da paciência da outra parte de nossa gente que não vai em cantigas de futebol enquanto tema de discussão.

Não há técnica, nem estatísticas nem o que quer que inventem para prever quem ganha ou perde jogos, se assim fosse todos os especialistas ganhavam o totobola. Os jogos ganham-se com as pernas dos jogadores e uma bola a saltar dum lado para o outro até que haja uma abertura para ela entrar no retângulo duma das balizas. Certezas nunca há. Os inquisidores futebolísticos, porque há uma inquisição futebolística, escusam de culpabilizar treinadores e jogadores lançando-os na próxima oportunidade à fogueira da opinião pública dos adeptos e clubistas. É o que muitas vezes se verifica quando um clube perde um jogo e, sobretudo, se for um campeonato.

É um fenómeno mundial, dizem sociólogos. Pois é, não é por acaso. Não veem que tudo isto é, em todo o mundo, um negócio de milhões para alguns. O futebol deixou de ser um desporto de competição para ser um mercado e um negócio que a nossa gente e outras gentes alegremente acarinham. Se a isto juntarmos ainda os furiosos gangues de adeptos que se auto denominam claques, apadrinhadas pelos clubes, que utilizam a violência gratuita uns contra os outros e contra outros cidadãos com intuitos desmoralizadores sobre as equipas adversárias temos um perfeito caldo de cultura.

Para além do futebol há o delírio dos concertos e dos festivais que começaram a proliferar por aí, especialmente durante os meses de verão, e tão do agrado especialmente da nossa gente jovem mais urbana cujos ascendentes fugiram há muito do interior para as grandes cidades para mudar da vida.

É o delírio. Todos os lugares querem ter visibilidade e a melhor forma é um festival "rock". As televisões ajudarão à promoção. São autênticas migrações de jovens deslocando-se de norte a sul para verem os seus ídolos. As entradas são caras, sem contar com deslocações, estadia e alimentação, mas os euros aparecem sempre. Para as contas do país da nossa gente é que é o problema porque, o caché pago funciona como importações o que vai ajudar ao desequilíbrio da balança comercial. São milhões de euros. Mas que importa isso. Quem promove e organiza festivais sabe que é dinheiro em caixa e daí a proliferação deste tipo de negócio. É bom porque movimenta as economias locais, mas muito melhor é para quem os organiza. Até a “Festa do Avante” para atrair a gente jovem convida grupos "rock". Ainda bem!

Mais uma vez nos dizem que não é só cá. Lá fora, no estrangeiro, e o mesmo. Pois é, mas também nos dizem que somos uma país pobre e que temos que pagar com juros os milhares de milhões que a troika nos emprestou por termos gasto acima das possibilidades. Afinal quem paga tudo isto?

Na política os jovens filhos da nossa gente ingressam pelas juventudes partidárias. Gente jovem a quem a educação para os valores não lhes foi transmitida nem incutida que quer obter o sucesso a qualquer preço. Valem-se da intriga, da mentira, denegrindo pessoas… pegam na política do vale tudo, do desdém pelo próximo que colocam ao serviço da política filiando-se num partido que os possa catapultar para lugares onde possam viver à custa do erário público.

Mesquinhez, inveja, egoísmo, mexeriquice, passividade, iliteracia, conservadorismo a vários níveis, desprezo pelos bens de terceiros, desprezo pelo nosso património cultural e florestal, dar importância ao parecer, mais do que ao ser, etc., etc..

Mas nada disto é recente, pois Guerra Junqueiro dizia em 1896 que somos "Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)

A imbecilidade reproduz-se ao longo dos anos e neste século XXI mantém-se, emerge sempre que uma oportunidade surge. O facto novo que confirma a dose de estupidez que agora começou a percorrer a nossa gente urbana são as manifestações negacionistas. Grupelhos de gente do meu país, manipulada pelas redes sociais, que rejeita hoje as recomendações resultantes da investigação  científica sobre vacinação e alterações climáticas agitam-se com teorias da conspiração e pós-verdades ficando-se pelo domínio da estupidez demonstrada em manifestações de ódio, rebeldes, agressivas e sem nexo. 

É a gente do meu país!

 

 

 

 

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publicado às 17:23

Escreve hoje Pacheco Pereira no jornal Público:

"Escrever sobre impressões é arriscado e corre o risco de ser inútil ou, pior, ser uma colecção de lugares comuns. Não há nenhum medidor do “cansaço”, da “tristeza”, da “zanga” no sentido do título, a não ser estudos de opinião, sondagens, num terreno muito mais subjectivo do que objectivo. Mas há sinais. Maus sinais. Comecemos pela razão por que eu não digo que é Portugal, nem “o país”, nem “os portugueses”, o sujeito, mas sim a democracia. E aqui as coisas pioram muito, porque o estado da polis, que seria o primeiro remédio se estivéssemos a falar do país, ou o local onde em democracia se poderiam “arranjar” as coisas que estivessem estragadas, andando mal, tudo o resto tende a ser pior. Voltemos ao pathos, ao logos e ao ethos."

Pode continuar a LER AQUI.

 

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publicado às 16:37

Estúpidos e estupidez ou tolice crassa

por Manuel_AR, em 30.08.21

Negacionismo_estupidez.png

Montagem baseada na fotografia de Nuno Ferreira Santos 

jornal Público

A estupidez e a tolice não têm limites. A tolice é arrogante, perentória. Afirma-se como algo completamente idiota, mas com toda a autoridade necessária. Isto porque a tolice é segura de si mesmo, mas a estupidez pode hesitar. Todos nós diariamente dizemos estupidezes, mas eu esforço-me por evitar dizer demasiadas tolices sobretudo as que são individual e socialmente prejudiciais. 

Notícias sobre grupelhos anti vacinas e outros que negam tudo o que vem à rede   estimularam a escrita deste texto. Foi a causa próxima, mas a causa remota para esta minha incursão sobre a estupidez deve-se um livro que li há algum tempo e que não divulgo porque se trataria de publicidade, talvez enganosa e a editora não me paga para fazer publicidade. Aqui está, um pensamento estúpido. Refletindo sobre o que então li não pude deixar de me auto considerar e passar também a incluir-me no grupo dos estúpidos, pois foi este o meu sentimento após a leitura do dito livro do qual ao longo do texto resolvi incluir algumas citações, poucas.

Foi uma sensação estranha e alguns laivos de raiva que me percorreram. Eu estava incluído naqueles cujos estupidez se evidencia, nesses mesmos cujas ideias obtusas eu fazia por combater. Eu que julgava ser um apoiante da ciência "decente", (também há aquela que é imprópria, falsa). Pensava que estaria incluído no grupo daqueles que consideram partilhar com os restantes membros certos de valores, atitudes e comportamentos.

Utilizo as redes sociais e descobri que há muito espaço onde estúpidos disputam a sua estupidez, fazendo-a multiplicar por aqueles que, não se considerando estúpidos seguem um preceito passando a fazer desse grande grupo da estupidez.

O viés da estupidez manifesta-se através da tolice e deriva do chamado viés cognitivo que são erros inconscientes de pensamento que surgem de problemas relacionados com a memória, atenção e outros erros mentais. Normalmente é devido a preconceitos que resultam dos esforços de nosso cérebro para simplificar o mundo incrivelmente complexo em que vivemos. É um enviesamento cognitivo talvez devido a erros de perceção social gerados por incompatibilidade entre perceção social e realidade social.

Assim, e segundo especialistas “As expectativas podem ser auto confirmadas, não apenas porque criam predições autorrealizáveis, mas também porque podem influenciar, enviesar e distorcer a maneira como as pessoas interpretam, avaliam, julgam, lembram e explicam os comportamentos e características dos outros”. Há investigações que demonstram que as expectativas influenciam o modo como as pessoas recolhem informações de maneira que confirmem as suas expectativas. (Jussim, Lee; 2012 ; Social Perception and Social Reality: Why Accuracy Dominates Bias and Self-Fulfilling Prophecy; Oxford University Press).

A estupidez espreita, penetra por onde encontre uma fresta e apresenta-se em todas as áreas do saber, seja medicina, vacinação, ambiente, crise climática e muitas outras sobre o que, consoante a estupidez lhes dita, dizem conhecer e estarem informados. O seu lugar de eleição são as redes sociais onde podem encontrar estúpidos que, inconscientemente, vão engrossar a casta dos estúpidos.

Os negacionistas da vacinação com a sua falta de literacia em saúde, para além de ignorantes, desconhecem que ainda paira na nossa memória coletiva o tempo em que o sarampo, a varíola e a poliomielite matavam ou marcavam para a vida. Os mais velhos perguntem aos vossos pais e avós, se ainda os tiverem, que viveram numa época a que hoje chamamos obscurantista!

Sobre a ignorância recordo aqui uma pesquisa que fiz sobre o efeito de Dunning-Kruger que se resume a que uma pessoa incompetente numa determinada área apresentará obviamente maus desempenhos neste campo, mas, além disso, e segundo o seu próprio critério, essa pessoa não vai notar a sua própria ignorância e sobrestima o seu desempenho. Assim, também o estúpido, preso na sua própria ignorância, abstém-se da capacidade de ver as coisas do ponto de vista de alguém que saberá mais do que ele e sofre também do efeito de Dunning-Kruger.

Considerando-me, como afirmei no início deste texto, no grupo dos estúpidos, no entanto, tento redimir-me recorrendo ao conhecimento de quem não é idiota e é pouco estúpido. Se alguém estúpido, ou que ache não ser estúpido, me esteja a ler pode confirmar o efeito da sua ignorância em: Dunning, David, (2011). The Dunning–Kruger Effect On Being Ignorant of One's Own Ignorance ; Advances in Experimental Social Psychology. Elsevie.

Esta investigação ainda mostra que as pessoas verdadeiramente competentes subestimam ligeiramente as suas competências. O verdadeiro especialista está consciente de ser um especialista, mas também estará ciente do que não sabe e do que ainda tem de aprender. Por sua vez o estúpido, desconhecendo que é estúpido, não se perturba pelo que, certamente, não se priva de impor ao seu séquito, e a outros, a sua estupidez. Ao escrever este texto sinto-me como eles: escrevo sobre o que julgo que sei, mas, de facto não sei. Por isso, para aprender, recorro muitas vezes aos que sabem e cujo conhecimento já foi validado e reconhecido por outros especialistas da sua área.

Há pessoas, pressupostamente instruídas, que rejeitam hoje as recomendações científicas sobre, por exemplo, a vacinação e as alterações climáticas e agitam-se com teorias da conspiração e pós-verdades ficando-se pelo domínio da estupidez. Atenção o conceito estupidez, conforme os contextos, pode abarcar a mentira, a tolice, as balelas, a ignorância e a inaptidão. Posso acrescentar equivalências como parvoíce e o sumo da imbecilidade generalizada que é a pós-verdade e verdades alternativas (leia-se mentiras).

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Quem sobressai pela estupidez não significa que não seja inteligente porque para produzir disparates necessita de inteligência e cognição para os inventar, defender e os disseminar. São os tolos inteligentes que, partem de premissas falsas e teorias não validadas nem cientificamente provadas. Para eles é uma verdade alternativa, (como se esta fosse possível!), que não corresponde no todo, nem em parte, a factos comprovados. Digo uma tontice sobre determinado facto que não aconteceu e divulgo a quem me contesta: esta é a minha verdade alternativa! Neste caso, confirma-se a minha estupidez. Penso, mas logo, sou estúpido.

O paradigma da tolice está nos que afirmam que esta, ou aquela, é a sua opinião e que a podem partilhar em locais como redes sociais onde a estupidez e a tolice se irão repetir sem restrições e onde as mais variadas conotações se irão afirmar. Por sua vez, aqueles que seguem a partilha pensam ficar “conhecedores” e assumem o seu conteúdo como verdade absoluta sem validação nem confirmação.  Quem está a ler o que neste momento partilho poderá constatar isso mesmo, com a diferença de que fiz os possíveis, com mais ou menos êxito, por validar as minhas tolices.

A pós-verdade veio para confundir as opiniões públicas porque o seu significado, segundo o Dicionário Oxford, significa uma condição em que “os factos objetivos têm menos influência para formar a opinião publica do que o apelo às emoções e às crenças pessoais”.

Vejamos a seguinte situação: se você, que está a ler este texto, não partilha das mesmas opiniões está errado e, ao argumentar contra esta posição, o que pretende á manipular-me. Ou ainda: o mesmo leitor, ao defender que não partilha das minhas opiniões apresentando argumentos, eu posso dizer que o que ele pretende é manipular-me. O que acontece é que os pontos de vista polarizam-se e cada um pretende impor o seu ponto de vista   pela desacreditação e pondo em causa a honestidade do outro atingindo-o até no seu caráter. Assim, os factos, o que realmente interessa, o que interessa para o caso passam a conceitos totalmente acessórios e até suspeitos. Uma observação com imparcialidade deste tipo de ações perguntaria se tudo o que estava a observar não seria estúpido ou uma tolice.

Estupidez e tolice são adjetivos que podemos dar a essa treta a que se chama pós-verdade, fake news (notícias falsas, mentiras), teorias da conspiração muitas vezes fundamentadas por falsas investigações. 

Assisti a uma intervenção na SIC Notícias (22/08/2021, Noticiário da 19H) de um relativamente jovem fogoso, dito professor universitário de Saúde Pública Internacional convencido de possuir o segredo da interpretação dos dados pandémicos que afirmava que um critério para definir o estado em que se deviam tomar medidas face à covid-19 era através do número de mortes pela doença. E, espante-se, afirmou ainda que a obrigatoriedade de apresentação do Certificado Digital de Vacinação Covid era contra a liberdade e comparou com as marcas que os nazis faziam nos braços dos judeus para os identificarem. Qual a base científica em que se baseia aquele jovem professor para produzir tanta estupidez e que deve passar a outros que a irão reproduzir e partilhar.  São pessoas como esta que alinham, não pela ciência, mas primando pela procura de pontos de vistas tolos que lhe possam dar visibilidade televisiva.  

A estupidez não tem limites, diria até que é a tolice que não tem limites. A tolice é arrogante, perentória. Afirma-se algo completamente idiota, mas com toda a autoridade necessária. Isto porque a tolice é segura de si mesmo, mas a estupidez pode hesitar. Todos nós diariamente dizemos estupidezes, mas eu esforço-me por evitar dizer demasiadas tolices sobretudo as que são individual e socialmente prejudiciais. 

Como explicar a tolice de pessoas que fazem protesto sem máscara nem distanciamento social, incluindo crianças, em que se ouve o hino nacional e onde a confusão de várias palavras de ordem demonstra a confusão mental desta gente: “Liberdade”, “Portugal”, “O povo unido jamais será vencido”. Palavras de ordem do 25 de abril à mistura com julgamentos no tribunal de Nuremberga e citações de Salgueiro Maia. Por cima de T-shirts pretas muitos dos manifestantes prenderam a bandeira nacional ao pescoço, à laia de capas. A manifestação/encontro na via pública foi liderada pelo juiz Rui Fonseca e Castro, suspenso de funções e alvo de um processo-crime por incitamento à desobediência civil contra as medidas impostas para combater a pandemia é o mesmo juiz Rui Fonseca e Castro, do movimento Juristas pela Verdade que pode consultar aqui. Mas, qual verdade? A única, a deles, a absoluta? Apenas a tolice pode explicar a sua verdade.

Gente deste tipo até aproveita graves problemas que a afetam a saúde de milhões de pessoas para propaganda política. Não pretendo fazer juízos de intenção, mas devem pertencer a grupos fascizantes e extremistas de direita porque cidadãos normais na posse das suas faculdades de valores sociais que se agarram logo a símbolos da nação, com tendência para a violência e ameaças como foi o caso de Gouveia e Melo, apenas executor das medidas tomadas pelo Governo, que foi recebido com protestos anti vacinação e ameaças como aconteceu em Odivelas, e, daí, o estilo das palavras de ordem utilizadas. Gente normal, põe máscaras num caso e não se enrola na bandeira de Portugal noutro caso, e tenta fazer passar-se pela voz de todos os portugueses. Estamos a viver o tempo em que os disparates que se dizem nas redes sociais e em “sites” manhosos excedem-se para a vida real.

Para finalizar: caso tenha lido todo o texto e se me considera um estúpido não hesite, coloque um comentário. Mas se você considerar o contrário não coloque nenhum comentário e ficarei com a certeza e muito feliz porque, afinal, não pertenço aos estúpidos.

 

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publicado às 19:01

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A questão que deve estar permanentemente no espírito de todos nós e levantar sérias preocupações, apesar disso raramente ou nunca, escrevi sobre as crises climáticas, porque são múltiplas. O tema é premente e deve ser objeto de preocupação global.

Ao refletir sobre o comportamento e atitude das sociedades face às questões da grave crise que estamos a atravessar saltei da minha atitude de cética para a de pessimista, tendo como alicerce o seguinte pressuposto: embora os políticos e líderes dos governos mundiais estejam a proclamar, tardiamente, supomos com as melhores intensões, ações no presente para se travar ou  retroceder os efeitos de catástrofe causadas pelas as alterações climáticas, não se conseguirão minimizar com rapidez suficiente os seu efeitos  o que levará séculos, senão milénios, a recuperar tudo o que foi destruído durante cerca de dois séculos.

As ações do homem sobre o ambiente, por maldade, descuido, desinteresse, estupidez e ignorância como no caso dos incêndios catastróficos desencadeados durante décadas têm sido apenas um dos grandes causadores da destruição ambiental. Os incêndios e as inundações são as catástrofes que ultimamente têm sido mais evidenciadas pelos noticiários televisivos com imagens aterradoras, mas não são apenas estes, há os que têm menos visibilidade como a emissão em massiva de gases para a atmosfera causadores do efeito estufa, a sobrepesca, as várias formas de poluição, o desmatamento, acumulação de plástico nos oceanos, etc.

Em circunstâncias como estas não há que escolher palavras, não há que ser politicamente correto, não há que evocar valores morais nem éticos para nos pronunciarmos contra atos causadores de tragédias como a extinção de espécies, a extração de recurso sem controle apenas devido à avidez do lucro imediato. Os recursos extrativos dos países são explorados até à exaustão para exportação, contribuindo para o equilíbrio das suas balanças comerciais. Os países denominados do terceiro mundo, os mais pobres, também têm contribuído em grande escala para a danificação ambiental nos seus próprios países.

Os governos de todo o mundo são responsáveis pelas decisões que não tomam ou adiam. As empresas são também responsáveis cavalgando a onda das indecisões desses governos e orientam as suas decisões para a maximização do lucro e nós, a sociedade, tem iguais responsabilidades porque não resiste ao estimulo dado pelas técnicas de publicidade das empresas que são orientadas para uma sociedade de consumo.

Uma notícia do jornal Público de 12 de agosto escrevia que “Projeto piloto que permitiu recolher, entre março de 2020 e junho de 2021, 16,2 milhões de garrafas destinadas à reciclagem” terminou, e a devolução de garrafas em 23 supermercados deixou de dar desconto pelo que as entregas caíram 70%. Face a esta notícia podemos concluir, embora apressadamente, que a sensibilização das pessoas para as questões ambientais ainda não está assumida e interiorizada se não for compensadora. No editorial no mesmo dia no mesmo jornal Manuel Carvalho escrevia: “Porque, como o mostra a história das garrafas de plástico, é uma utopia acreditar que o combate à maior ameaça dos nossos tempos se pode fazer apenas com apelos à boa vontade. Custa dizê-lo, mas a realidade é o que é”.   

Debater o tema da crise climática e da poluição ambiental exige, naturalmente, distanciamento de interesses e de pensamentos nacionalistas enraizados, de espírito científico aberto, prática que os líderes políticos de todo o mundo parecem não possuir. Ficam-se por promessas e por boas intenções. Os líderes dos países industrializados dizem que estão a fazer tudo para a reduzir as emissões de carbono e pensam que os problemas climáticos e salvar o planeta passa apenas por isso e que tudo se irá resolver através de medidas paliativas. Mas salvar o planeta passa também pelo que já atrás referi. Sofrem da espécie da síndrome do “efeito da terceira-pessoa” pela qual se acha que o que acontece é apenas aos outros. Pode também ver aqui ou aqui.

O debate sobre o aquecimento global e a crise climática extremam pontos de vista que passam pela ignorância, obscurantismo e estupidez dos negacionistas até aos do politicamente correto e das posições não consensuais sobre que se pode ou não fazer.  O meu pessimismo, tendo em consideração as vãs promessas, qualquer que seja o objetivo apontado o ano 20?? já será o ponto sem retorno.

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Documentários e reportagens sobre fenómenos extremos causados pela crise climática que passam nos canais televisivos, nomeadamente a SIC, têm mostrado o terrível estado em que já nos encontramos.

Milhares de artigos científicos, comentadores da área climática e jornalistas de vários órgãos de comunicação, fazem alertas nos media que caem em saco roto.

Os discursos dos políticos raramente abordam a crise climática e a sustentabilidade ambiental, salvo quando há eventos internacionais sobre o tema.  Quer por imposições legislativas dos governos, quer por iniciativa de empresas mais responsáveis, a implementação maior parte das vezes as decisões que deveriam ser tomadas demora na sua aplicação, quando não adiadas mais ou menos ano, mesmo sabendo que as consequências serão cada vez mais gravosas para o ambiente à medida que o tempo passa o que está à vista de todos. Ficam-se pelas boas intensões que um dia terão de ser tomadas, mas, segundo os cientistas, o tempo urge.

Apesar das evidências da crise climática que atravessamos há ainda líderes de governos liderados por fantasistas, irresponsáveis e negacionistas que recusam olhar o problema de frente recusando-se a qualquer tomada de medidas. Estes não fazem parte da solução, são o problema.  

 O editorial de Manuel Carvalho do jornal Público de 9 de agosto alerta para o fenómeno que tem que ser encarado com urgência e responsabilidade. Afirma ele que

a resposta necessária contra a catástrofe exige dos políticos, dos gestores e de todos nós uma mudança de hábitos que pode estar para lá do que é possível. É preciso falar sem meias-palavras…”

Sublinha que as medidas a tomar irão implicar uma mudança de hábitos de consumo que poderá levar a um recuo civilizacional. Refere ainda que medidas como consumo de “menos carne, compra de menos televisões ou computadores, viajar menos”. A estes ainda podemos acrescentar trocar menos vezes de smartphone, de automóveis, de eletrodomésticos enfim, o abandono sustentável da sociedade de consumo e o regresso a uma austeridade de consumo assumida por todos. São tudo boas intensões. Intenções desajustadas à situação que esquecem que há mais vida para além da economia.

Concordo com Manuel de Carvalho quando escreve que, “uma travagem no modelo de economia e de sociedade voltado para a riqueza e o crescimento contínuo.” Pode ser uma das soluções.  Só uma mudança de atitude que tenha em vista a austeridade, a temperança, para utilizar um termo do catecismo da Igreja Católica, que louva a   virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados, usando com moderação os bens temporais como a comida, a bebida e o conforto com discrição.

A dúvida que sustenta o meu pessimismo baseia-se no pressuposto da dificuldade de mudanças de atitude e comportamentos numa sociedade de consumo como a nossa, em que o ter é mais importante do que o ser, e em que a publicidade, muitas vezes agressiva, incita ao consumo em massa e torna obsoletos objetos e bens materiais que anos após ano se vão substituindo por outros se irão alterar.

Os impressionantes progressos científicos e tecnológicos que, segundo o argumento deveriam ter sido suficientes para enfrentar a crise climática - pense em alternativas de carne, painéis solares, casas ecológicas, estes apenas dirigidos aos que têm disponibilidade financeira, não são suficientes. Quanto aos painéis solares, uma boa alternativa à produção energética, levam-me a imaginar as paisagens agora verdes e espaçosas a serem substituídas por painéis solares que se prologam em espaços espelhados até onde a vista alcança.   

Será que poderemos sair desta sucessão de acontecimentos que se repetem e colidem com obstáculos que contrariam uma desejável regeneração climática, numa espécie de círculo vicioso. Acho que não, nem numa nem em duas décadas. Alinho com o argumento do antropólogo Jason Hickel no seu último livro “Less Is More. Como o Degrowth Will Save the World ”, 2020, segundo o qual as sociedades ricas têm como objetivo fundamental o crescimento da economia cujos ganhos são imediatamente reinvestidos na mesma economia, produzindo mais bens, exigindo e arrancando cada vez maiores porções da natureza para alimentar os circuitos de extração de recursos minerais, e de produção de animais e vegetais, alguns destes últimos cultivados fora das suas regiões endémicas exaurindo as reservas aquíferas que vão contribuir para a mesma pegada ecológica, não a reduzindo, por vezes até aumentando-a.

Pergunto como será possível que, ao mesmo tempo que se procuram estratégias para descobrir fórmulas para a redução das emissões de carbono, preservar os ecossistemas e salvar espécies ameaçadas, defenda-se uma sociedade de consumo excessivo num suposto melhoramento das condições materiais de vida em todo o mundo?

Alguns afirmam que é tudo a penas uma questão de “vontade política”. Não me parece que seja apenas isso porque há razões psicossociais lógicas sérias para se ficar no status quo e adiar decisões drásticas mantendo a passividade quando se coloca a decisão de ter de abdicar de um bem menor no presente em favor de um bem maior no futuro, a preservação do nosso planeta. Tudo quanto possa criar entropias ao poder económico e financeiro mundial é sucessivamente adiado. São os intocáveis e, face a ameaças, clamam que as alternativas que se colocarem conduzirão ao apocalipse económico. Preferem o apocalipse climático com a destruição de bens e vidas humanas ao apocalipse económico, este que pode ter soluções várias e rápidas enquanto o climático não terá remédio conduzindo ao fim do planeta e da humanidade.

Há pouco mais de dois anos tivemos uma amostra disso quando o mundo estava numa fase decisiva para travar a tempo o agravamento da crise climática que foram as tentativas da administração dos EUA, leia-se, Trump, para desmantelar grande parte das leis de proteção ambiental e ao retirar-se do acordo climático de Paris abrindo caminho para mais acidentes industriais em larga escala e catástrofes futuras.  As consequências das políticas governamentais só se fazem sentir várias décadas depois das decisões tomadas, quando os que as protelaram ou as fizeram aplicar já estiverem fora dos governos.

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Algumas das soluções propostas são radicais e potencialmente inexequíveis. Há estudos de economistas que avançam a solução de reduzir o crescimento económico (decrescimento), como se pode verificar pelos gráficos da Our World Data. Ver gráfico anterior.

Os defensores do decrescimento argumentam que não podemos continuara a crescer sem que daí ocorra a já anunciada catástrofe climática. Mas como será isso possível quando o PIB tem tido um crescimento que apenas abrandou com a pandemia covid-19.

Podemos observar a correlação positiva entre o crescimento do PIB per capita e o aumento das emissões de CO2.

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Ao considerar-se o desempenho de uma economia em função do seu crescimento, algo acontece à medida que toda essa atividade económica se expande, é que a quantidade de energia e recursos que usamos também aumentam. Assim, a única solução é uma transformação extrema do nosso modo de vida. Por outro lado, os países mais pobres, ditos do Terceiro Mundo, precisarão de um mínimo de crescimento para elevar os seus bastante baixos padrões de vida e para alimentar a sua crescente população.

Enquanto redigia este texto li um artigo de opinião de João Miguel Tavares, com o qual muitas vezes discordo, que, oportunamente, veio em auxílio dos meus argumentos e que pode ler aqui. Escreveu JMT que:

“…. Alerto apenas para o facto de muitas discussões partirem do pressuposto de que as pessoas ainda não estão convencidas da existência do aquecimento global (por exemplo), e só por isso não agem. Infelizmente, o problema é bem mais assustador: elas estão convencidas, mas ainda não sofreram o suficiente por causa dele para justificar uma alteração drástica do seu modo de vida…”.

Pois é. É este o ponto fundamental das questões climáticas. E, mais uma vez, até lá funciona nas pessoas a síndrome da terceira-pessoa.

Nota: As minhas desculpas por algumas imperfeições do texto porque este foi escrito ao correr da pena.

 

 

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publicado às 18:45

Lisboa é um perigo e Medina quer lá saber

por Manuel_AR, em 31.07.21

 

Moda das trotinetes elétricas pode causar problemas a peões

Em Julho escrevi neste blogue sobre os candidatos à Câmara de Lisboa, Carlos Moedas e Fernando Medina a este último considerei que é o candidato dos biciclistas e trotinetistas tendo-me referido à anarquia daqueles veículos pela cidade de Lisboa. 

Hoje, ao ler na Revista Sábado de 29 de julho a coluna de opinião de Nuno Rogeiro, reparei com agrado que não estou sozinho no mesmo sentimento. Escreve então o autor que a "Falta a fiscalização do uso de trotinetes elétricas, com muitos acidentes. Cruzamento suicida de bicicletas e trânsito automóvel, com faixas mal instaldas, tudo agravado por elemntos metálicos fora do lugar. A Av. Almirante Reis, por exemplo é a balbúrdia."

 

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publicado às 18:58

O editorial de hoje , 26 de junho de 2021, do jornal Público escrito por Ana Sá Lopes tem a vantagem de nos possibilitar refletir sobre algo que, na maior parte das vezes, passa ao lado de alguns das direitas que usam palas no olhos que os obriga a olhar apenas num só sentindo esquecendo-se do papel ativo que tiveram nos desenvolvimentos do terrorismo no pós 25 de Abril, (não  esquecer o MDLP), muitos deles andam por aí utilizando a democracia que o dito cujo dia lhes trouxe para o boicotar logo que lhes oferçam condições para isso.

O editorial esclarece isso mesmo e ajuda e contribui para evitar a amnésia história que muitos pretendem.

 

Editorial

Obrigada, Presidente Eanes (sobre Otelo)

A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos).

Já que o nosso Presidente da República em funções se sente mais à vontade a elogiar Marcelino da Mata do que a prestar homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho, é fundamental agradecer ao antigo Presidente Ramalho Eanes ter vindo lembrar duas coisas básicas: “A ele [Otelo] a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.” Depois do texto confuso com que Marcelo decidiu “evocar” Otelo Saraiva de Carvalho no dia da sua morte, é um bálsamo saber que há um ex-Presidente da República, que abandonou as funções em 1986, capaz de sentido de Estado no momento da morte de um homem decisivo para a nossa liberdade. É evidente que Ramalho Eanes é um homem do 25 de Abril e Marcelo Rebelo de Sousa não é – talvez isto também ajude a explicar que o “filho do governador colonial” esteja mais à vontade para fazer a homenagem a Marcelino de Mata do que para “evocar” Otelo.

Ramalho Eanes não silencia o papel de Otelo nas FP-25 e é claro a condenar os “desvios políticos perversos, de nefastas consequências”. Por esses “desvios políticos perversos”, Otelo passou cinco anos em prisão preventiva. Sim, Mário Soares pressionou PS e PSD a aprovarem a amnistia – mas também tinha sido Mário Soares a pressionar para o regresso de António Spínola a Portugal (esteve exilado no Brasil e em Madrid), outro cabecilha de uma organização terrorista, o MDLP, só que neste caso era terrorismo de extrema-direita. Quando morreu, em 1996, o homem do MDLP teve direito a luto nacional. Otelo, parece que por vontade expressa do primeiro-ministro imediatamente aceite pelo Presidente da República, segundo diz o Expresso, não terá.

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Leia o jornal Público

A direita gosta muito de se insurgir contra os alegados “donos” do 25 de Abril. O problema – e agora veio ao de cima mais uma vez na morte de Otelo Saraiva de Carvalho – é que demasiadas pessoas de direita nunca se sentiram à-vontade com o 25 de Abril (e passaram o sentimento aos filhos). O facto de muitos dirigentes políticos de direita, incluindo Cavaco Silva, se recusarem a utilizar o cravo na lapela – o símbolo popular do 25 de Abril – é todo um tratado de semiótica.

Quem se espanta com a violência verbal que anda no Twitter devia conhecer o meu “liceu” nos anos 80: a fractura dos defensores do 25 de Abril contra aqueles que apenas aprenderam a “viver habitualmente” com o 25 de Abril estava tão exposta naquela época como hoje. Na verdade, a única novidade é a existência de redes sociais.

Devemos agradecer profundamente a Otelo o 25 de Abril. Mas também devemos estar gratos às várias lideranças dos partidos de direita pelo facto de terem conseguido “integrar” muitos dos desolados do 25 de Abril na democracia. São dívidas históricas.

  

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publicado às 23:37


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